
O ano letivo de 2023/2024 marcou um salto expressivo nas tentativas de restringir o acesso a livros em escolas dos Estados Unidos. Foram 10.046 casos de proibição, quase três vezes mais do que no período anterior, que registrara 3.362 ocorrências. Os dados são da PEN America, organização dedicada à defesa da liberdade de expressão, e revelam um movimento que, embora global, encontrou terreno fértil no país em meio ao avanço de correntes ultraconservadoras.
Apesar da escalada de restrições, pesquisas mostram que a sociedade norte‑americana não é homogênea nesse debate. Um levantamento conduzido em 2022 por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia indicou que a maioria dos cidadãos apoia que estudantes do ensino médio discutam temas considerados sensíveis — como racismo, direitos da população LGBTQI+, aborto e controle de armas. Mesmo no caso das pautas LGBTQI+, onde o apoio é menor, prevalece a ideia de que livros sobre o assunto devem estar disponíveis nas bibliotecas escolares. A divisão aparece quando a pergunta envolve recomendação direta por parte dos professores.
A discrepância entre opinião pública e políticas educacionais se acentua quando se observa o cenário estadual. Pesquisadores do Boston College identificaram 31 leis aprovadas desde 2021 com viés antidemocrático no ambiente escolar. Muitas delas restringem explicitamente debates em sala de aula ou determinam a retirada de obras de bibliotecas. A Flórida tornou‑se o caso mais emblemático: as normas alcançam até universidades e preveem punições a docentes. Um relatório publicado em 2023, The Limitation Effect, registrou efeitos colaterais preocupantes a partir de entrevistas com professores e famílias.
Entre as consequências relatadas estão escolas que passaram a adotar exclusivamente livros didáticos, evitando qualquer material complementar por medo de sanções. Distritos inteiros suspenderam o uso de plataformas digitais de leitura por não conseguirem revisar todos os títulos. Bibliotecas removeram obras premiadas que mencionavam qualquer forma de conduta sexual — situação que ecoa episódios recentes no Brasil, como a retirada de O avesso da pele, de Jefferson Tenório, em estados como Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná. Nos EUA, segundo a PEN America, os principais alvos são livros que abordam racismo e temas LGBTQI+.
Os argumentos usados para justificar as proibições variam. Há quem alegue combater “doutrinação política”; outros afirmam proteger crianças de conteúdos considerados inadequados. Também ganham força discursos que classificam como “divisivas” abordagens críticas da história do país, sob a justificativa de que distorceriam fatos. Em alguns estados, leis reforçam a primazia das famílias sobre as escolas na definição do que os filhos devem ler.
A contradição é evidente: educadores continuam sendo cobrados para desenvolver o pensamento crítico, competência central na formação contemporânea, mas enfrentam limites rígidos quando esse pensamento desafia narrativas oficiais sobre democracia e igualdade.
É fato que salas de aula — tanto na educação básica quanto no ensino superior — nem sempre são espaços plenamente abertos ao contraditório. Esse é um desafio real, que exige diálogo qualificado. Mas quando a resposta institucional passa a ser a censura de livros e temas controversos, o efeito colateral é claro: empobrece‑se o debate público e restringe‑se a capacidade coletiva de compreender a complexidade do mundo.
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