
Mhario Lincoln/"Jornal Pequeno"/2001
O ANO era 2001. O mundo, mesmo com olhares gnósticos e agnósticos, não acabou em 2000, como muita gente aflita, imaginava porque, havia uma crença forte nisso, devido ao chamado "Bug do Milênio", um problema tecnológico que afetaria sistemas de computador antigos, os que usavam apenas dois dígitos para representar o ano.
Essa possível falha digital foi que gerou preocupação sobre possíveis caos em sistemas críticos como bancos e usinas nucleares. Além disso, algumas interpretações religiosas e profecias também contribuíram para a especulação sobre o fim dos tempos.
Porém, como o Mundo 'não acabou', voltou à baila, no conseguinte, a grande discussão política no Maranhão: sucessão e mudanças nas peças político-partidárias da época, esta, de muita ebulição e no meio dela, afloraram discussões sobre a possibilidade de uma eleição influir na mudança direta do rumo do Estado.
No meio de tudo isso, vinha eu passando em frente ao Centro de Criatividade Odylo Costa Filho (Reviver/Slz-MA), quando avisto alguém que poderia ser o combustível para minha entrevista semanal em minha coluna no “Jornal Pequeno”. O ex-deputado Carlos Guterres; essa figura das mais expressivas da política do Maranhão e que me concedeu, sem medo de errar, uma entrevista rápida, mas exclusiva.
Nessa conversa o ex-deputado e ex-candidato a Prefeitura de São Luís, que dormiu eleito e acordou com a vitória adversária, testemunhou pra mim momentos especiais, a partir de suas experiências como fundador do MDB no Maranhão, com atuação destacada na Câmara Municipal de São Luís e amigo pessoal de Epitácio Cafeteira, por quem teve discussões homéricas, no período em que foi deputado estadual.
"Eu fui testemunha ocular de grandes mudanças políticas neste Estado", disse-me. Com certeza! Seu nome está escrito nas páginas partidárias da capital, principalmente, por ser um homem duro, às vezes; mas outras, maleável e aberto ao diálogo.
Por isso, sua morte (21.07.2025) foi sentida por todos os lados ideológicos do Maranhão. Esta entrevista mostra isso, em toda a sua plenitude - "Mhario o que te contei aqui, não tinha falado ainda pra seu 'ninga'", brincou ao se despedir, caminhando solitário, a pé, rumo a uma das entradas do Mercado da Praia Grande, onde, segundo ele, iria "tomar uma juçara fresquinha na minha comadre".
A ENTREVISTA
“Hoje tem imbecis, metidos a políticos, que querem vencer na política do Maranhão subindo na escadinha da honra de cada um.” Carlos Guterres.
Mhário Lincoln: Como você vê o acordo entre Jackson Lago e Roseana Sarney.
Carlos Guterres: Eu não acredito nesse acordo para o governo do Maranhão.
MHL Acha que Jackson volta para a oposição?
CG: Acredito que alguém tem que unir a oposição.
ML: Existe oposição ainda, Carlos Guterres?
CG: Claro, Mhario! Mas ela está desunida. É por isso que não se ganha mais eleição aqui. Se ela se juntar - todos os seguimentos da oposição, deixando de lado os rufos e os interesses de cada um, para visar os interesses sociais exclusivamente do Estado, - ela passa a ser fortíssima. Ninguém tira.
MHL: Cafeteira ainda é forte para o Governo do Estado?
CG: Cafeteira é sim, nome para Senador, para Governador... Agora eu acredito que ele esteja hoje mais voltado ao Senado. Estou sabendo que ele tem um acordo firmado com Jackson Lago para compor uma possível chapa, onde ele seria candidato a senador. Acho Cafeteira um homem de grande penetração política em todo o Estado. Ele tem carisma, tem força eleitoral. Ninguém pode pensar em eleição no ano que vem que não passe pela participação de Cafeteira. O próprio grupo Sarney sabe do potencial de Epitácio Cafeteira. Jackson também sabe. Por isso, se esse chapão vier a se consolidar, vai sair forte e vai dar muito trabalho para a situação, caso estejam em lados contrários (risos).
MHL: E se o PSD abrisse vaga para você concorrer à Assembleia Legislativa?
CG: Não! Eu fui 16 anos deputado estadual e já briguei muito. Lembra de 78, numa das mais concorridas eleições da história? Nela, obtive 20 mil votos.
MHL: Mas, na época, Haroldo Sabóia também foi bem votado, não foi?
CG: Foi, sim! Foi bonita a disputa. A eleição foi polarizada entre nós dois. Na época, São Luís possuía um eleitorado de 80 mil votos. Só nós dois tivemos 40 mil. Uma coisa realmente para ficar na história, com certeza. Já dei minha contribuição eleitoral.
MHL: Pela emoção como você me contou esse episódio, marejando os olhos, você tem ainda saudades do parlamento?
CG: Deu‑me grandes alegrias. (Nesse momento ele para e fixa os olhos alguns minutos no prédio onde funciona, hoje, a Câmara Municipal de São Luís. Esta entrevista foi concedida em frente ao Odilo Costa, filho, no ‘Reviver’). Tem coisas na vida da gente, Mhario, que nunca se pode esquecer…
MHL: Você que falar sobre isso?
CG: Claro! O parlamento me deu alegrias a partir do momento em que eu pude em minha vida legislativa, como vereador e deputado estadual, desfraldar a bandeira do servidor público. Esse segmento foi sempre meu aliado nas lutas ferrenhas que eu travei contra o governo e contra quem humilhou o barnabé. Eu levei até o fim. E hoje, quem é o parlamentar municipal, estadual ou federal que realmente defende o servidor público tão massacrado neste País?
MHL: Esse, então, foi um dos momentos alegres da sua vida parlamentar. E os tristes?
CG: Eu também vivi momentos muito tensos durante a Revolução. Eu era líder da bancada da oposição naquela época do "quero, posso, faço e mando". Mas eu nunca radicalizei, mesmo sendo fundador do MDB (ficha01) e do PMDB (ficha01). Passei pelo PPB, de Cafeteira e agora estou no PSD, de Manoel Ribeiro.
MHL: Qual a relação de amizade entre Cafeteira e Manoel Ribeiro?
CG: Não sei, Mhario. Acho que eles se dão bem.
MHL: Qual sua relação com o deputado Manoel Ribeiro?
CG: Eu gosto dele como cidadão e como parlamentar. Ele pode até ter seus defeitos como todo mundo tem. Mas uma vantagem nisso tudo é que ele nunca deixa de ser amigo de quem é amigo dele. Não abandona os amigos.
MHL: Ele é um nome para o governo, também?
CG: Como não? Pode até ser, né. Ele tem competência. É um homem que não dorme. Está sempre trabalhando. É incrível a força de trabalho, a percepção, o carisma e o talento político de “Mineirinho”. Mas tem, igualmente, um outro nome fantástico, pela idade, que poderia tranquilamente ser candidato ao Governo: José Reinaldo Tavares. Não tem máscara. Outro nome, por outro lado, Roberto Rocha, caso a oposição consiga realmente se juntar. Ele tem posições assumidas e filho de uma mesma política. Aliás, Roberto é mais político que o pai, diga‑se de passagem.
MHL: Com tantos nomes citados por você, quanto à sucessão, por que não volta à ativa engajada numa dessas campanhas? Ou está em stand by?
CG: Está cedo, Mhario. A eleição só no ano que vem. A eleição é difícil. O povo tem que aprender a votar para não quebrar a Câmara Federal e o Senado. O que vai acontecer é que a eleição é dura e perigosa.
MHL: Um desses exemplos passa, na sua opinião, pela rejeição do senador José Sarney à presidência do Senado?
CG: (Risadas e reflexão). Olha, Mhario, nós somos adversários, apesar dele ter me apoiado, até, na minha candidatura à Prefeitura de São Luís. O Sarney é um nome, gente. Não se pode desprezar a honra de um cidadão. Se eu for candidato, verão alguns me apontando defeitos como se eu fosse marginal. Não se respeita mais ninguém. Hoje tem imbecis, marginais, metidos à políticos, que querem vencer na política subindo na escadinha da honra de cada um…
MHL: Vamos aproveitar esse seu estado de espírito, o momento, e voltar àquela pergunta anterior: quais suas tristezas no parlamento?
CG: Eu não tive decepções legislativas. Os meus adversários, sim. Como você disse na Assembleia, quando fiz com que toda a bancada do governo se retirasse do Plenário. E nosso grupo pôde liderar a época. Tinha sete deputados como Bayma Serra, Isaac Dias, Gervásio Santos, José Brandão; esses foram colegas fantásticos que deram muito de si em favor do Maranhão, não deixando o Governo “levar com a barriga as coisas.
MHL: Das pessoas que já se foram, quais foram os maiores líderes da Assembleia?
CG: Na minha geração da Assembleia, tenho muito orgulho de Gervásio Santos. Do outro lado do governo, respeitava Raimundo Leal pela fidelidade às suas causas — não “cambalear”! Mas tenho saudades, ainda, de Fernando Falcão, era um camarada excelente. Nagib Haickel, pelo coração tão grande que acabou morrendo de causa política.
MHL: E sobre Roseana Sarney?
CG: Olha Mhario isso é uma entrevista ou uma inquisição? (Risos)...
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