“BATEDÔ” *
Joema Carvalho
Ele ergueu a arma para cima e atirou. O som ressoou em milésimos de segundo enquanto se colocava em posição de um novo tiro, mirado no irmão logo a frente que era o mais velho, 86 anos, cardíaco. Apesar da idade e debilidade, colocou o peito quase junto do que estava com a arma e disse:
- Atira!
O sol a pino traduzia a tensão daquele momento. O pasto cerrado ocupava a paisagem desgastada, erodida de pessoas, no centro de um território continental.
No meio daquele batedô, os outros irmãos, sem chapéus, chegaram. Se ele atirasse, estaria morto. O com arma na mão, ficou acuado. O tiro devia ter sido antes.
Calibre 38, recém adquirido de um intermediário que comprava arma de um delegado, estava na mão do filho único da irmã solteira, aquela que não devia ter parido, embaixo do bolo de cenoura com cobertura de chocolate, feito por esta mãe, na madrugada daquele dia, antes de viajarem para a fazenda, a duas horas de onde moravam. Seria servido no piquenique. Ele não suava frio. Estava atento feito ave de rapina mirando carcaça.
O motorista que cuidou de todos, quase centenário, sumiu com o 38 que estava debaixo do bolo. Escondeu no mato, embaixo de pedras e cactos. Onde ele sabia o lugar. A polícia podia chegar:
- Fiio, me dê aqui.
O dia era de resgate da infância. Relembrar os momentos em família. Quando da bica que escorria do olho d´água, em frente da casa ainda intacta, o líquido alcalino que todos tomavam. Principiava um lago, onde se banhavam e que depois, seguia para o brejo do arrozal, nos fundos da casa. Nada se perdia. Mineral rico, pouco comum, no norte seco. Um bosque de eucaliptos seguia um pouco mais a frente, trazendo frescor para a varanda, troncos que precisavam mais de dois braços para abraçá-lo. O cheiro das suas folhas chegava até onde ficavam no final da tarde, ao som da viola de sete cordas do irmão que sabia tocar.
A Fazenda em inventário trazia o muro caído feito por escravos. O da arma derrubou e se apossou das terras. Em inventário seguia o nono para cada parte em herança nas veias de um colapso.
Dali, saíram para a delegacia. O que atirou seguiu para uma cidade próxima da fazenda. Queria que ela ficasse só para ele. Fez o contrato de compra e venda, antes do inventário. Os demais irmãos, em caravana, para outra cidade, também ali perto. Estrada de chão, terra bem batida.
O boletim de ocorrência ficou pronto quando o que atirou ainda estava na delegacia. Saiu dali preso, depois de um telefonema. O grupo levou vantagem porque o filho da mãe estava filmando quem atirou com o celular. O delegado só mandou prender.
Levaram as cestas com os comes e os bebes. Enquanto aguardavam serem liberados, sentaram-se na parte da frente da delegacia. Junto dos oficiais continuaram o piquenique. A história terminou as 6 horas da manhã, com a foto tradicional de família ali mesmo.
De repente, por delivery, a fiança de 10.000 reais chega. Quem atirou foi solto. O filho da mãe continuou com a cara de amado, ainda rosada. Ele tinha pouco mais de 18 anos. Preparado, só curtia o couro.
* Batedor / batedô é muito usado aqui para se referir, por exemplo, a bar cheio apesar da pandemia, local cheio de pessoas onde ocorre confusão ou coisa que não devia estar ocorrendo.
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