Eloy Melonio
Talvez fosse mais interessante se todos nós tivéssemos uma só opinião, uma só filosofia política, uma só religião. Mas isso, sabemos, é utopia. Bom mesmo é saber que somos diferentes, pensamos diferente. Temos visões e opiniões diferentes sobre a vida e sobre nós mesmos. A crônica que segue, em formato de conto, é uma reflexão sobre essas visões. Boa leitura!
O cidadão Décio Brasil acabou de sentar-se num banco da praça Boa Esperança, no centro da cidade. Precisava descansar. Sua pernada até ali não foi moleza. Viera de um posto de saúde onde foi checar sua pressão alta. Agora era esperar o ônibus que, infelizmente, demoraria mais que o usual, pois, — a menos de cinco dias da eleição presidencial — um comício foi realizado ali horas antes, e o trânsito estava um inferno.
Jamais imaginou encontrar Everaldo Brasil, um velho amigo do bairro onde morava antes de se mudar para um conjunto da Cohab vinte anos atrás. O sobrenome e o fato de terem sido vizinhos era só o que tinham em comum. Cumprimentaram-se e falaram de suas famílias, da vida e sobre as novidades em geral. Coisas de amigos que não se viam há muito tempo.
A conversa se desenrolava bem até que Everaldo, eufórico, perdeu o prumo: “Pois é, amigo, tava aqui no último comício do meu candidato. Terminou há uns quarenta minutos, e o povo tá se dispersando. Tá todo mundo confiante. Tenho certeza de que vamos pra cabeça. Nosso candidato deu um show, escancarou de vez. Muitas verdades voaram sobre nossas cabeças. Falou de tudo... Da nossa situação atual, de seus projetos para melhorar nossa vida. Deste nosso Brasil e, principalmente, do seu opositor, um corrupto indecente que se apresenta como salvador da pátria.
Décio ouvia tudo calado. Levantou-se para se despedir quando viu seu ônibus surgindo numa brecha na rua, entre muitos carros, motos e outros ônibus. Everaldo ofereceu-lhe carona, pois morava numa área próxima à sua casa. E também já estava indo embora. Terminaram dentro do Hyundai Creta de Everaldo. Parecia uma boa oportunidade de pôr a conversa em dia.
No carro, Everaldo continuou sua doutrinação. E detalhou partes importantes do programa de governo de seu candidato. Não sem antes detonar o opositor. Coisas horríveis, especialmente, detalhes de sua vida pessoal. Chamou-o de ladrão, mentiroso... e outras “palavrinhas” inomináveis. Do seu candidato, só maravilhas. E, enfim, fez a pergunta que acenderia uma fogueira. “Você vai votar nele, não vai?
Um breve silêncio pareceu uma eternidade para Everaldo. Convicto, com voz calma, o amigo revelou: “Não, não. Vou votar no outro”. "No outro?!”, gritou Everaldo em tom insolente. “Não acredito! Você, uma pessoa esclarecida... Pelo menos nos nossos velhos tempos!”. Ao que Décio, num tom firme, reconfirmou: “Pois é. Meu candidato já está decidido desde antes da campanha”.
“Tá certo. Eu entendo”, retrucou Everaldo. “Ou melhor, tento entender. Mas olha aqui: você lembra do que lhe falei lá na praça. O Brasil precisa de você agora”.
Desta vez, Décio se posicionou com mais firmeza: “Sim. E sempre que precisou, eu atendi sua reivindicação. Errei algumas vezes, acertei outras. Mas sempre votei com o espírito de um brasileiro responsável”.
“Pois é, amigo!”, retomou Everaldo. “Esse é o problema: esse tal de 'espírito responsável'. Isso não resolve nada. Nessa eleição não tem espaço para isso. Precisamos ser objetivos. Agora é vai ou racha. Temos de fazer alguma coisa para salvar este país.”
Mais firme ainda, Décio se manteve fiel à sua consciência: “Concordo com essa ideia de salvar, pois é exatamente isso que eu pretendo fazer com meu voto”.
Everaldo cerrou os lábios e, num sorriso debochado, revelava sua decepção. Mas, comprometido que era com sua ideologia, não podia dar-se por vencido. E disparou: "Tudo bem, meu irmãozinho! Mas eu te peço só uma oportunidade. Vou deixar contigo estes panfletos com as propostas do nosso candidato. Queria que você conhecesse suas metas e preocupações. E, mais importante, sua honestidade. Pego já o teu Zap. E amanhã eu ligo pra gente conversar. Também vou lhe enviar alguns vídeos. E, nesta quinta, na nossa última manifestação, venho te apanhar aqui na tua casa".
Décio recebeu o material sem dizer nada. Três minutos de silêncio, e ele decidiu ser o mais claro possível: "Sabe, Everaldo, como já falei, meu voto já está decidido. Já fui muito nessa onda do ‘precisamos fazer isso, precisamos fazer aquilo’. E aí, a gente faz isso e faz aquilo. Os anos passam e a realidade continua mais crua do que nua".
Insistente, Everaldo entrou com o “dito” para fechar com o não-dito. “É, amigo, você tem certa razão, mas desta vez a coisa é diferente. As pessoas de bem deste país precisam se posicionar. Não podemos perder essa eleição. Não aceitamos outra possibilidade. Por isso, nosso engajamento. Aqui só pra você: é guerra, papai! Guerra!”
Depois de um incômodo silêncio, Décio se posiciona de forma mais incisiva: "É o que eu também acho. Por isso já escolhi o meu candidato. Para mim, ele é um guerreiro de verdade. E essa escolha é só minha. Se der certo, sou vitorioso. Se não, paciência. Sempre foi assim. Presto contas a mim mesmo, sem pressão”.
Fim da linha, os dois se separam. Décio saiu do carro e caminhou para sua casa, que estava à vista. E pensou: “Como pode alguém querer comprar a consciência do outro?”. Ao mesmo tempo, assobiava os versinhos da canção de Djavan: "Meu bem querer/É segredo, é sagrado/ Está sacramentado/ Em meu coração".
À caminho de casa, Everaldo — frustrado e irritado — gritava em desespero: “Que filho da puta! É por isso que este país não vai pra frente".
.......
Em foto, abaixo, Eloy Melonio, o autor .