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JOÃO EWERTON: “Água e Folhas do Amazonas – Reflexões e Memórias” Episódio XXIV

João Ewerton é membro da Academia Poética Brasileira e colunista da Plataforma Nacional do Facetubes.

02/09/2025 às 09h43
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Ewerton
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João Ewerton na Amazonia
João Ewerton na Amazonia

João Ewerton

 

Às quatro horas da manhã eu já estava de pé, e pouco depois já me encontrava na sala de espera do Porto de Parintins, aguardando a chegada do Itaberaba I, o navio que me levaria até Belém do Pará. Estava com a minha mala de viagem e o meu “kit completo” para o embarque. Sim, eu optei por viajar no meio do povo que vai nas redes, por alguns motivos, entre os quais o privilégio de conversar com pessoas totalmente desconhecidas para mim, oriundas dos mais diversos rincões do Amazonas. Como escritor, não existe experiência mais rica enquanto pesquisa de tramas e cenários para histórias futuras.

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E o “kit” a que me refiro é o conjunto de apetrechos que todas as lojas próximas ao porto de Manaus e das demais cidades ribeirinhas oferecem ao viajante: uma rede, com diversas opções de preço, acompanhada pelas cordas cortadas sob medida e uma manta — sim, uma manta —, pois há um momento da noite em que o navio enfrenta uma ventania insana, que faz a gente sentir muito frio.

Enquanto aguardava o Itaberaba, sentado naquela confortável sala de grandes janelas de vidro, assisti a um programa sem noção transmitido por uma emissora que não sei qual era, mas que me chamou a atenção pelo tipo de “cultura da boca do lixo” que estava sendo exibida — daquelas coisas importadas que trazem no seu bojo uma influência que descaracteriza, esmaga e corrompe a nossa cultura. Logo aqui em Parintins, que, por todos os motivos que testemunhei, eu esperava que não mostrasse algo como aquilo.

E então comecei a minha viagem pessoal pelos conceitos sobre a arte e a cultura, lembrando-me imediatamente de Ferreira Gullar, quando nos diz que a arte existe porque a vida não basta. Essa frase aparece como um de seus versos mais conhecidos, no poema Traduzir-se, presente no livro Na Vertigem do Dia (1980). Nesse texto, Gullar se apresenta como um ser dividido: ternura e estranheza, memória e esquecimento, vertigem e linguagem. Ele se pergunta se traduzir uma parte na outra seria “arte” — e, em seguida, afirma que a arte existe porque a vida, por si só, é insuficiente.

É importante destacar que Gullar não se refere à vida no sentido biológico, mas à vida como rotina, sobrevivência, cumprimento de necessidades básicas. Para ele, viver plenamente exige criar e experienciar aquilo que transcende a mera funcionalidade, como o faz a poesia, a música, a pintura, a dança — expressões que não apenas enfeitam o existir, mas o tornam suportável e, sobretudo, significativo, pois esse contexto nos torna nação, nos torna únicos e nos destaca nos horizontes do mundo.

Alguns séculos antes, Sêneca já nos alertava para outro aspecto fundamental, ao destacar que “o óbvio não é arte”. Para ele, criar exige revelar — mostrar ângulos, camadas e sentidos que o olhar comum não captura. O óbvio, por ser apenas repetição do que já é visto e sabido, não transforma nem provoca. A arte, segundo essa lógica, precisa surpreender a percepção, desvelar o invisível, provocar inquietação ou encanto. É no gesto de revelar o que estava oculto que ela cumpre sua função mais nobre.

A vida, por si só, não basta. Alimentamos o corpo, buscamos abrigo, cumprimos nossas rotinas, mas há um vazio que não se preenche com o cotidiano. É nesse espaço que a arte surge: traduz o indizível, dá forma ao que não cabe em palavras, conecta estranhos, organiza o caos e nos lembra que somos mais do que carne e necessidade. Cada pintura, cada música, cada gesto ou poema é uma ponte entre o que sentimos e o que podemos imaginar, entre memória e futuro, entre o ordinário e o sublime.

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A arte é o fio que costura tudo.

Assim, quando olhamos em conjunto para Tolstói, Croce, Adorno, Benjamin, Nietzsche, Heidegger, Brecht, Paulo Freire, Kant, Dewey, Ferreira Gullar e até Sêneca, vemos que todos apontam para facetas de um mesmo diamante que nos mostra a arte como ponte de emoções e expressão da subjetividade, arte como crítica social e desafio às estruturas de poder, arte como sentido existencial e revelação da verdade, e ainda a mesma arte como experiência estética e a liberdade criativa.

É nesse cruzamento de sentidos que a arte se revela indispensável à humanidade. Ela é a capacidade que temos de traduzir o indizível, de transformar em imagem, som ou gesto aquilo que sentimos, pensamos e sonhamos — e de compartilhar tudo isso com outros.

Por isso, dizer que a arte existe porque a vida não basta é reconhecer que o humano não vive apenas de ar, alimento e abrigo. Vive também de metáforas, de melodias, de histórias e de símbolos. Vive daquilo que, embora não seja estritamente necessário para a sobrevivência física, é absolutamente essencial para que a existência tenha sabor, cor e profundidade. A arte, afinal, é o lugar onde a vida se reinventa — e onde nós, ao nos encontrarmos nela, descobrimos novas formas de existir.

Pensei, pensei e dispensei aquele programa vazio, considerando um balde de água gelada em toda a efervescente vibração que tudo em Parintins me comunicava até então, imaginado o quanto um tipo de programa desse pode entrar no lugar de tudo que todos os aparelhos de televisão locais sintonizavam nas 4 noites do festival, expostas nas ruas em frente de todas as casas num lugar de honra e destaque, exibindo com garbo o que tornava aquela ilha no maior centro cultural do Amazonas e um dos maiores do Brasil. Até onde o festival e aquele programa poderá afetar na cabeça de um menino, que como o Lindolfo Monteverde, pôde criar um “Garantido” a partir da memória oralizada pelo seu avô.

Absorto nessas divagações, de repente tive o insight de olhar para o relógio do celular e verifiquei que eram 5 horas e 5 minutos, e ninguém havia comunicado, seja pessoalmente, seja por um sistema de som do porto, sobre a chegada do Itaberaba I, que estava prevista para as 5 horas em ponto.

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Então, lembrei da piada do mineiro que pernoitou na estação ferroviária para não perder o trem, mas que, na hora prevista para a chegada, sentiu vontade de ir ao banheiro e acabou perdendo o trem, que passou exatamente nesse tempo. Por isso, peguei minhas coisas — claro, o meu “kit” junto — e fui para o píer do porto, a uns cinquenta metros da sala de espera. Ao chegar ali, solicitei informação a um funcionário, e ele apontou o rio para a direita, dizendo que o navio que seguia a uns duzentos metros em direção ao sol, que acabava de nascer, era o Itaberaba I.

Quase me desesperei, certo de que tinha repetido a piada do mineirinho, mas logo o mesmo funcionário me sugeriu que esperasse o navio São Bartolomeu, que chegaria dentro de meia hora. Nele eu poderia embarcar para ir até Santarém, onde pegaria o Itaberaba I, que estaria aportado ali e só seguiria ao meio-dia do dia seguinte.

Imediatamente entrei em contato com o senhor que me vendera a passagem e reclamei da falta de acompanhamento da agência com os passageiros que compraram bilhete com eles. Ele se desculpou, devolveu meu dinheiro, e fiquei menos aborrecido.

É importante dizer que as passagens no porto de Manaus e nas cidades ribeirinhas, em geral, são vendidas em tendas próximas ao porto por pessoas que, muitas vezes, não inspiram muita confiança — mas é assim que funciona.

Em poucos minutos, conversando com um simpático rapaz, estudante de agronomia, pude apreciar, ali do píer de Parintins, um belo nascer do sol sobre o Rio Amazonas. Diga-se de passagem: o nascer e o pôr do sol sobre o Amazonas estão entre os mais belos do Brasil. É a grandiosidade do céu sobre a grandeza do rio — impagável.

Deixamos o sol em seu espetáculo esplêndido e fomos orientados pelo funcionário do porto a nos afastarmos do local do embarque, até que o navio estivesse totalmente atracado ao cais, pois as cordas oferecem muito perigo, podendo até matar uma pessoa se ela se parte devido a força do navio e da correnteza, que forçam o navio a se afastar do cais. Com toda imponência o São Bartolomeu se aproximou e foi ancorado pelos ágeis e hábeis homens do cais e de bordo em ação orquestrada por gritos de comando e de alerta.

Após o embarque, devidamente alojado na minha rede supercolorida, tal e qual o cocar de um Cacique, segui rumo a Santarém no fluxo da correnteza titânica do maior rio do mundo em volume d’água, já banhado pelo exuberante sol do Equador.

 

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JAIMEHá 9 meses BSB/DFO SENHOR merece. Eu que agradeço, a sua nobre e valiosa Atenção. *Presidente ML, receba meu agradecimento, pela preciosa publicação acima. Como todas as outras também, que já foram publicadas.
João EwertonHá 9 meses São LuisJAIME, muito grato por sua valiosíssima e rica opinião. grande abraço.
João EwertonHá 9 meses São LuisLiutirce Pacheco, fico feliz que tenhas gostado. Obrigado. Abraço
João EwertonHá 9 meses São LuisLuis Carlos, tenha certeza disso! Abraço.
João EwertonHá 9 meses São LuisJoão Bosco, como é bom saber que tocamos a alma daqueles mais sensíveis e perspicazes. Obrigado pelas palavras. Abraço!
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