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Bioque: a voz que resgata o étimo do silêncio para gerar poesia única

Este poema de Bioque Mesito assume risco, busca proporção e ajusta excessos; a imagem se amplia sem perder foco, timbra a fala baixa e comovente. Linguagem própria de poucos pós-ancestrais de Eliot e Rilke.

13/10/2025 às 18h45 Atualizada em 13/10/2025 às 21h32
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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Arte: Mhario Lincoln
Arte: Mhario Lincoln

 

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Texto de autoria de Mhario Lincoln, editor sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.

 

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Meu Deus! Bioque Mesito é o responsável pelo adiamento (mais uma vez) da conclusão do meu inédito “O Sexto Sexo”. E por quê? Ora, porque esse poeta espetacular ao escrever poesias, consegue retirar seu véu criativo para entregar o rosto da experiência, sem filtro sentimental, sem exibicionismo de forma. Meu Deus, repito! Como aprendo lendo Bioque. E essa vontade de ir mais longe já me fez rever alguns poemas meus que eu dava como prontos. De novo: é fundamental para um poeta que quer crescer (meu caso), ler, ler e ler outros poetas, cuja qualidade é, sem dúvida, uma linha mestra de aprendizagem.

 

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No caso desse grandes ludovicense de 1972, sempre premiado ao longo de sua carreira, há uma contenção calculada no seu dizer que lembra a ética do artesão: cada palavra encaixa no lugar certo, cada pausa respira junto com a imagem. O resultado é um clássico “de agora”. Eu gosto de dizer que coisas assim, traduzem poemas que dialogam com tradição e, ao mesmo tempo, recusa a vitrine das grandiloquências fáceis. A matéria-prima é o cotidiano bem lapidado, até adquirir espessura metafísica.

 

No primeiro terceto, a imagem inicial arma o campo de forças da peça. O poeta toma uma cena concreta e a ilumina de viés; a luz vem não do objeto, mas do ângulo. O gesto é decisivo: aquilo que parecia circunstância vira princípio. Nessa hora, percebi não estar diante de um relato, e sim de um ponto de vista; e é esse deslocamento que confere tensão.

 

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No segundo terceto, a matéria sensorial se adensa. O corpo aparece não para ilustrar uma emoção, mas para interrogar a própria linguagem que tenta dizê-lo. Exatamente isso: interrogar! A imagem se dobra sobre si e produz reverberação ética porque não se trata apenas de “sentir mais”, e sim de sentir melhor.

 

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O terceiro terceto lembrou-me algo se desfaz, mas em se desfazendo revela o que importa. A dicção abranda, o ritmo desacelera, e a sintaxe abre pequenas fendas de silêncio. Nessas fendas consegui escutar o que não está dito. Exatamente aí que mora a grandeza de Bioque Mesito.

 

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Já no quarto terceto, o poema assume risco porque atravessa o íntimo sem confissões fáceis. O poeta não exibe mágoas nem propõe lições morais; busca proporção. Ao aparar excessos, encontra temperatura. É aí que a voz adquire timbre próprio. Bioque fala baixo, mas sua palavra pesa. A imagem central se recompõe, agora mais ampla; ganha campo sem perder foco. E eu, me emocionando junto.

 

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O quinto terceto condensa tudo em um fechamento que não fecha. Não é epifania brilhosa, é resolução justa, tipo, aquela espécie de claro-escuro intelectual que respeita a ambiguidade do real (Sinceramente, amei esses versos).

 

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Aliás, por afinidade de essência, tomo, inclusive a liberdade de convidar para a mesma mesa, um Rainer Maria Rilke e T. S. Eliot. De Rilke, Bioque herda a coragem de pensar o invisível sem perder a ancoragem sensível; de Eliot, a noção de que a experiência é uma espiral que retorna ao início com outro entendimento.

Card do poeta.

 

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Fontes (poetas citados):
Rainer Maria Rilke, “The First Elegy (Duino Elegies)”, diversas edições e traduções; versão consultada: Poetry Society of America / Poetry in Translation. T. S. Eliot, “Little Gidding” (Four Quartets), edição e excertos disponíveis em Poetry Archive/Columbia.

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