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editor-sênior, jornalista Mhario Lincoln
Brasil Editorial MHL

Editorial de Mhario Lincoln: "você conhece a história daqueles livros lançados com pompa, mas que não têm alma?

E qual seria o futuro do livro sem alma? Servir de moeda de troca nos Saraus, decoração na estante da sala, ser capa de Facebook, ou folha de rosto do Instagram; ou, simplesmente, um peso de mesa.

21/04/2024 05h34 Atualizada há 2 meses
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
Mhario Lincoln. Arte:MHLAI
Mhario Lincoln. Arte:MHLAI

A história dos Livros sem Alma

 

*Mhario Lincoln

Sabe aquele livro que você vê na prateleira, capa linda aí corre para ler e não passa da página 10? Esse é um livro sem alma. Sem respostas. Um livro composto por argumentações pessoais e intransferíveis, onde ninguém consegue transpor a barreira egóica do autor.

 

É um livro sem alma porque quem o escreveu o fez para ele mesmo, apenas para  mostrar ao maior número de pessoas 'sua grande obra', sem nem mesmo levar em conta que aquele texto impresso ali é, literalmente, só para o autor entender.

 

E se a gente for definir um livro sem alma é exatamente assim: a alma se despede das folhas e o livro vira um corpo inerte em uma cova rasa. Logo começará a exalar odores ruins e os sonhos soçobram diante da ideia de que escrever um livro é escrever exclusivamente para o autor ler e ponto final. Assim, mesmo que se distribuam milhares de cópias, a ninguém será dado o direito de comentar, criticar, induzir, indeferir, argumentar, sugeri, aconselhar...

 

E qual seria o futuro do livro sem alma? Servir de moeda de troca nos Saraus, decoração na estante da sala, ser capa de Facebook, ou folha de rosto do Instagram; ou, simplesmente, um peso de mesa.

 

Porém, um livro que tem alma, geralmente vem ao encontro das perguntas mais interiores do leitor. Perguntas abissais até... E quando esses questionamentos batem com as respostas de um livro com alma, 'abracadabra', o milagre acontece!

 

Pode até não virar um bestseller, porque bestsellers, na maioria dos casos, só o viram bestsellers, enquanto produtos de marca das editoras e da grande mídia que, também, integram o bolo percentual das vantagens numerárias.

 

Mas livros com alma, tocam tão profundamente o leitor, o qual, faz questão de guardá-lo na cabeceira de sua cama e, por inúmeras vezes, volta a abri-lo, antes de dormir ou ao acordar.

 

E como surgem os livros com alma? São os livros escritos NÃO para alcançar a fama - a passageira fama – nem para mostrar para os ‘coleguinhas’ que o autor ‘sabe escrever’ ou que também, ‘tem um livro publicado’. PORÉM para compartilhar, dividir, repartir uma ideia que possa servir para algo ou alguma coisa lá na frente. Que tenha algo que possa a ser citado.

 

Aliás, meu pai, quando cheguei afoito e eufórico com meu primeiro livro de Direito às mãos, saído da impressora naquele instante, ele olhou, pediu calma e me deu uma das maiores lições que recebi até hoje: “... filho, só se considere autor quando alguém de seu círculo ou de fora dele, citar seu livro em algum momento. Antes, ele é apenas um papel impresso”. Curto e grosso!

 

Arte: MHLAI.

À princípio não entendi. Anos depois, após estudar calorosamente em vários livros com alma, voltei a raciocinar sobre o que meu pai José Santos disse e imediatamente linkei com várias sábias palavras, que aprendi, lendo. Dentre elas, Platão quando em "Fedro", discute a importância da escrita e dos livros como uma forma de transmitir conhecimento e ser o ‘start’ para uma interação direta entre pessoas. Isso é lindo!

 

Outro grande sábio, Agostinho de Hipona, em "Confissões", fala sobre a importância da interpretação dos livros, inclusive da Bíblia, como orientação singular. Já Michel de Montaigne valorizava tanto os livros que um dia disse que eles, “(...) são instrumentos de autoconhecimento e reflexão”, e a leitura de um bom livro, deveria ser uma experiência pessoal e não apenas acadêmica”. Acertou em cheio, não?

 

Pois bem, livros com alma são bem diferentes, pois, antes de mais nada, incitam a importância da leitura para adquirir conhecimento e desenvolver o pensamento crítico. Ou seja, o autor dá a chance ao leitor, para suspeitar, dialogar, discutir, discordar do que ali está escrito. Exatamente essa chance do diálogo ou da discordância é que deixa os escritores egoístas e doentes, furiosos porque eles jamais serão donos da verdade, ou como o próprio Sócrates ensinava: “ninguém possui um conhecimento absoluto ou definitivo da verdade”.

 

Enfim, o livro com alma é um livro que consegue distribuir ideias com o leitor, que é o objetivo legítimo da obra. E essa legitimação, essa imersão do leitor diante das ideias plurais (e não só pessoais) do autor, que soa como um carimbo cartorário, aquele mesmo que concede Fé Pública ao documento.

 

Assim, quando você tentar ler um livro que não diverte, não define nada, não aconselha, não reclama, não chora, não abandona, não clama, não odeia, não ama... fuja dele, rápido, mesmo que tenha na capa a mais linda das ilustrações e o mais digno prefaciador. Apenas fuja dos hologramas fluídicos que embaçam a visão e o entendimento e acabam por fazer o leitor retroceder em seu legítimo direito de escolha.

 

*Mhario Lincoln é poeta, jornalista e Editor-sênior do Facetubes (www.facetubes.com.br)

 

12 comentários
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JaimeHá 2 meses Brasília/DFQue publicação valiosíssima, Parabéns!!!
Luis de FreitasHá 2 meses São Luís Meu poeta envaidecido com sua amizade.
João MarceloHá 2 meses Rio de JaneiroÉ horrivel como as pessoas não conseguem falar de suas deficiências no intuito de esconder elas. Se essas pessoas falassem delas ou pedissem ajuda, não seriam ridicularizadas. Lendo esse texto finalmente compreendi o que esses autores autoelogiáveis escrevem..LIVRO SEM ALMA.
Raimundo FonteneleHá 2 meses Barra do Corda Maranhão Muito bom não, excelente teu editorial, pois falas de uma coisa que não representa nenhum perigo, o livro sem alma, mas que nos rouba uma das maiores preciosidades da vida humana: o tempo.
EDOMIR MARTINS DE OLIVEIRAHá 2 meses São LuísE como surgem os livros com alma? São os livros escritos NÃO para alcançar a fama - a passageira fama – nem para mostrar para os ‘coleguinhas’ que o autor ‘sabe escrever’ ou que também, ‘tem um livro publicado’. Linda afirmativa. Vale apena pensar ler um livro que nos traz alguma contribuição pessoal ou a sociedade. Não vale continuar lermos se com 10 paginas lidas não nos deixou mensagem nem nos sugeriu interesse.
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