
*Mhario Lincoln
É simplesmente sobrenatural ler “Adagas & Punhais”, do imortal da Academia Poética Brasileira, escritor e pesquisador Antonio Guimarães de Oliveira. Isso porque a lúcida e translúcida, abordagens sobre o período do fenômeno social do Cangaço, fervilhante entre os anos de 1910 a 1940, continua mistificado através de alguns atos subsequentes, em pleno século XXI, nos levando a acreditar que mesmo mortos, há, sim, uma estetização de Lampião e seu Bando, espalhando lampejos de ódio e amor nessa região.
Desta forma, o abandono da planta humana e a invasão instrumental da industrialização, fazem, de uma forma ou de outra, grupos do sertão nordestino, desiludidos com os poderes públicos, abdicarem da busca legal de conduta e buscarem auxílio da mítica e volumosa aventura compostelar do cangaceiro, a fim de minimizar o sofrimento. Chateaubriand, em artigo que abre o livro de Antonio, à guisa de Prefácio, diz, “(…) sem o progresso, teremos ali (no Nordeste) permanente endemia do cangaço”.
Quando o autor escolheu o tema para nele se debruçar, sabia de antemão das incertezas dos arquivos históricos, das dificuldades, da complexidade, das informações duvidosas e controversas, onde figuras como a de “Lampião, Maria Bonita, Tenente João Bezerra, José Rufino, Corisco, Dadá, Padre Cícero, coronéis, coluna Prestes, coiteiros, chefes políticos, fotógrafos, jagunços (…)” e outros, foram temas de milhares de estudos e livros pertinentes, sendo alguns, com linhas mestras de novas ideias e conclusões, outros, apenas repetidores do que haviam lido em algum momento, em fontes nem sempre confiáveis.
Aí está a diferença de “Adagas&Punhais” com relação a tantas outras publicações. Primeiro, uma vasta e histórica amostragem de ilustrações de época, rigorosamente fiéis aos propósitos da obra, de forma a posicionar visualmente, como uma rica ilustração audiovisual, o leitor, deslocando-o do agora, para o antes, tornando-o, como falava o slogan do inesquecível Repórter Esso, uma “testemunha ocular da história”.
Segundo, realinhando textos originais de jornalistas, os quais vivenciaram cada momento dessa angustiosa missão cangaceira, sem atribuir a Lampião, a alcunha de Hobin Hood, tão comum em algumas das intervenções publicadas por centenas de impressos dessa época. Antonio de Oliveira procurou mostrar o fato como ele o foi, republicando páginas autênticas, após uma hercúlea pesquisa de muito tempo e muito investimento pessoal para realizá-la.
Por essa razão podemos encontrar, por exemplo, algo simplesmente fantástico, até então desconhecido para inúmeras pessoas: a cantoria “Mulher Rendeira”, de domínio público, era entoada pelas caatingas nordestinas por cangaceiros e volantes, naquele ambiente, pelo andarilho Volta Seca e popularizada por Luiz Gonzaga. “Olê Muuié rendera/ Olê muié rendá/ Tu me ensina a fazê renda/ eu te ensino a namorá”.
Outros fatos quase que inéditos para a maioria de nós, pobres leitores, iluminou a pesquisa de Antonio de Oliveira. Lá pelas páginas 260/61 encontrei para a minha felicidade, trechos de repentistas, cantadores, cordelistas que, no fundo, ao contrário da voz oficial, inimiga ferrenha do cangaço, cantava os feitos de Lampião e seu Bando. Como em “Sabino e Lampião”.
“Lá vem Sabino/Mais lampião/ Chapéu de Couro/Fuzil na mão”. Esses versos, cordéis, xaxados e quadrinhas eram produzidos dentro do mesmo grupo do chefe. Destacavam-se como compositores, Zé Baiano, Moura e Jitirana. O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello conta que “lampião também cantava, apesar de Dadá dizer que sua voz era esfarrapada”.
Esta obra não se preocupou em alcunhar tecnicamente Virgulino Ferreira da Silva. Mas contar fatos e muitos fatos (são mais de 500 deliciosas páginas ilustradas) que vêm, sem dúvida, alimentar o nosso consciente coletivo de modo a repensar e refletir sobre a grandiosidade histórica (ou não) desse período tão estudado por brasileiros e estrangeiros.
E claro, para finalizar e ratificar o que escrevo, basta relembrar uma passagem interessantíssima. Consta que o bando assaltou a Casa da Baronesa de Água Branca, D. Joana Vieira de Siqueira Torres, após uma ação considerada épica, quando da invasão da cidade. E aí, acontece um fato também desconhecido de muita gente: Lampião gostava muito de perfumes. Por isso, o crucifixo de ouro subtraído da baronesa, além de joias e dinheiro vivo, acabaram sendo distribuídos no grupo, sob o comando de Maria Bonita, que ficou com o crucifixo. Mas Lampião fez questão de ficar com os perfumes europeus que D. Joana escondia em seus alfarrábios, devidamente preparados para receber as peças.
Desse modo, “Adagas&Punhais”, a meu ver, não é um livro sobre Lampião e seu tempo, porque não se mete a se transmudar em verdades ou críticas ideológicas, mas em um apanhado de sensações, curiosidades, métodos, mística, vivência, como forma extraordinária de se contar uma passagem tão complexa como essa, mas altamente acessível a quaisquer que sejam as mãos e os olhos que venham a folhear e ler esta bela obra.
Receba, pois, meu confrade e amigo Antonio de Oliveira minha mais profunda admiração por este trabalho que reafirma o quão importante você é para a literatura contemporânea.
Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
Mín. 12° Máx. 17°