Sexta, 12 de Junho de 2026
12°C 17°C
Curitiba, PR
Publicidade

Ministro Reynaldo Soares da Fonseca concede entrevista exclusiva a Plataforma Nacional do Facetubes

Elaboração e organização das perguntas do colaborador, poeta e filósofo Rogério Rocha.

07/08/2025 às 11h35 Atualizada em 07/08/2025 às 13h19
Por: Mhario Lincoln Fonte: Ministro Reynaldo Soares da Fonseca/Rogerio Rocha
Compartilhe:
EXCLUSIVO
EXCLUSIVO

 

NOTA DO EDITOR: Em homenagem aos dez anos de atuação do Ministro Reynaldo Soares da Fonseca no Superior Tribunal de Justiça, será lançado no próximo dia 12 de agosto, das 18h30 às 21h, no Espaço Cultural do STJ, o livro Liber Amicorum. A obra, publicada em dois volumes e organizada por renomados juristas brasileiros, representa mais do que uma celebração institucional: é o reconhecimento de uma trajetória jurídica marcada pelo humanismo, pela erudição e pelo compromisso com a justiça social.

Com curadoria editorial de Wilson Furtado Roberto, Aline Gomes Caselato, Guilherme Veiga, Eronides Aparecido R. dos Santos, Luiz Henrique Merlin e Carlos Magno Costa Teixeira, o Liber Amicorum reúne contribuições acadêmicas que dialogam com o pensamento jurídico do ministro, sua atuação nos tribunais superiores e seu legado como educador e escritor. A expressão em latim — que significa "livro dos amigos" — reflete justamente a estima e a reverência que o ministro inspira no meio jurídico e acadêmico.

Nascido no Maranhão, Reynaldo Soares da Fonseca formou-se em Direito pela Universidade Federal do Maranhão e construiu uma carreira sólida e coerente na Procuradoria Geral do Estado do Maranhão e na Magistratura Federal, até chegar, em 2015, ao cargo de Ministro do STJ. Doutor em Direito pela Faculdade Autônoma de São Paulo - Fadisp e Pós-Doutor em Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra tem como marca pessoal o profundo respeito à dignidade humana, aos princípios garantistas e à função social do Judiciário, sendo uma das vozes mais sensíveis às causas penais e aos direitos fundamentais no cenário jurídico nacional.

Continua após a publicidade

Sua atuação no STJ é notavelmente equilibrada entre o rigor técnico e a sensibilidade humanística. Não por acaso, é reconhecido tanto por seus votos em matérias complexas quanto por sua atuação em favor da educação jurídica e da construção de um Judiciário mais próximo do cidadão. Além disso, é autor de diversos livros e artigos que se tornaram referência em áreas como execução penal, direito processual e criminologia crítica.

O evento de lançamento do Liber Amicorum é, portanto, mais do que uma cerimônia editorial: é um gesto coletivo de gratidão ao jurista que, ao longo de uma década, não apenas interpretou as leis, mas também lhes devolveu o sentido humano e social. Trata-se de um tributo à ética, à inteligência e à esperança no Direito como instrumento de transformação.

Mhario Lincoln
Editor Sênior da Plataforma Nacional do Facetubes

Em tempo: Agradecimento especial ao colaborador do Facetubes (www.facetubes.com.br), filósofo e poeta Rogério Rocha, pela entrevista exclusiva com o Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, transcrita abaixo, a quem igualmente agradecemos ao Ministro, de público, a acolhida e o aceite.

 

EXCLUSIVO

ROGÉRIO ROCHA - 1. Nesses 10 anos de STJ, quais momentos considera mais representativos da sua atuação na Corte e por quê?   

Ministro Reynaldo Soares da Fonseca:  “Somos aquilo que lembramos”, já dizia Noberto Bobbio. Assim, tenho que registrar, em primeiro lugar, que exerço a magistratura desde 1992 ( Juiz de Direito do TJDFT) e 1993 ( Juiz Federal – TRF/1ª Região). São 33 anos de judicatura, portanto. Antes, fui Procurador do Estado do Maranhão ( 1986 a 1992), servidor da Justiça Federal ( 1985/1986) e servidor do TJMA ( 1982/1985). Desde  1987, sou professor universitário ( UFMA; hoje, UNB).

Continua após a publicidade

Cheguei, portanto, ao STJ em 2015, como juiz de carreira, representando a querida Justiça Federal. Trouxe comigo os olhares do norte/nordeste e do centro-oeste, da magistratura e da minha atuação como docente.

No Superior Tribunal de Justiça, estou desde o início na 3ª Seção e na Quinta Turma, atuando na esfera penal. Ao mesmo tempo leciono na Universidade de Brasília Processo Penal e Direitos Fundamentais da Fraternidade ( Direito, fraternidade e Políticas Públicas).

Assim, sistematizo alguns momentos mais representativos dos meus últimos dez anos no Tribunal da Cidadania:

a. Aplicação inédita do princípio da fraternidade no direito penal

Em junho de 2021, como relator do RHC 136.961, determinei o cômputo em dobro do tempo de prisão cumprido em condições degradantes, baseando-me no princípio da fraternidade e no controle de convencionalidade previsto na CF//88.  O STJ, com efeito, dialogou com a Corte Interamericana  de Direitos Humanos e fez valer esse critério humanitário em favor do condenado.

b. Combate à condenação baseada em "ouvir dizer"

Continua após a publicidade

Em outubro de 2021, no HC 688.594, reafirmei que testemunhos baseados apenas em "ouvir dizer" não sustentam condenações, defendendo padrões rígidos de prova. Isso acarretou tese jurídica, na sistemática de recursos repetitivos.

c. Defesa de uma Justiça fraterna e humanizada

Desde 2018, articulo um modelo de justiça voltado para mediação, conciliação e fraternidade, coordenando eventos como o Congresso Nacional de Direito e Fraternidade, lançamento do meu livro: O princípio constitucional da fraternidade: seu resgate no sistema de Justiça” e e coordenando diversas outras  obras jurídicas

d. Produtividade, celeridade e modernização institucional

Desde 2015, meu gabinete reduziu o acervo em cerca de 69% e incentivei métodos consensuais de resolução de conflitos ( ANPP, em especial). com foco em eficiência e inovação.

Em 06/08/25, tenho 1.734 processos conclusos (segundo menor acervo de todo Superior Tribunal de Justiça).

Sou o atual presidente da Quinta Turma (pela segunda vez, no sistema de rodízio) e fui recentemente presidente da Terceira Seção do STJ. No último dia 05.08, coordenei a sessão histórica da quinta turma, que julgou  2.304 feitos,  por cinco ministros.

e. Reconhecimento acadêmico e institucional

Em maio de 2025, recebi o título de Cidadão Honorário de Brasília por minha trajetória marcada pela defesa dos direitos fundamentais e da fraternidade. Recebi , igualmente, com muita alegra, os títulos de cidadão honorário do Piauí, do Amazonas, da Paraíba, do Mato Grosso, da Bahia e de Goiânia.

Recebi também quatro obras jurídicas em minha homenagem: uma, do TJMA em parceria com a UFMA; a segunda, de professores e alunos da PUC/SP e da  Universidade de Marília  - SP (UNIVEM);  uma terceira, do Instituto Brasileiro de Educação em Direitos e Fraternidade; e uma quarta,  de alunos e professores da UNINOVE/SP, instituição que passei a lecionar no mestrado e doutorado há três anos.

f. Coleção acadêmica em homenagem aos 10 anos de STJ

A publicação Liber Amicorum, celebrando minha atuação no STJ com foco em justiça penal, proteção de dados e inovação institucional ( 10 anos);

g. Participação nos Comitês CNJ  das pessoas em situação de rua – Pop Rua Jud e das pessoas com deficiência.

O que evidencia a preocupação direta do Tribunal da Cidadania com as questões dos vulneráveis e com a implementação da promessa constitucional de uma sociedade livre, justa e solidária.

 

Flyer do evento.

RR- 2. Como foi receber o título de Cidadão Honorário de Brasília? Qual o significado desse reconhecimento por parte da Capital Federal ?   

 Reynaldo Soares da Fonseca: Receber o título de Cidadão Honorário de Brasília teve um profundo significado para  mim— não apenas como um reconhecimento institucional, mas como um gesto que sela sua identidade afetiva, familiar, profissional e espiritual com a Capital Federal. Expressei isso no meu discurso:

“Este momento, mais do que uma celebração formal, representa um reencontro com minha própria história e com a cidade que há mais de três décadas me acolhe com generosidade e sentido de missão.”

“Brasília foi, desde o início, mais do que destino funcional: tornou-se lar, espaço de formação humana, familiar e institucional.”

“Brasília não é apenas a capital da República. Para mim, é lugar de enraizamento, de pertencimento e de fé na construção coletiva da Justiça.

A menção à docência na Universidade de Brasília (UnB), após longa carreira acadêmica e institucional, simboliza minha renovação com as novas gerações:

“É a renovação com as novas gerações e o compromisso com o futuro do Distrito Federal e do Brasil — um país que precisa cada vez mais de pontes, não de muros; de inclusão, não de exclusão; de justiça com fraternidade.”

Ao citar Gonçalves Dias (símbolo do Maranhão) e Renato Russo (ícone de Brasília), reconstruí minha travessia entre origem e destino, tradição e modernidade, afeto e reflexão:

“Iniciar com Gonçalves Dias [...] e encerrar com Renato Russo [...] cria uma ponte poderosa entre origem e destino, tradição e modernidade, emoção e reflexão.”

RR- 3. Quais decisões de sua lavra considera importantes para o conjunto da jurisprudência do STJ?   

Reynaldo Soares da Fonseca:

a. Contagem em dobro da pena por condições degradantes (RHC 136.961 – 2021)

Relator na 5ª Turma, determinei u o cômputo em dobro do tempo de prisão cumprido em ambiente degradante no Complexo de Bangu, aplicando o princípio da fraternidade e dando caráter vinculante à resolução da CIDH. Marca um precedente relevante sobre dignidade humana na execução penal

b. Uso de prints de redes sociais não basta para condenação por tráfico (AgRg no HC 977.266 – 2025)

Defendi que prints ou mensagens eletrônicas, isoladamente, não podem sustentar condenações por tráfico de drogas, sem a efetiva apreensão de entorpecentes. Essa tese foi consolidada em informativo do STJ .

c. Repressão a condenações baseadas apenas em “ouvir dizer” (HC 793.011 – 2023)

No habeas corpus de uma mulher condenada a 60 anos sem provas robustas além de confissão extrajudicial do corréu, destaquei a ausência de prova produzida em juízo e a necessidade do contraditório — entendimento acolhido por unanimidade pela 5ª Turma.

d. Autodeterminação de pessoa trans e transferência para presídio adequado (HC 955.966 – 2023)

Garanti a transferência de uma mulher transgênero para uma penitenciária feminina, reafirmando o respeito à sua identidade de gênero e o direito à dignidade, conforme a Resolução CNJ 348/2020.

e. Habeas corpus por erro judicial e provas genéticas (HC 870.636 – 2023)

Relator no caso que absolvi definitivamente um homem condenado em 12 ações criminais por estupro, com base em exames de DNA que inocentaram o réu. Destaque para a importância da justiça restaurativa e do papel do Innocence Project Brasil

f. Prisão domiciliar para pai responsável exclusivo de criança autista (AgRg no HC 764.603 – 2022)

Decisão que autoriza prisão domiciliar para um pai de três filhos, um deles autista, devido à ausência da mãe e à imprescindibilidade de seus cuidados — reforçando o princípio da dignidade familiar.

g. Busca pessoal e fundamento concreto (AgRg no AREsp 2.467.742 – 2025)

Reafirmei que revistas pessoais sem mandado necessitam de fundada suspeita clara. No caso concreto, entendi que o cheiro de maconha justifica revista pessoal, mas não a entrada em domicílio sem autorização judicial .

h. Trancamento da ação penal sobre atentado do Riocentro (REsp 1.798.903 – 2019)

Em divergência dentro da 3ª Seção, votei pelo trancamento da ação penal, considerando inaplicáveis os crimes contra a humanidade e seguindo estritamente o princípio da legalidade. Posição que  prevaleceu.

i. Responsabilização penal autônoma de pessoa jurídica (RMS 39.173 – após 2015)

Consolidei a possibilidade de responsabilizar criminalmente pessoas jurídicas por delito ambiental, sem coautoria de pessoa física, em consonância com precedentes do STF

Esses julgamentos evidenciam, ao que consta, um perfil jurisprudencial marcado pelo acolhimento dos direitos fundamentais, rigor probatório, justiça restaurativa, respeito à dignidade humana e alinhamento com padrões internacionais.

RR- 4. Como o senhor avalia o papel do STJ na educação jurídica da população? Que iniciativas o tribunal pode desenvolver para ampliar esse diálogo com o público?   

Tenho me posicionado de forma clara e reiterada sobre a importância do papel do STJ na educação jurídica da população, e minhas ideias apontam para um modelo de Justiça mais participativa, fraterna e pedagógica.

O STJ como formador de consciência cidadã

O  STJ não deve apenas resolver conflitos jurídicos complexos, mas também formar valores democráticos e educar a sociedade sobre direitos e deveres fundamentais.

“A memória de um povo não é apenas um arquivo de datas — é o sopro que anima sua identidade.”
— Discurso do título de Cidadão Honorário de Brasília

As decisões judiciais devem ser compreensíveis para a sociedade e ter valor educativo, especialmente em temas como dignidade, igualdade, fraternidade e direitos humanos.

Meu  conceito de “Justiça fraterna” inclui a educação para a convivência, o diálogo restaurativo e a mediação como formas de ensinar cidadania através da justiça.

Assim, proponho:

a. Produção de conteúdo acessível para o público

  • Tradução de decisões importantes para linguagem cidadã
  • Divulgação de vídeos explicativos com ministros e servidores
  • Podcasts e séries educativas (como já existem iniciativas em andamento)

b. Parcerias com escolas, universidades e instituições públicas

  • Programas de visitas guiadas ao STJ com conteúdo formativo
  • Convênios com faculdades de Direito e cursos técnicos para formação cidadã. Por exemplo, em parceria com o IEDF, já formamos mais de 15 mil alunos em educação e cidadania.
  • Oficinas e palestras sobre acesso à Justiça

c. Fomento à Justiça restaurativa e círculos de diálogo

  • Promover ações educativas com enfoque na cultura da paz, da escuta e da empatia, especialmente com jovens em vulnerabilidade social.

d. Incentivo à pesquisa e publicação

  • Apoio à publicação de livros, artigos e cartilhas jurídicas voltadas ao público leigo
  • Estímulo à participação do corpo técnico do STJ em eventos formativos externos

e. Educação para magistrados com foco humanista

  • Fortalecer a formação continuada de juízes e servidores com ênfase em direitos fundamentais, linguagem cidadã e inclusão.
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
alcina maria silva azevedoHá 10 meses Campinas- SPUma belíssima entrevista com a coordenação do nosso filósofo e escritor Rogério Rocha, Mhario Lincoln, ao entrevistado, Ministro Reynaldo Soares da Fonseca. O sr Ministro mostrou sua rica trajetória política e profissional da justiça, onde deu ênfase a valores, como "justiça com fraternidade e humanidade." Considero maravilhoso esse pensar, mas imagino a luta que o nosso Ministro deve se debater, para conseguir realizar isso, num meio político. Entretanto a sua contribuição ao cenário judicial
JAIME Há 10 meses BSB/DFPresidente ML, com seus olhos de águia, trás a baila, uma publicação, de alto padrão. Parabéns, a todos os envolvidos.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
14°
Chuva

Mín. 12° Máx. 17°

14° Sensação
2.87km/h Vento
93% Umidade
100% (7.14mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sáb 18°
Dom 16° 10°
Seg 13° 10°
Ter 13°
Qua 18°
Atualizado às 04h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 +0,01%
Euro
R$ 5,91 +0,14%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 340,960,31 -0,52%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias