
*Mhario Lincoln
"Num duo melódico (voz masculina e voz feminina), Ubiratan Sousa e Kátya Teixeira, interpretam esse belo cântico imortal e mergulham numa obra celestial, cuja letra teve parceria de Giodano Mochel com Ubiratan Sousa. Ambos transformaram em melodia libertadora, uma ideia original, mas que tem base filosófica em Platão, Blake e Keats para celebrar a autonomia da arte". (Mhario Lincoln).
Esse clássico da MPB, construído através do dom carismático e musical de Ubiratan Sousa e Giordano Mochel se revela, à primeira audição, como uma obra de rara precisão melódica e poética. A melodia é estruturada com cuidado — cada acorde e frase expressiva contribuem para instaurar um diálogo íntimo entre o compositor e sua criação: “É uma melodia muito bem construída que explora elementos expressivos e isso para responder o mistério e o diálogo da canção e do poeta”, diz o maestro Sousa.
Por outro lado, a interpretação de Kátya Teixeira, com sua voz carregada de memória afetiva, potencializa essa percepção, conferindo à letra uma ressonância que transcende o mero texto musical.
Na base conceitual desse trabalho está a noção de criação poética remontando ao Gênesis simbólico: o poeta como demiurgo (divino), que mergulha em sua própria substância para dar à luz a algo que, embora provenha de si, possui existência própria.
Esse processo remete diretamente à Teoria das Formas, de Platão, segundo a qual as ideias puras existem em um plano atemporal e servem de modelo para o mundo sensível — assim como o poético “gênesis”, isto é, onde é projetado um mundo ideal por meio da criação artística.
Ainda me emociona a forma que os autores usam as metáforas de dor e renascimento — o poeta que “enche-se de sofrimento para gerar sua filha” — fazem lembrar o diálogo visionário de William Blake em "Songs of Innocence", no qual a criação poética brota de um encontro místico entre o artista e uma criação que, na verdade, representa a pureza e revelação.
Essa “filha” (a canção), que parte pelo mundo carregando a mensagem do mestre, ecoa também a concepção romântica de arte como instrumento de transformação social, livre para tocar os corações e redesenhar consciências.
Porém, longe de permanecer escrava de seu criador, a canção, segundo a própria letra, deve ganhar autonomia e percorrer livremente os caminhos humanos.
Em consonância, John Keats, em “Ode on a Grecian Urn”, exalta a permanência da beleza e sua independência em relação ao tempo e ao sujeito que a gera: “O que é pintado permanece para sempre, não morre pelo olhar”.
Enfim, volto à interpretação belíssima desse duo magistral que envolve as vozes de Ubiratan Sousa e de Kátya Teixeira que emprestam à letra uma sensação humana e visceral.
O jornalista, poeta e compositor Mhario Lincoln é editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
VÍDEO-BÔNUS
A música de Ubiratan Sousa e Giordano Mochel
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