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Socorro Guterres: escritora, poeta e colunista da Plataforma Nacional do Facetubes: “A Félix Culpa ”

Socorro Guterres é membro eleita da Academia Poética Brasileira e dia 22/08, em Fortaleza, Ceará, com a presença do presidente da instituição, receberá oficialmente seu Diploma Ouro da Academia Poética Brasileira.

18/08/2025 às 15h46 Atualizada em 18/08/2025 às 16h11
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres
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Socorro Guterres recebe Diploma Ouro da APB, neste 22.08
Socorro Guterres recebe Diploma Ouro da APB, neste 22.08

Socorro Guterres é membro da Academia Poética Brasileira, seccional RGN

O poeta inglês Jonh Milton  nos legou a monumental epopéia (baseada no livro bíblico Gênesis),  _Paraíso Perdido , que  se consolidou como um dos pilares da literatura universal,  e secundando apenas  Shakespeare na língua inglesa, de quem de certa forma foi contemporâneo, pois Milton nasceu em 1608 e Shakespeare faleceu em 1616. Menino pródigo, John Milton escrevia em vários idiomas, tornando-se um intelectual e poeta,  além de grande leitor e protestante radical. Casou três vezes, sendo que as duas primeiras esposas morreram,  e mostrou-se a favor do divórcio, numa época que isso era um assunto controverso na Inglaterra. Fervoroso defensor do republicanismo e crítico da monarquia, Milton escreveu  panfletos antimonárquicos no breve período em que houve a deposição do Rei Carlos I, só não sofrendo a punição de morte quando a monarquia foi restaurada por já ser um poeta famoso.  Esse período republicano ocorreu entre 1649 e 1660, conhecido como Commonweath da Inglaterra, em que Oliver Cromwell ( de quem Milton era secretário de Estado) estabeleceu uma ditadura militar como Lorde Protetor, no contexto da guerra civil inglesa. Muitos estudiosos acreditam que a escolha do tema em Paraíso Perdido (a criação do homem, a queda de Adão e Eva, a expulsão do paraíso) foi a forma de atribuir ao rei a figura de Satanás e consequentemente o homem subjugado ao monarca infernal, no que  já podemos observar que o inferno não seria somente um espaço físico, mas também um estado mental. 


  Para o crítico literário americano Harold Bloom, Paraíso Perdido "é magnífico por ser convincentemente trágico" na exposição da queda de Lúcifer. Ademais, para Bloom o poema é  também a tragédia de Adão e Eva, e nesses três personagens há qualidades  "inevitavelmente shakespearianas". Assim, pode-se  comparar o Satanás de Milton  ao herói-vilão Iago, principal antagonista na peça Otelo , sendo os dois "verdadeiros arquétipos de todos os Ressentidos em nossos dias". Relata ainda Bloom que no Paraíso Perdido de Milton há uma surpreendente "fusão de tragédia shakespeariana, épico virgiliano e profecia bíblica"; na verdade, é um poema cinematográfico, com imagens vívidas e rápidas mudanças de cenários. Já  Otto Maria Carpeaux se refere a John Milton como o maior poeta inglês depois de Shakespeare e o Paradise Lost a maior obra da literatura inglesa do século XVII, na qual, segundo o ensaísta austríaco,  movimentam-se em paisagens inesquecíveis céu, inferno e  paraíso terrestre,  "transfigurações impressionantes da paisagem inglesa".

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   O poema publicado inicialmente em 1667 desenvolvia-se em 10 cantos ou livros,  sendo posteriormente revisionado em segunda edição lançada em 1674,  estendendo-se em mais duas partes, somando assim 12 cantos, dispostos em versos brancos, ou seja, sem rimas;  uso também preferido por Shakespeare em muitas de suas peças.  Uma particularidade desse épico disposto em decassílabos é que Milton o escreveu quando já estava na casa dos cinquenta anos  e completamente cego devido a complicações de um glaucoma; ditando-o para suas filhas,  que desse modo transcreviam os versos.


   Sim, Milton é, relativamente, pouco lido, e muitos críticos contemporâneos acham que isso se deve às dificuldades na apreensão da leitura, pois o poeta era um erudito e usava na sua arte todo o seu conhecimento sobre mitologia, teologia, história, filologia, filosofia, arqueologia, astronomia, física, ciências políticas, dentre outros; bem como citações e referências de obras de diversos autores. E ainda há de se ressaltar a tradução do poema que mantém-se fiel aos arcaísmos. Mas confesso de antemão: foi um dos melhores livros que já li, presentando-me em suas páginas com maravilhas e estranhamentos. Portanto, farei um breve relato de algumas passagens desses versos grandiosos que mesmo sem rima, porém metrificados, trazem um cadenciamento marcante e , como disse Carpeaux, "uma solene música verbal".


 Que as Musas nos inspirem pela jornada entre Céu e Inferno, Anjos, Querubins, Serafins, Deus, Jesus como o Messias Salvador, Adão e a consorte Eva, mãe da humanidade,  e Lúcifer, estrela da manhã ou estrela da noite, numa dualidade que, a meu ver, lhe dá o protagonismo no poema.    Muitas vezes Lúcifer é nomeado no épico  como  o  Inimigo ou o  Adversário, mas  em diversas cenas apresenta uma certa condição humana, quando, por exemplo, sente saudades do céu, sente saudades de Deus, sofre com o banimento, se amaldiçoa e então procura  vingar-se do Onipotente, por  meio de Adão e Eva, criação divina, que em suas perfeitas formas lhe inspira admiração  e ao mesmo  tempo inveja e rancor. Uma célebre citação no poema já impõe  a fatal disposição de Lúcifer: "Mais vale reinar no Inferno do que servir no Céu";  tom que perpassa o livro, refletindo o orgulho e a ambição do anjo caído que  prefere o vasto abrupto infernal do que se submeter à autoridade celestial. Mas vejamos alguns aspectos explorados por Milton entre a queda de Lúcifer do céu  e  a queda da humanidade do Éden,  no ínterim épico das batalhas angelicais que se expõem num clima bélico de comando militar.


O primeiro livro,  talvez o mais difícil em sua compreensão, traz a queda de Lúcifer e seu séquito de anjos por nove dias e nove noites após se rebelar contra Deus,   até se encontrar  "boiando no lago de fogo", ao que se segue um  despertar aturdido, bem como  o  planejamento da vingança de Satã, como  passa a ser denominado Lúcifer, secundado pelo assessor principal, Belzebu, concretizando-se na  crítica a um Deus supostamente " tirano", que o preteriu, cedendo todo o poder ao Filho, segunda pessoa na trindade Pai, Filho e Espírito Santo.
 Como poema épico, Paraíso Perdido narra em versos façanhas heróicas e grandes feitos, como  bem  exemplificam nesse gênero a Ilíada e a Odisséia , de Homero, e também numa perspectiva nacionalista trazida pelo poeta italiano Virgílio, a Eneida , que  narra   a fundação de Roma. Ressaltemos ainda a Divina Comédia de Dante Alighieri  e, seguindo a tradição de Virgílio,  os  Lusíadas , de Camões, que descreve  a  grandeza da pátria portuguesa. 


O narrador miltoniano em sua invocatio dirige-se a segunda pessoa da trindade, o Logos, para favorecer  a sua "canção ousada", em que Adão e Eva praticamente perdem o protagonismo cedendo  lugar, pela força dramática, a Lúcifer, expulso diante da presença de Deus. Nos belíssimos versos que retratam a queda de Lúcifer e a queda do Homem e sua expulsão do paraíso, destaca-se  claramente o livre-arbítrio que acarreta essas situações, tanto no homem quanto no seu maligno adversário. 


Há uma nítida diferença entre a natureza da queda de Adão, e a natureza da queda  de Eva, pois esta sucumbe à  tentação da serpente que fala sob a  incorporação de Satã, por desejo, orgulho e curiosidade, enquanto que o pai da humanidade,  cai  pelo seu livre-arbítrio, quando resolve provar o fruto proibido para compartilhar o destino de sua companheira e não perdê-la,  seduzido que estava pelos encantos de Eva.
  Nessa  presente explanação não irei abordar cada livro dessa grandiosa obra. Contudo, evidenciarei alguns cantos que em mim deixaram especial impressão. O canto II,  por exemplo, traz a assembleia dos anjos caídos em que demônios como Belzebu, Mammon, Belial e Moloque discutem uma possível guerra para tornarem ao céu. Nesse livro há as impressionantes personificacões do Pecado (monstro feminino) e da Morte (monstro masculino) que abrem as  nove portas do inferno e mostram o grande abismo que o separa do céu. O livro IV, de especial beleza, relata a chegada  de Adão e Eva ao Éden e os cuidados dos arcanjos Uriel, Gabriel e Rafael na guarda da criação divina. O livro VII traz o relato de Rafael, a pedido de Adão, da razão pela qual o mundo foi criado, após a expulsão de Satanás do paraíso, e ainda o envio do Filho de Deus para em seis dias fazer a obra da criação,  a Quem os anjos celebram com hinos de hosanas quando reascende ao Céu. Nesse canto gravou- se em minha memória singular cena na qual Adão espera a volta de Eva, que afastara-se sozinha, tecendo- lhe uma tiara de flores e ao vê-la retornar percebe que ela comera o fruto proibido (discernimento do bem e do mal)e assim a tiara lhe cai das mãos no espanto do pecado e da perda da graça. Por fim, quero ressaltar o livro X, que narra o drama de Adão e Eva e o momento em que Deus envia seu Filho para julgar os transgressores.

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William Blake disse que Milton era um poeta favorável ao demônio, mesmo sem perceber isso, concedendo ao Tentador liberdade e individualidade. Talvez  por ter  sido  John Milton um  revolucionário?  Note-se ainda que o Lúcifer exibido por Milton era um arcanjo de elevadíssimo grau, de aparência jovem e rara beleza; imagem que vai se desgastando na narrativa conforme o Príncipe das Trevas assume a perversidade, ou seja, a perfídia.


  A noção de livre-arbítrio contidas no épico miltoniano não traz em si a causa do mal, mas expõe a sua má utilização, pois a escolha pelo pecado é que vai gerar o mal. Em Santo Agostinho, Doutor da Igreja, o livre-arbítrio é dom divino concedido à humanidade, numa liberdade de escolha que se mostra fundamental para a dignidade humana. Paralelamente, no Paraíso Perdido de John Milton o livre-arbítrio é tema central explorado na queda de Adão e Eva, bem como na queda de Lúcifer; pois embora Deus tenha conhecimento prévio das ações que logram à desobediência, deixa que isso ocorra por escolha própria e não por predestinação divina. Ou  seja, o caminho é livre tanto  para o  Céu  quanto para o Inferno.  Apreende-se  nos versos a felix culpa_ ou "o paradoxo da queda afortunada", utilizada por Deus em proveito de um bem maior, que se fará por meio da mediação messiânica na encarnação e ressurreição do Nume-Filho, ou seja, o Filho de Deus, manifestação da divindade do Pai, na expressão de amor e compaixão do Criador.  Então, para melhor desvendar os míticos espaços do Paraíso Perdido , recomendo a leitura integral da obra-prima de John Milton.

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Fábio FreireHá 10 meses Natal/RNSocorro Guterres nos traz uma excelente análise sobre a obra e vida de Milton, nos trazendo clareza sobre os aspectos políticos e históricos da época , além de um olhar perspicaz de pontos específicos da obra-prima , Paraíso Perdido!
Francisco Sousa Há 10 meses Natal/RNQue aula! Parabéns!
JAIMEHá 10 meses BSB/DFUm artigo muito esclarecedor.
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