
Socorro Guterres é membro da Academia Poética Brasileira, seccional RGN
O poeta inglês Jonh Milton nos legou a monumental epopéia (baseada no livro bíblico Gênesis), _Paraíso Perdido , que se consolidou como um dos pilares da literatura universal, e secundando apenas Shakespeare na língua inglesa, de quem de certa forma foi contemporâneo, pois Milton nasceu em 1608 e Shakespeare faleceu em 1616. Menino pródigo, John Milton escrevia em vários idiomas, tornando-se um intelectual e poeta, além de grande leitor e protestante radical. Casou três vezes, sendo que as duas primeiras esposas morreram, e mostrou-se a favor do divórcio, numa época que isso era um assunto controverso na Inglaterra. Fervoroso defensor do republicanismo e crítico da monarquia, Milton escreveu panfletos antimonárquicos no breve período em que houve a deposição do Rei Carlos I, só não sofrendo a punição de morte quando a monarquia foi restaurada por já ser um poeta famoso. Esse período republicano ocorreu entre 1649 e 1660, conhecido como Commonweath da Inglaterra, em que Oliver Cromwell ( de quem Milton era secretário de Estado) estabeleceu uma ditadura militar como Lorde Protetor, no contexto da guerra civil inglesa. Muitos estudiosos acreditam que a escolha do tema em Paraíso Perdido (a criação do homem, a queda de Adão e Eva, a expulsão do paraíso) foi a forma de atribuir ao rei a figura de Satanás e consequentemente o homem subjugado ao monarca infernal, no que já podemos observar que o inferno não seria somente um espaço físico, mas também um estado mental.
Para o crítico literário americano Harold Bloom, Paraíso Perdido "é magnífico por ser convincentemente trágico" na exposição da queda de Lúcifer. Ademais, para Bloom o poema é também a tragédia de Adão e Eva, e nesses três personagens há qualidades "inevitavelmente shakespearianas". Assim, pode-se comparar o Satanás de Milton ao herói-vilão Iago, principal antagonista na peça Otelo , sendo os dois "verdadeiros arquétipos de todos os Ressentidos em nossos dias". Relata ainda Bloom que no Paraíso Perdido de Milton há uma surpreendente "fusão de tragédia shakespeariana, épico virgiliano e profecia bíblica"; na verdade, é um poema cinematográfico, com imagens vívidas e rápidas mudanças de cenários. Já Otto Maria Carpeaux se refere a John Milton como o maior poeta inglês depois de Shakespeare e o Paradise Lost a maior obra da literatura inglesa do século XVII, na qual, segundo o ensaísta austríaco, movimentam-se em paisagens inesquecíveis céu, inferno e paraíso terrestre, "transfigurações impressionantes da paisagem inglesa".
O poema publicado inicialmente em 1667 desenvolvia-se em 10 cantos ou livros, sendo posteriormente revisionado em segunda edição lançada em 1674, estendendo-se em mais duas partes, somando assim 12 cantos, dispostos em versos brancos, ou seja, sem rimas; uso também preferido por Shakespeare em muitas de suas peças. Uma particularidade desse épico disposto em decassílabos é que Milton o escreveu quando já estava na casa dos cinquenta anos e completamente cego devido a complicações de um glaucoma; ditando-o para suas filhas, que desse modo transcreviam os versos.
Sim, Milton é, relativamente, pouco lido, e muitos críticos contemporâneos acham que isso se deve às dificuldades na apreensão da leitura, pois o poeta era um erudito e usava na sua arte todo o seu conhecimento sobre mitologia, teologia, história, filologia, filosofia, arqueologia, astronomia, física, ciências políticas, dentre outros; bem como citações e referências de obras de diversos autores. E ainda há de se ressaltar a tradução do poema que mantém-se fiel aos arcaísmos. Mas confesso de antemão: foi um dos melhores livros que já li, presentando-me em suas páginas com maravilhas e estranhamentos. Portanto, farei um breve relato de algumas passagens desses versos grandiosos que mesmo sem rima, porém metrificados, trazem um cadenciamento marcante e , como disse Carpeaux, "uma solene música verbal".
Que as Musas nos inspirem pela jornada entre Céu e Inferno, Anjos, Querubins, Serafins, Deus, Jesus como o Messias Salvador, Adão e a consorte Eva, mãe da humanidade, e Lúcifer, estrela da manhã ou estrela da noite, numa dualidade que, a meu ver, lhe dá o protagonismo no poema. Muitas vezes Lúcifer é nomeado no épico como o Inimigo ou o Adversário, mas em diversas cenas apresenta uma certa condição humana, quando, por exemplo, sente saudades do céu, sente saudades de Deus, sofre com o banimento, se amaldiçoa e então procura vingar-se do Onipotente, por meio de Adão e Eva, criação divina, que em suas perfeitas formas lhe inspira admiração e ao mesmo tempo inveja e rancor. Uma célebre citação no poema já impõe a fatal disposição de Lúcifer: "Mais vale reinar no Inferno do que servir no Céu"; tom que perpassa o livro, refletindo o orgulho e a ambição do anjo caído que prefere o vasto abrupto infernal do que se submeter à autoridade celestial. Mas vejamos alguns aspectos explorados por Milton entre a queda de Lúcifer do céu e a queda da humanidade do Éden, no ínterim épico das batalhas angelicais que se expõem num clima bélico de comando militar.
O primeiro livro, talvez o mais difícil em sua compreensão, traz a queda de Lúcifer e seu séquito de anjos por nove dias e nove noites após se rebelar contra Deus, até se encontrar "boiando no lago de fogo", ao que se segue um despertar aturdido, bem como o planejamento da vingança de Satã, como passa a ser denominado Lúcifer, secundado pelo assessor principal, Belzebu, concretizando-se na crítica a um Deus supostamente " tirano", que o preteriu, cedendo todo o poder ao Filho, segunda pessoa na trindade Pai, Filho e Espírito Santo.
Como poema épico, Paraíso Perdido narra em versos façanhas heróicas e grandes feitos, como bem exemplificam nesse gênero a Ilíada e a Odisséia , de Homero, e também numa perspectiva nacionalista trazida pelo poeta italiano Virgílio, a Eneida , que narra a fundação de Roma. Ressaltemos ainda a Divina Comédia de Dante Alighieri e, seguindo a tradição de Virgílio, os Lusíadas , de Camões, que descreve a grandeza da pátria portuguesa.
O narrador miltoniano em sua invocatio dirige-se a segunda pessoa da trindade, o Logos, para favorecer a sua "canção ousada", em que Adão e Eva praticamente perdem o protagonismo cedendo lugar, pela força dramática, a Lúcifer, expulso diante da presença de Deus. Nos belíssimos versos que retratam a queda de Lúcifer e a queda do Homem e sua expulsão do paraíso, destaca-se claramente o livre-arbítrio que acarreta essas situações, tanto no homem quanto no seu maligno adversário.
Há uma nítida diferença entre a natureza da queda de Adão, e a natureza da queda de Eva, pois esta sucumbe à tentação da serpente que fala sob a incorporação de Satã, por desejo, orgulho e curiosidade, enquanto que o pai da humanidade, cai pelo seu livre-arbítrio, quando resolve provar o fruto proibido para compartilhar o destino de sua companheira e não perdê-la, seduzido que estava pelos encantos de Eva.
Nessa presente explanação não irei abordar cada livro dessa grandiosa obra. Contudo, evidenciarei alguns cantos que em mim deixaram especial impressão. O canto II, por exemplo, traz a assembleia dos anjos caídos em que demônios como Belzebu, Mammon, Belial e Moloque discutem uma possível guerra para tornarem ao céu. Nesse livro há as impressionantes personificacões do Pecado (monstro feminino) e da Morte (monstro masculino) que abrem as nove portas do inferno e mostram o grande abismo que o separa do céu. O livro IV, de especial beleza, relata a chegada de Adão e Eva ao Éden e os cuidados dos arcanjos Uriel, Gabriel e Rafael na guarda da criação divina. O livro VII traz o relato de Rafael, a pedido de Adão, da razão pela qual o mundo foi criado, após a expulsão de Satanás do paraíso, e ainda o envio do Filho de Deus para em seis dias fazer a obra da criação, a Quem os anjos celebram com hinos de hosanas quando reascende ao Céu. Nesse canto gravou- se em minha memória singular cena na qual Adão espera a volta de Eva, que afastara-se sozinha, tecendo- lhe uma tiara de flores e ao vê-la retornar percebe que ela comera o fruto proibido (discernimento do bem e do mal)e assim a tiara lhe cai das mãos no espanto do pecado e da perda da graça. Por fim, quero ressaltar o livro X, que narra o drama de Adão e Eva e o momento em que Deus envia seu Filho para julgar os transgressores.
William Blake disse que Milton era um poeta favorável ao demônio, mesmo sem perceber isso, concedendo ao Tentador liberdade e individualidade. Talvez por ter sido John Milton um revolucionário? Note-se ainda que o Lúcifer exibido por Milton era um arcanjo de elevadíssimo grau, de aparência jovem e rara beleza; imagem que vai se desgastando na narrativa conforme o Príncipe das Trevas assume a perversidade, ou seja, a perfídia.
A noção de livre-arbítrio contidas no épico miltoniano não traz em si a causa do mal, mas expõe a sua má utilização, pois a escolha pelo pecado é que vai gerar o mal. Em Santo Agostinho, Doutor da Igreja, o livre-arbítrio é dom divino concedido à humanidade, numa liberdade de escolha que se mostra fundamental para a dignidade humana. Paralelamente, no Paraíso Perdido de John Milton o livre-arbítrio é tema central explorado na queda de Adão e Eva, bem como na queda de Lúcifer; pois embora Deus tenha conhecimento prévio das ações que logram à desobediência, deixa que isso ocorra por escolha própria e não por predestinação divina. Ou seja, o caminho é livre tanto para o Céu quanto para o Inferno. Apreende-se nos versos a felix culpa_ ou "o paradoxo da queda afortunada", utilizada por Deus em proveito de um bem maior, que se fará por meio da mediação messiânica na encarnação e ressurreição do Nume-Filho, ou seja, o Filho de Deus, manifestação da divindade do Pai, na expressão de amor e compaixão do Criador. Então, para melhor desvendar os míticos espaços do Paraíso Perdido , recomendo a leitura integral da obra-prima de John Milton.
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