
Nauza Luza Martins
Em 26/01/24, Mhario Lincoln fez a resenha "Na rota da Solidão" no Facetubes, sobre minha poesia “Minha solidão tem asas”. Os comentários dos leitores foram profícuos, interessantes, analíticos, sugestivos e empáticos. Mhario sempre se supera nas resenhas que faz, também sempre me surpreende pela sua generosidade. Foi o primeiro a pedir uma “Pausa para a poesia de Nauza Luza” em sua coluna semanal no Jornal Pequeno, em 1978 em São Luís/MA, onde vivíamos na época.
Sempre me sinto honrada e presenteada quando ele aprecia meus escritos e os eleva a outros patamares com suas análises brilhantes, habilmente construídas que me deixam boquiaberta e reflexiva sempre pronta a me aprimorar. Mhario Lincoln exala paixão em tudo o que faz. Quem o conhece bem sabe do que falo.
Penso que é importante deixar registrado que ele é meu Patrono em algumas Academias Literárias das quais sou membro Brasil afora. Por que homenagear autores mortos se posso ser patroneada por alguém da lavra de Mhario Lincoln, “vivinho da Silva”, e pronto para me orientar no difícil e pedregoso caminho das letras onde o cenário literário é amplamente permeado de joio em meio ao trigo? Dito isto, é importante frisar que os comentários dos ilustres escritores e poetas, que como eu, se deleitam com as sensacionais reportagens da Plataforma Facetubes, sempre me emocionam e me fazem refletir cada vez mais sobre a vida e o que me move para escrever.
Tenho a dizer que minha escrita é instintiva, brota, assim do nada, como um rio que acha uma fresta para desaguar livremente em qualquer espaço que lhe permita.
Hoje acordei com desejo de elucubrar um pouco sobre o tema da tristeza e da melancolia na poesia, visto que, na vastidão da poesia, a tristeza e a melancolia têm sido temas recorrentes, capturando a essência da alma humana em seus momentos mais sombrios. Por meio das palavras habilmente tecidas por conhecidos e famosos poetas ao longo dos séculos, essas emoções ganham vida, revelando a profundidade dos sentimentos humanos.
Em alguns autores a tristeza muitas vezes se manifesta como uma reflexão sobre a passagem do tempo em que o poeta contempla o efêmero da vida e a inevitabilidade da mudança.
Emily Dickinson, uma poeta americana que admiro em sua poesia intimista e introspectiva, mergulha nas profundezas da melancolia, explorando os cantos mais sombrios da psique humana. “Morrer por ti era pouco/Qualquer grego o fizera/Viver é mais difícil/É esta a minha oferta/Morrer é nada, nem/Mais. Porém viver importa/Morte múltipla/sem o alívio de estar morta”.
Suas palavras evocam uma sensação de isolamento e desamparo, onde a tristeza se torna uma companheira constante, envolvendo o coração do leitor em uma teia de emoções complexas. Sua poesia é um labirinto de sentimentos, onde a tristeza se entrelaça com a esperança e a melancolia se confunde com a beleza.
Nos seus versos, encontramos a solidão como uma porta que se abre para um mundo interior vasto e misterioso, onde cada emoção é vivida com uma intensidade quase palpável.
Um amigo poeta recentemente comparou meus escritos com o poeta romântico inglês Lord Byron, conhecido por sua boemia e obras carregadas de paixão e desespero, que derrama sua alma nas páginas de sua poesia. Sua melancolia é muitas vezes tingida de um profundo senso de desilusão e desesperança, ecoando os tumultos de sua própria existência.
Não é para tanto, afinal, também sou conhecida por minha veia poética sensual. Não sou pessimista nem me considero narcisista. Sou muitas em tantas, por excelência Nauza Luza, a poeta amante da lua – a Lua de Vênus.
Autores como a americana Sylvia Plath cuja vida é pontuada por múltiplos momentos de “crises de melancolia” exploram a tristeza e a melancolia de uma forma ainda mais visceral e penetrante. Suas palavras são como lâminas afiadas, cortando fundo na carne da experiência humana, revelando as cicatrizes emocionais deixadas pelo sofrimento e pela dor. “Dentro de mim mora um grito/De noite, ele sai com suas garras, à caça/De algo pra amar.”
Em cada verso desses poetas, encontramos um eco da tristeza e da melancolia que permeiam a condição humana. Suas palavras nos lembram da fragilidade da vida, da efemeridade da felicidade e da inevitabilidade do sofrimento. E é através da poesia que encontramos uma maneira de dar voz a esses sentimentos, de nos conectar com nossa própria humanidade e de encontrar consolo até nas sombras da nossa existência. Quem não as têm?
O poeta americano Edgar Allan Poe, por exemplo, diz ser a melancolia “o mais legítimo de todos os tons poéticos— e a melancolia, naturalmente, é especialista em gerar poemas tristes”.
A tristeza e a melancolia são como sombras que perpassam os versos dos poetas desde tempos imemoriais. Os poetas têm explorado essas emoções complexas, buscando expressar a essência da alma humana através de suas letras.
Em cada verso de Fernando Pessoa, por exemplo, encontramos a melancolia como uma constante presença. Seja através dos heterônimos ou de sua própria voz. Pessoa mergulha nas profundezas da tristeza, transformando-a em poesia. Em seus poemas, vemos a solidão como uma companheira constante, a saudade como uma ferida que nunca cicatriza e a angústia como uma sombra que o acompanha pela vida.
E o que dizer de Cecília Meireles? Sua poesia é um suspiro suave que ecoa através dos séculos, carregando consigo a delicadeza das emoções mais profundas. Em seus versos, a tristeza se mistura com a saudade, como uma brisa que sopra através das folhas de um livro antigo, relembrando-nos de tempos que já se foram e de pessoas que já partiram.
São tantos que tecem versos que transbordam de emoção e nostalgia. Não é minha intenção cansá-los citando cada um. Apenas criar um caminho para que cada leitor faça suas próprias descobertas.
Dito isto, concluo que é mister que cada poeta se expresse dentro de suas verdades. As emoções humanas, são como águas turbulentas que podem encontrar refúgio seguro na poesia onde sempre é possível transformar em versos a beleza espelhada também na tristeza e na melancolia.
Nauza Luza Martins, Brasília16/03/24.
Dias depois, Mhario Lincoln completaria 70 anos, naquele 27 de março.
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