José Neres
Estou na docência desde 1991. De lá para cá são quase três décadas e meia de sala de aula e algo que sempre me deixou preocupado é a saúde mental das pessoas que trabalham na Educação.
Para quem não vive as rotinas de uma escola, a vida do professor e dos demais atores envolvidos com a Educação parece ser algo fácil: “basta dar a aula ou executar algumas tarefas burocráticas e ir embora”. “Os sortudos ainda contam com duas férias por ano”. Mas a realidade não é bem assim.
Existe toda uma dinâmica invisível, que vai além da sala de aula, dos corredores e dos muros de uma instituição de ensino, e que pode levar esses profissionais a um adoecimento físico e mental. Não se trata apenas do esperado cansaço após uma jornada de trabalho, muita vezes em condições adversas, da exposição a ruídos que extrapolam os limites recomendados, do esforço repetitivo diante de um quadro, da vista cansada após uma exaustiva sessão de correção de provas e trabalho ou da certeza de uma remuneração que está muito aquém do esforço despendido. Há outras situações que nem sempre são percebidas por quem não está a par dessa realidade.
Constantemente, vejo colegas com o olhar perdido no horizonte e com as marcas da desesperança estampadas até mesmo nas mais sutis palavras e nos movimentos involuntários. A angústia tornou-se parte do uniforme de muitos educadores.
Esses profissionais vivem em constante estado de insegurança. A violência, que antes era apenas tema de algumas aulas, há muito tempo já invadiu o ambiente escolar e tem deixado marcas físicas e psicológicas em suas vítimas, conforme pode ser visto em reportagens e depoimentos que são compartilhados e reproduzidos à exaustão.
Muitos professores e demais funcionários vivem a angústia de não poderem projetar nem mesmo um futuro próximo, pois trabalham assombrados pelo fantasma da dispensa ou de alguma remoção para um lugar afastado do seu perímetro de atuação.
Praticamente todos já perceberam que não têm voz nem vez, pois as decisões são tomadas sem a participação de significativa parte da comunidade escolar. Resta então obedecer ao que foi determinado, de preferência sem questionamentos, pois questionar nem sempre é interpretado como uma tentativa de ajudar a compor um cenário mais democrático, mas sim como uma afronta a uma ordem de quem se julga superior aos próprios colegas. Muitos, então, optam pelo silenciamento das próprias ideias. E isso não traz bons resultados.
Há ainda o caso dos profissionais que recebem tarefas para as quais não foram preparados. Diante da angústia de não poderem executar as atividades da forma que desejariam e, muitas vezes, pressionadas por todos os lados, essas pessoas acabam substituindo o prazer do trabalho por crises de ansiedade ou mesmo por constantes episódios de Burnout, o que geralmente culmina com picos de estresse, desânimo, esgotamento físico, sensação de fracasso e até alteração nas funções básicas do organismo.
Constantemente, escuto colegas dizendo que estão arrependidos da profissão que escolheram ou, pior ainda, abusando de medicamentos, muitas vezes sem acompanhamento profissional. Há também casos daqueles que se entregam a drogas lícitas e ilícitas e ao vício de jogos, o que acaba piorando a saúde mental desses trabalhadores.
Em 2010 escrevi um artigo intitulado “O Do(c)ente” tratando sobre o assunto. De lá para cá parece que nada mudou, ou melhor dizendo, o pouco mudou parece que foi para pior. De lá para cá, tenho sempre tratado do assunto, buscando compreender as causas e as consequências desse fato incontestável, mas que nem sempre é discutido nas chamadas formações e nas reuniões.
Parece que a saúde mental dos profissionais da Educação é um mais um daqueles assuntos que são constantemente varridos para debaixo de um tapete de ilusões.
----------------------------
Prof. José Neres: Torna-se Mestre pela Universidade Católica de Brasília (2012), e Doutor pela Universidade Anhanguera (2020), cuja pesquisa teve como foco o "Ambiente e Sustentabilidade na Poética de José Chagas". Foi eleito em 30 de outubro de 2014 para a cadeira n.º 36 da Academia Maranhense de Letras, na sucessão de Ubiratan Teixeira, e sendo recepcionado em 19 de março de 2015, pela professora Ceres Costa Fernandes.
É membro-efetivo da Academia Poética Brasileira e indicado para a vice-presidente regional da entidade, no Maranhão.
Alzheimer Alzheimer: encontro em Curitiba coloca no centro do debate os direitos de quem vive com demência
Literatura Gótica Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro
SWING & JAZZ Augusto Pellegrini: As Cores do Swing - Bill Hollman, Billy Eckstine, Billy May
MUSICA É VIDA Chiquinho França leva “Fissura” a Brasília, no Clube do Choro, território de encontro da música brasileira
Esportes & VIDA Quando a roda cura: a capoeira que recompõe corpos, memórias e destinos
MONTELLO: 109 ANOS Josué Montello fez de São Luís um território universal da literatura e levou a memória negra do Maranhão ao mundo Mín. 15° Máx. 25°
Mín. 17° Máx. 32°
Chuvas esparsasMín. 16° Máx. 23°
Chuvas esparsas
AUGUSTO PELLEGRINI Augusto Pellegrini: As Cores do Swing - Bill Hollman, Billy Eckstine, Billy May
COLUNA DA AMCLAM - Academia Maranhense de Ciencia, Letras e Artes Militares Rumo aos 200 Anos: PMMA celebra o Dia do Soldado e Dia dos Veteranos
ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA Josué Montello fez de São Luís um território universal da literatura e levou a memória negra do Maranhão ao mundo
Joizacawpy Costa “A força e coragem de Joizacawpy Costa”, colunista do Facetubes