Linda Barros, Escritora e Atriz. Membro da Academia Poética Brasileira
Com a liquidez dos tempos – a chamada “modernidade líquida” – somada à revolução midiática, à adesão da literatura aos suportes digitais ou digitalizados à velocidade da informação, entre tantos outros motivos que podem ser explanados, a literatura hoje conta com uma série de fatores que permitem que ela seja vista e apreciada por todos (ou por muitos). Diante dessa constatação, o questionamento expresso no título deste artigo torna-se algo difícil de ser respondido, até porque se acredita que talvez nem se tenha ainda uma resposta pronta. O que podemos ter são suposições e visões (diferentes) acerca da temática.
O sentido da literatura hoje depende de quem a lê, de quem a produz e do contexto social em que ela está inserida. Há outros aspectos que não devemos desprezar: a literatura continua sendo um espaço da linguagem. Mesmo em tempos de informação rápida, a literatura, de certa forma, contribui para desacelerar nosso ritmo diário, obrigando-nos à reflexão e à contemplação de sua forma e de seu conteúdo. Partindo da literatura é possível fazer registro de várias vozes, culturas, modos de vida diferentes. Nessa sociedade onde tudo é esquecido (só guardamos na memória aquilo que nos interessa), a literatura ajuda a preservar memórias e histórias, sejam individuais ou coletivas (para que não se percam no tempo e no espaço), faz questionamentos, denuncia injustiças e dá voz aos invisibilizados pelos sistemas dominantes.
Antonio Candido, na página 176 de seu livro Vários Escritos (2004), conceitua literatura como sendo “a maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura”. Segundo ele, a literatura é um direito indispensável como qualquer outro direito aos seres humanos e como um direito, ela deve ser acessível a todos. Nessa perspectiva, o autor acreditava no poder da arte, no poder transformador e de conscientização que a palavra tem. Nesse sentido, a arte da palavra salva e tem o poder não de conscientizar, mas de transformar conteúdos em opiniões, pois quando o leitor se coloca em contato com experiências que não são suas, a literatura dá suporte a esse leitor, fazendo com que ele tenha ampla visão de um horizonte distante ao seu.
Querendo ou não a literatura é entretenimento. E, meio a tantas mídias, a literatura continua oferecendo prazer estético, mostra narrativas e imaginários, mesmo sem perder a densidade crítica, mesmo este leitor seja mais ávido por conhecimento e diversão. Nesse contexto, a leitura pode provocar mudanças íntimas muito profundas, pois, ainda que seja uma leitura prazerosa no sentido de entreter, a literatura também traz provocações e novas formas de compreender o mundo e a si mesmo, colocando ledores em contato com experiências que não são suas, o texto literário amplia horizontes, promovendo empatia.
Há ainda muito o que se discutir sobre esse tema, mas resumindo o real sentido da literatura da literatura hoje é proporcionar um espaço de liberdade, de imaginação e de pensamento crítico, em meio a um tempo dominado pela velocidade da informação e pelo consumismo imediato. Deixando claro que nossa labuta diária com as palavras não vai parar, talvez só tenhamos que nos adequar à realidade vigente.
P.S. lembrando que este assunto não se refere ao o que é ou ao que não literatura. Esse tema será abordado em um texto futuro.
@lindabarros
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