
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Em um tempo ruidoso, atravessado por identidades em choque, disputas ideológicas e indignações à flor da pele, o humor simples e descomprometido funciona como abrigo. Ele não foge de temas difíceis; apenas muda a chave.
Ao invés da flecha, oferece a piscadela. Em vez de gritar uma tese, convida a plateia a reconhecer o humano nas pequenas situações: o tropeço, o duplo sentido involuntário, o jeito de falar do outro, o espanto do turista.
Esse é o riso desarmado que eu assisti e me diverti muito na “Arena do Humor”, quando estive recentemente em Fortaleza-CE e conheci pessoalmente uma trupe de bons humoristas cearenses, entre eles, “Seu Sergio” que, ao lado de excelente Roberto Rizzo, fazem todas as noites uma grande plateia chorar de rir, sem a necessidade do desbrilhantismo do humor negro ou político-partidário.
Na verdade, o Brasil moldou sua própria gramática do riso ao longo do século XIX e XX. O teatro de revista, popular desde a década de 1880, misturou canção, sátira de costumes e comentário político em quadros rápidos, levando plateias a rir de si mesma. (Isso lembra muito a interação que Roberto Rizzo e Seu Sergio fazem, provocando a plateia que os assiste). E quem não lembra da dupla Oscarito e Grande Otelo na rádio, o PRK-30 (1944–1964) que acabou por refinar a paródia de programas, jingles e noticiosos com trocadilhos e personagens inesquecíveis?
O circo e a TV também adicionaram seus pilares aqui no Brasil: Carequinha, Mazzaropi e, mais tarde, programas de personagens como “Os Trapalhões”, a “Escolinha do Professor Raimundo” consolidando um humor acessível à família inteira e “inventado” por cearenses de alto nível profissional. Tudo isso ajuda a entender por que o Ceará — e, em particular, Fortaleza — virou um ecossistema profissional do riso. A capital cearense transformou o humor em ativo cultural: há museu dedicado ao tema, leis que reconhecem o humor como patrimônio imaterial e que adotam Chico Anysio como patrono, além de uma rede de casas de espetáculo com programação diária.
Conheci (por duas noites) na “Arena do Humor”, a nova geração do humor cearense: Lailtinho, Mateus Cidrão, Ery Soares, Aluisio, Natanfanho, Damiana, Toinha, JotaMarcelo, Anderson Justus, e, claro, fiz uma excelente amizade com “Seu Sergio”, único nortista, do Pará, que conseguiu caminhar ao lado desses espetaculares humoristas (em parceria com Roberto Rizzo), cearenses, nessa nova maneira de fazer rir no Brasil.
Voltando ao personagem “Seu Sergio”, vale dizer que se trata do humorista Sérgio Ataíde, comediante paraense, radicado no Ceará. Não precisa conversar muito para descobrir no personagem e no ser humano, alguns pontos bem fortes, enquanto artista: seu talento na criação e interpretação de personagens cativantes, como "Seu Sérgio", é um dos seus maiores pontos fortes. Sérgio Ataíde investe fortemente em plataformas como Instagram e TikTok, onde seus vídeos virais geram alto engajamento.
Essa estratégia impulsionou sua carreira e fez “Seu Sergio”, com sorte e talento, se agregar a uma trupe de jovens humoristas da nova geração cearense, se adaptando a essa maneira única de fazer rir. É nesse território que uma dupla — Roberto Rizzo e “Seu Sérgio” — vem ampliando uma via deliberadamente “inocente” do humor porque em cena, Rizzo costura situações de choque cultural, mal-entendidos e observações de costume.
Já Seu Sérgio, entra como contraponto popular, ingênuo e afiado. O repertório privilegia o cotidiano e o nonsense limpo, sem recorrer à grosseria como atalho. O efeito é contagiante: plateias grandes, de diferentes idades, engajam porque se enxergam nas pequenas trapalhadas do dia a dia.
Sobre Roberto Rizzo outro ser humano de primeira linha, sei que ele tem estrada de artista de rua e de palco, com personagens que brincam com linguagem, sotaque e etiqueta social. Em entrevistas e aparições, a dupla enfatiza parceria e amizade, e o trabalho circula tanto em palcos quanto em podcasts e redes, uma vitalidade coerente com a cena cearense, hoje híbrida entre plateia presencial e audiência digital.
Então, num mercado em que parte das tendências aposta no choque — a piada amarga, o “cancelável”, a malícia sexual direta, a dupla Rizzo e Sergio, por opção estética, faz um humor ingênuo que funciona quase como manifesto, ampliando o círculo de convivência na plateia e reabrindo um canal de riso intergeracional.
Eu sempre acreditei que há valor artístico (difícil, inclusive) em fazer rir sem o açúcar do cinismo, pois exige uma construção verbal autêntica, um corpo atento e uma escuta direta do público. E há, sem dúvida, um monte de valor social nessa pauta.
VÍDEO-BÔNUS
(Entrevista com Falcão)
Crédito: Plataforma Nacional do Facetubes — Mhario Lincoln.
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Fontes verificadas.
Old Comedy (Aristófanes) – Encyclopaedia Britannica.
Encyclopedia Britannica. Commedia dell’arte – Encyclopaedia Britannica
Fools/Jesters na Idade Média. Teatro de revista no Brasil (exposição/arquivo) – Funarte. PRK-30, humor radiofônico (rádio pública) – Agência Brasil/EBC. Agência Brasil. Chanchadas e dupla Oscarito & Grande Otelo – Britannica (Oscarito) e Britannica (Grande Otelo). Mazzaropi e o “humor caipira” – Museu Mazzaropi (institucional). Carequinha, palhaço da TV – Wikipédia (contexto histórico). Memória Globo. Lei estadual do Ceará que reconhece o humor como bem cultural (“Lei Chico Anysio”, 2017). Lei nº 18.675/2024: Chico Anysio patrono do Humor Cearense – Assembleia Legislativa do Ceará. Museu do Humor Cearense (institucional).
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