Sábado, 29 de Agosto de 2026 00:05
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil Colunistas FT

JOÃO EWERTON: “Água e Folhas do Amazonas – Reflexões e Memórias” Episódio XXIV

João Ewerton é membro da Academia Poética Brasileira e colunista da Plataforma Nacional do Facetubes.

02/09/2025 09h43
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Ewerton
João Ewerton na Amazonia
João Ewerton na Amazonia

João Ewerton

 

Às quatro horas da manhã eu já estava de pé, e pouco depois já me encontrava na sala de espera do Porto de Parintins, aguardando a chegada do Itaberaba I, o navio que me levaria até Belém do Pará. Estava com a minha mala de viagem e o meu “kit completo” para o embarque. Sim, eu optei por viajar no meio do povo que vai nas redes, por alguns motivos, entre os quais o privilégio de conversar com pessoas totalmente desconhecidas para mim, oriundas dos mais diversos rincões do Amazonas. Como escritor, não existe experiência mais rica enquanto pesquisa de tramas e cenários para histórias futuras.

Continua após a publicidade

E o “kit” a que me refiro é o conjunto de apetrechos que todas as lojas próximas ao porto de Manaus e das demais cidades ribeirinhas oferecem ao viajante: uma rede, com diversas opções de preço, acompanhada pelas cordas cortadas sob medida e uma manta — sim, uma manta —, pois há um momento da noite em que o navio enfrenta uma ventania insana, que faz a gente sentir muito frio.

Enquanto aguardava o Itaberaba, sentado naquela confortável sala de grandes janelas de vidro, assisti a um programa sem noção transmitido por uma emissora que não sei qual era, mas que me chamou a atenção pelo tipo de “cultura da boca do lixo” que estava sendo exibida — daquelas coisas importadas que trazem no seu bojo uma influência que descaracteriza, esmaga e corrompe a nossa cultura. Logo aqui em Parintins, que, por todos os motivos que testemunhei, eu esperava que não mostrasse algo como aquilo.

E então comecei a minha viagem pessoal pelos conceitos sobre a arte e a cultura, lembrando-me imediatamente de Ferreira Gullar, quando nos diz que a arte existe porque a vida não basta. Essa frase aparece como um de seus versos mais conhecidos, no poema Traduzir-se, presente no livro Na Vertigem do Dia (1980). Nesse texto, Gullar se apresenta como um ser dividido: ternura e estranheza, memória e esquecimento, vertigem e linguagem. Ele se pergunta se traduzir uma parte na outra seria “arte” — e, em seguida, afirma que a arte existe porque a vida, por si só, é insuficiente.

É importante destacar que Gullar não se refere à vida no sentido biológico, mas à vida como rotina, sobrevivência, cumprimento de necessidades básicas. Para ele, viver plenamente exige criar e experienciar aquilo que transcende a mera funcionalidade, como o faz a poesia, a música, a pintura, a dança — expressões que não apenas enfeitam o existir, mas o tornam suportável e, sobretudo, significativo, pois esse contexto nos torna nação, nos torna únicos e nos destaca nos horizontes do mundo.

Alguns séculos antes, Sêneca já nos alertava para outro aspecto fundamental, ao destacar que “o óbvio não é arte”. Para ele, criar exige revelar — mostrar ângulos, camadas e sentidos que o olhar comum não captura. O óbvio, por ser apenas repetição do que já é visto e sabido, não transforma nem provoca. A arte, segundo essa lógica, precisa surpreender a percepção, desvelar o invisível, provocar inquietação ou encanto. É no gesto de revelar o que estava oculto que ela cumpre sua função mais nobre.

A vida, por si só, não basta. Alimentamos o corpo, buscamos abrigo, cumprimos nossas rotinas, mas há um vazio que não se preenche com o cotidiano. É nesse espaço que a arte surge: traduz o indizível, dá forma ao que não cabe em palavras, conecta estranhos, organiza o caos e nos lembra que somos mais do que carne e necessidade. Cada pintura, cada música, cada gesto ou poema é uma ponte entre o que sentimos e o que podemos imaginar, entre memória e futuro, entre o ordinário e o sublime.

Continua após a publicidade

A arte é o fio que costura tudo.

Assim, quando olhamos em conjunto para Tolstói, Croce, Adorno, Benjamin, Nietzsche, Heidegger, Brecht, Paulo Freire, Kant, Dewey, Ferreira Gullar e até Sêneca, vemos que todos apontam para facetas de um mesmo diamante que nos mostra a arte como ponte de emoções e expressão da subjetividade, arte como crítica social e desafio às estruturas de poder, arte como sentido existencial e revelação da verdade, e ainda a mesma arte como experiência estética e a liberdade criativa.

É nesse cruzamento de sentidos que a arte se revela indispensável à humanidade. Ela é a capacidade que temos de traduzir o indizível, de transformar em imagem, som ou gesto aquilo que sentimos, pensamos e sonhamos — e de compartilhar tudo isso com outros.

Por isso, dizer que a arte existe porque a vida não basta é reconhecer que o humano não vive apenas de ar, alimento e abrigo. Vive também de metáforas, de melodias, de histórias e de símbolos. Vive daquilo que, embora não seja estritamente necessário para a sobrevivência física, é absolutamente essencial para que a existência tenha sabor, cor e profundidade. A arte, afinal, é o lugar onde a vida se reinventa — e onde nós, ao nos encontrarmos nela, descobrimos novas formas de existir.

Pensei, pensei e dispensei aquele programa vazio, considerando um balde de água gelada em toda a efervescente vibração que tudo em Parintins me comunicava até então, imaginado o quanto um tipo de programa desse pode entrar no lugar de tudo que todos os aparelhos de televisão locais sintonizavam nas 4 noites do festival, expostas nas ruas em frente de todas as casas num lugar de honra e destaque, exibindo com garbo o que tornava aquela ilha no maior centro cultural do Amazonas e um dos maiores do Brasil. Até onde o festival e aquele programa poderá afetar na cabeça de um menino, que como o Lindolfo Monteverde, pôde criar um “Garantido” a partir da memória oralizada pelo seu avô.

Absorto nessas divagações, de repente tive o insight de olhar para o relógio do celular e verifiquei que eram 5 horas e 5 minutos, e ninguém havia comunicado, seja pessoalmente, seja por um sistema de som do porto, sobre a chegada do Itaberaba I, que estava prevista para as 5 horas em ponto.

Continua após a publicidade

Então, lembrei da piada do mineiro que pernoitou na estação ferroviária para não perder o trem, mas que, na hora prevista para a chegada, sentiu vontade de ir ao banheiro e acabou perdendo o trem, que passou exatamente nesse tempo. Por isso, peguei minhas coisas — claro, o meu “kit” junto — e fui para o píer do porto, a uns cinquenta metros da sala de espera. Ao chegar ali, solicitei informação a um funcionário, e ele apontou o rio para a direita, dizendo que o navio que seguia a uns duzentos metros em direção ao sol, que acabava de nascer, era o Itaberaba I.

Quase me desesperei, certo de que tinha repetido a piada do mineirinho, mas logo o mesmo funcionário me sugeriu que esperasse o navio São Bartolomeu, que chegaria dentro de meia hora. Nele eu poderia embarcar para ir até Santarém, onde pegaria o Itaberaba I, que estaria aportado ali e só seguiria ao meio-dia do dia seguinte.

Imediatamente entrei em contato com o senhor que me vendera a passagem e reclamei da falta de acompanhamento da agência com os passageiros que compraram bilhete com eles. Ele se desculpou, devolveu meu dinheiro, e fiquei menos aborrecido.

É importante dizer que as passagens no porto de Manaus e nas cidades ribeirinhas, em geral, são vendidas em tendas próximas ao porto por pessoas que, muitas vezes, não inspiram muita confiança — mas é assim que funciona.

Em poucos minutos, conversando com um simpático rapaz, estudante de agronomia, pude apreciar, ali do píer de Parintins, um belo nascer do sol sobre o Rio Amazonas. Diga-se de passagem: o nascer e o pôr do sol sobre o Amazonas estão entre os mais belos do Brasil. É a grandiosidade do céu sobre a grandeza do rio — impagável.

Deixamos o sol em seu espetáculo esplêndido e fomos orientados pelo funcionário do porto a nos afastarmos do local do embarque, até que o navio estivesse totalmente atracado ao cais, pois as cordas oferecem muito perigo, podendo até matar uma pessoa se ela se parte devido a força do navio e da correnteza, que forçam o navio a se afastar do cais. Com toda imponência o São Bartolomeu se aproximou e foi ancorado pelos ágeis e hábeis homens do cais e de bordo em ação orquestrada por gritos de comando e de alerta.

Após o embarque, devidamente alojado na minha rede supercolorida, tal e qual o cocar de um Cacique, segui rumo a Santarém no fluxo da correnteza titânica do maior rio do mundo em volume d’água, já banhado pelo exuberante sol do Equador.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
JAIMEHá 11 meses atrásBSB/DFO SENHOR merece. Eu que agradeço, a sua nobre e valiosa Atenção. *Presidente ML, receba meu agradecimento, pela preciosa publicação acima. Como todas as outras também, que já foram publicadas.
João EwertonHá 11 meses atrásSão LuisJAIME, muito grato por sua valiosíssima e rica opinião. grande abraço.
João EwertonHá 11 meses atrásSão LuisLiutirce Pacheco, fico feliz que tenhas gostado. Obrigado. Abraço
João EwertonHá 11 meses atrásSão LuisLuis Carlos, tenha certeza disso! Abraço.
João EwertonHá 11 meses atrásSão LuisJoão Bosco, como é bom saber que tocamos a alma daqueles mais sensíveis e perspicazes. Obrigado pelas palavras. Abraço!
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 22h01
20°
Tempo nublado

Mín. 15° Máx. 25°

20° Sensação
2.57 km/h Vento
80% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (30/08)

Mín. 17° Máx. 32°

Chuvas esparsas
Segunda (31/08)

Mín. 16° Máx. 23°

Chuvas esparsas
Ele1 - Criar site de notícias