
Mhario Lincoln, poeta jornalista e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
Em meu livro “Segredos Poéticos”, nas páginas finais, eu faço releituras de dois monstros sagrados da poesia asiática: LI BAI (“... longos assim, só tristeza e sofrimento...”. O outro, DU FU (“... quando poderemos nos apoiar no rebordo da mesma janela...”).
Pois bem! Deparo-me agora com algo muito sério e difícil de se fazer insights líricos: o estilo filosófico “wabi-sabi”, que, mesmo surgido no Japão (Asia Oriental) foi e ainda é influente em toda aquela região do Planeta, especificamente, no continente eurasiano.
E sabe o porquê da dificuldade nestes tempos modernos de se fazer versos wabisabianos? Porque a alma de alguns poetas mudou drasticamente ao se deixar injetar, como motes, com ares materiais, egóicos e narcisistas, onde a poesia escrita por esses, é somente suporte, em segundo plano, para a locupletação psicótica (primeiro plano) do autor.
Desta forma, escrever com a técnica milenar ("wabi-sabi") só se torna possível, quando o poeta consegue se despir das petulâncias, das arrogâncias, das prepotências e do autoelogio. Só escreve sob a técnica do ("webi-sabi") quem consegue encontrar "um maior contentamento em coisas simples a sua volta e apreciar a beleza real, pura e bela, nos detalhes mais simples e autênticos da vida", afirma P. Y. Taniguchi, (tradução livre), estudioso do gênero japonês de literatura.
Destarte, encontrei exatamente isso ao ler, de Rogério Rocha, seu “Wabi-sabi”, onde ele afina o ouvido para o que permanece; enquanto tudo passa: o sino, o musgo, a névoa, o rumor do rio. Não há ornamento; há precisão. Os versos caminham descalços sobre seixos, recusando grandiloquência para tocar o essencial e atingir a proximidade do que é simples e verdadeiro.
Puxa vida! Como é bom para meus olhos e para minh’alma ouvir uma voz que diz: “Não estou longe / nem abaixo / Estou perto de ti / No fundo estou em tudo”. Isto é uma poética da atenção, onde cada imagem retém tempo e desgaste, beleza e cicatriz, como se o poema fosse uma pedra respirando.
O resultado é um lirismo rigoroso, de rara contenção, que sustenta a reputação de Rogério como um dos 10 nomes centrais da poesia maranhense deste século XXI porque nele e sua obra, a sabedoria não se anuncia. Ela se exerce. Isso me lembra uma sobriedade bem próxima de Matsuo Bashō, (é reconhecido como um mestre da sucinta e clara forma poética), cuja delicadeza em fixar o instante fundou uma ética do olhar.
Então, se Bashō condensa o mundo no choque mínimo entre ser e ambiente; “Velho lago: / salta uma rã — / som da água” (*), Rogério Rocha recolhe o mesmo silêncio e o expande numa corrente mansa, fazendo da sua percepção, um respirar contínuo. Ou seja, ambos praticam a contenção como método: nada sobra, nada falta. Em Bashō, o instante é lâmina; em Rogério, é correnteza.
Os dois, porém, convergem num ponto: a beleza irradia no que envelhece, e a poesia, na arte de ouvir o mundo antes que ele se cale. Enfim, a emoção foi muito grande em ler mais esse poema (ipis litteris, abaixo) de Rogerio Rocha, exatamente no amanhecer gelado de uma Curitiba solitária e vazia, às cinco da manhã.
Wabi-sabi
(por Rogério Rocha)
SOU o sino do templo
nos jardins do silêncio
a pedra coberta
de musgo
sob a força dos ventos
a névoa das montanhas
por entre os pinheiros
a melodia do rio
nas águas da vida
no orvalho dos dias
caminho de terra
e seixos
sob pés descalços
Não estou longe
nem abaixo
Estou perto de ti
No fundo estou em tudo
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira
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Fonte:(*) Matsuo Bashō, haicai clássico, antologizado em The Narrow Road to the Deep North and Other Travel Sketches.
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