
Sharlene Serra
Quando fecho os olhos e me entrego ao sentir, descubro que o corpo e mente é uma geografia sagrada. Vivências entre o tempo contido, cada marca, um ensinamento. O tempo em mim se converte em versículos e parábolas, escritos numa linguagem que só o coração decifra.
Sinto o pulso, esse termômetro divino que marca o ritmo da existência. Minhas veias são rios silenciosos carregando o mistério da vida. O sangue não é mero fluido, é palavra viva, texto sagrado bombeado pelo coração, meu altar interno. Neste santuário, reconheço a assinatura do Criador: perfeição oculta nas imperfeições, equilíbrio sublime na aparente fragilidade.
Ao respirar pausadamente, o ar se transforma em milagre dentro de mim. Meus pulmões, sanfonas divinas, sopram a musicalidade única da minha essência, que me leva até meu genitor. O oxigênio dança com a certeza do meu ser, alimentando essa máquina perfeita que funciona com precisão absurda, como um relógio movido pelo sopro eterno.
Nesta quietude, compreendo que meu corpo é linguagem viva. Cada músculo, cada respiro compõem versos de um poema maior. A pele que me delimita não é fronteira, mas membrana porosa que protege meu avesso escarlate, que mesmo nas diferenças, torna-me igual a todos os seres na essência.
Quando abro os olhos, não retorno ao mesmo lugar. Carrego dentro de mim histórias que se equilibram no fio do milagre da vida. Este corpo, aparentemente meu, é na verdade empréstimo sagrado, templo móvel onde o divino escolheu habitar.
E assim, esta percepção da alma, torna-se peregrinação pelo grande livro que somos, e para compreender, basta escutar o universo pulsando em nossas veias, onde a lacuna do nascer e o partir revela-se como fio dourado costurando-nos à eternidade.
Nos dois anos de saudade do meu genitor amado, descobri que a dor não é abismo, mas solo fértil onde suas raízes continuam vivas em mim. Porque o amor não se vai com a partida, ele transforma-se. Aquele que partiu não é ausência, mas presença moldada em lembranças e silêncios, feita de saudade. Cada lágrima é um rio que nos leva de volta ao seu colo invisível e o coração aprende a bater em dois tempos: o que fomos juntos e o que ainda existe em nós.
Nascer é começar a caminhada; partir é simplesmente devolver-se ao ventre divino. No intervalo, fica o amor, força indestrutível que permanece mesmo quando a carne virou poesia e neste caso, eu a entreguei ao mar.
Agora pai, sua voz é vento, seu abraço tornou-se calor no meu peito, suas lições são o chão que piso. Na cicatriz desses 730 dias de ausência, as palavras continuam me fazendo companhia. Não sinto vazio, sinto presença feita de memória e essência.
Deus manifesta-se no mar contínuo dos meus olhos, nas lembranças do legado de bondade que deixaste em cada gesto, em cada conselho que continua sendo sussurrado no meu ouvido interno. Tua partida não me enfraqueceu, fortaleceu-me. Agora te carrego não só na lembrança, mas no DNA da alma.
Quando fecho os olhos e escuto o universo em minhas veias, reconheço:
Não estás longe.
Estás no meu sorriso que herdou o teu, na minha resiliência que espelha a tua, no meu amor que é continuação do teu. A vida é círculo sagrado e minha caminhada permanece interligada à tua.
E assim sigo.
Com tua força.
Com nosso amor.
Com a certeza de que, em algum lugar entre o nascer e o partir,
estamos ainda (e sempre)
ligados pelo fio dourado, para toda
eternidade.
Sharlene Serra
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