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Ainda existem poetas que não conseguem ver o belo, a alma e a razão de viver

Por isso, torna-se difícil ser um poeta wabisabiano se quem escreve, ainda não enxerga a alma pelo simples.

20/10/2025 às 16h41 Atualizada em 20/10/2025 às 17h22
Por: Mhario Lincoln Fonte: MHARIO LINCOLN
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Arte: MHL
Arte: MHL

Mhario Lincoln, poeta jornalista e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.

 

Em meu livro “Segredos Poéticos”, nas páginas finais, eu faço releituras de dois monstros sagrados da poesia asiática: LI BAI (“... longos assim, só tristeza e sofrimento...”. O outro, DU FU (“... quando poderemos nos apoiar no rebordo da mesma janela...”).

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Pois bem! Deparo-me agora com algo muito sério e difícil de se fazer insights líricos: o estilo filosófico “wabi-sabi”, que, mesmo surgido no Japão (Asia Oriental) foi e ainda é influente em toda aquela região do Planeta, especificamente, no continente eurasiano.

 

E sabe o porquê da dificuldade nestes tempos modernos de se fazer versos wabisabianos? Porque a alma de alguns poetas mudou drasticamente ao se deixar injetar, como motes, com ares materiais, egóicos e narcisistas, onde a poesia escrita por esses, é somente suporte, em segundo plano, para a locupletação psicótica (primeiro plano) do autor.

 

Desta forma, escrever com a técnica milenar ("wabi-sabi") só se torna possível, quando o poeta consegue se despir das petulâncias, das arrogâncias, das prepotências e do autoelogio. Só escreve sob a técnica do ("webi-sabi") quem consegue encontrar "um maior contentamento em coisas simples a sua volta e apreciar a beleza real, pura e bela, nos detalhes mais simples e autênticos da vida", afirma P. Y. Taniguchi, (tradução livre), estudioso do gênero japonês de literatura.

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Destarte, encontrei exatamente isso ao ler, de Rogério Rocha, seu “Wabi-sabi”, onde ele afina o ouvido para o que permanece; enquanto tudo passa: o sino, o musgo, a névoa, o rumor do rio. Não há ornamento; há precisão. Os versos caminham descalços sobre seixos, recusando grandiloquência para tocar o essencial e atingir a proximidade do que é simples e verdadeiro.

 

Puxa vida! Como é bom para meus olhos e para minh’alma ouvir uma voz que diz: “Não estou longe / nem abaixo / Estou perto de ti / No fundo estou em tudo”.  Isto é uma poética da atenção, onde cada imagem retém tempo e desgaste, beleza e cicatriz, como se o poema fosse uma pedra respirando.

 

O resultado é um lirismo rigoroso, de rara contenção, que sustenta a reputação de Rogério como um dos 10 nomes centrais da poesia maranhense deste século XXI porque nele e sua obra, a sabedoria não se anuncia. Ela se exerce. Isso me lembra uma sobriedade bem próxima de Matsuo Bashō, (é reconhecido como um mestre da sucinta e clara forma poética), cuja delicadeza em fixar o instante fundou uma ética do olhar.

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Então, se Bashō condensa o mundo no choque mínimo entre ser e ambiente; “Velho lago: / salta uma rã — / som da água” (*), Rogério Rocha recolhe o mesmo silêncio e o expande numa corrente mansa, fazendo da sua percepção, um respirar contínuo. Ou seja, ambos praticam a contenção como método: nada sobra, nada falta. Em Bashō, o instante é lâmina; em Rogério, é correnteza.

 

Os dois, porém, convergem num ponto: a beleza irradia no que envelhece, e a poesia, na arte de ouvir o mundo antes que ele se cale. Enfim, a emoção foi muito grande em ler mais esse poema (ipis litteris, abaixo) de Rogerio Rocha, exatamente no amanhecer gelado de uma Curitiba solitária e vazia, às cinco da manhã.

 

Arte: MHL/ginAI.

 


Wabi-sabi 
(por Rogério Rocha)


SOU o sino do templo 
nos jardins do silêncio 
a pedra coberta 
de musgo 
sob a força dos ventos 

a névoa das montanhas 
por entre os pinheiros 
a melodia do rio
nas águas da vida
no orvalho dos dias

caminho de terra 
e seixos
sob pés descalços

Não estou longe
nem abaixo
Estou perto de ti
No fundo estou em tudo

 

 

Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira

 

****

Fonte:(*) Matsuo Bashō, haicai clássico, antologizado em The Narrow Road to the Deep North and Other Travel Sketches.

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Joizacawpy Há 8 meses São Luís Oportuno texto, de fato escrever, poetizar requer uma visão ampla de tudo que nos envolve, que naturalmente perpassa pelo eu, mas não estaciona no eu se amplia para tantos outros horizontes. A poesia não é para autoaplauso, mas para chegar em muitos que dela tomam conhecimento.
Raimundo Fontenele Há 8 meses Barra do Corda MAVerdade verdadeira, Mhario Lincoln. O poeta Rogério, a cada poema, a cada palavra, chega mais perto da concisão e do ajuste final de uma poesia que o situa como um futuro grande poeta desta sua geração.
Prof. MarildaHá 8 meses São Luis MAPerfeição, intelectualidade, leitura e amadurecimento. Parabéns Rogério. Li teus primeiros poemas (soltos como se fosse construídos pelo seu talento desde pequenininho). Mas hoje, após estudos filosóficos, a tua poesia mudou, tamanha a força que ela repassa.
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