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Impossível falar “Consciência Negra”, sem olhar para o encontro entre literatura, militância e jurisprudência

Releituras: algoritmos resgatam matérias que ultrapassaram 1 mil acessos. Esta é uma delas.

28/02/2026 às 23h00 Atualizada em 28/02/2026 às 23h29
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
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arte: mhl/ (GINAI Facetubes Artificial Intelligence)
arte: mhl/ (GINAI Facetubes Artificial Intelligence)

Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes* c/ Revistas da Academia.edu/Google/Alert/NYTimes/WikimediaCommons.

No Brasil de 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, é impossível falar em “irreversível” sem olhar para o histórico encontro entre literatura, militância e marcos jurídicos como a Lei 10.639/2003, o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) e a própria Lei 12.519/2011, que instituiu oficialmente o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra – mais recentemente elevado a feriado nacional pela Lei 14.759/2023. (Palácio do Planalto+3Wikipédia+3Brasil Escola+3)

 

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É nesse cruzamento entre palavra, lei e política que se destacam três escritoras negras, neste momento histórico: uma brasileira, outra moçambicana e, por fim, uma norte-americana, dentre inúmeras outras; mas essas, são autoras de livros se tornaram ferramentas de elaboração de uma consciência negra global, capaz de pressionar o Estado, formar agendas e sustentar leis.

Em tempo: a editoria não se firmou em ideologia. Mas na força literária de cada uma.

 

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Sueli Carneiro.

1. Brasil – Sueli Carneiro e o projeto de igualdade como política de Estado

No eixo brasileiro, a obra-símbolo escolhida é “Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil”, da filósofa e ativista Sueli Carneiro, publicada pela Selo Negro, em 2011, na coleção Consciência em Debate. O livro reúne artigos escritos entre 2001 e 2010, período em que o país discutia o Estatuto da Igualdade Racial e as cotas raciais nas universidades, e em que o movimento negro pressionava por políticas de ação afirmativa.

A própria apresentação da obra destaca que Carneiro explicita “como o racismo e o sexismo têm estruturado as relações sociais, políticas e de gênero” e que o livro é fundamental para educadores e formuladores de políticas públicas, justamente num momento em que o país debatia o Estatuto da Igualdade Racial e a reserva de vagas para negros no Ensino Superior.

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Em textos que dialogam diretamente com a formulação de políticas públicas, Sueli mostra o racismo como dispositivo de poder que opera na escola, no Estado e no mercado de trabalho, produzindo o que ela chama de “epistemicídio” – a destruição de saberes negros.

Ao lado da militância no Movimento Negro Unificado, da fundação do Geledés – Instituto da Mulher Negra e da participação em audiências públicas no STF em defesa das cotas, a obra de Carneiro oferece o vocabulário conceitual que alimenta a aplicação da Lei 10.639/2003 – que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira – e a própria agenda das ações afirmativas.

Nesse sentido, Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil não é apenas um livro de ensaios: é um manual de leitura do país que ajuda a transformar “consciência” em norma, política e jurisprudência.

 

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Paulina Chiziane

2. Moçambique – Paulina Chiziane e a consciência descolonial em língua portuguesa

No eixo moçambicano, a referência é Paulina Chiziane, primeira mulher a publicar um romance em Moçambique e hoje um dos principais nomes da ficção africana de língua portuguesa, reconhecida com o Prémio Camões 2021.

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Entre seus livros, dois se impõem como bases para uma consciência negra descolonial no espaço lusófono: “Niketche: uma história de poligamia” (2002) e “O alegre canto da perdiz” (2008).

Em Niketche, Chiziane desmonta, pela voz de mulheres, um sistema em que poligamia, patriarcado e racismo se entrelaçam com os restos do colonialismo, expondo “a subjugação de valores africanos aos valores europeus, a poligamia e as relações de subserviência”, como parte de um mesmo regime de dominação.

Seu romance transforma o corpo da mulher negra em território político, em que se disputam memória, religião, tradição e autonomia.

O alegre canto da perdiz tem sido lido por pesquisadores como uma convergência entre literatura e crítica pós-colonial, dialogando com autores como Frantz Fanon (psiquiatra e filósofo político natural das Antilhas francesas que exerceu expressiva influência nos estudos pós-coloniais) e Edward Said (crítico literário e ativista político palestino-americano) para denunciar a violência do colonialismo e o trauma persistente na vida das mulheres moçambicanas.

Estudos sobre a obra destacam que Chiziane dá voz às mulheres silenciadas pelas estruturas coloniais e pós-coloniais, transformando suas narrativas em denúncia do racismo, do patriarcado e das continuidades coloniais.

Ao chegar às universidades brasileiras, às políticas de cooperação Sul-Sul e aos debates sobre descolonização do currículo, a obra de Paulina Chiziane passa a operar como ponte entre África e Brasil, reforçando a urgência de leis que reconheçam a centralidade da história africana na formação da sociedade brasileira – exatamente o espírito da Lei 10.639/2003 e das diretrizes para o ensino de história e cultura afro-brasileira.

Sua literatura, traduzida e debatida em contexto acadêmico, ajuda a deslocar a “consciência negra” de um evento comemorativo para um projeto descolonial contínuo, que pressiona por reformas curriculares e políticas de reparação.

 

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Angela Davis

3. Estados Unidos – Angela Davis e a gramática global da luta antirracista

No eixo norte-americano, a escolha recai sobre Angela Davis e o clássico “Women, Race & Class” (1981). O livro é descrito por críticos e editoras como um estudo indispensável das condições das mulheres negras nos EUA, examinando a interseção entre racismo, sexismo e exploração de classe na escravidão, no pós-abolição e nas lutas do século XX.

Ensaios recentes sublinham que a obra continua a ressoar por oferecer uma história que corrige apagamentos e torna legível a experiência específica das mulheres negras, algo fundamental para as lutas atuais contra a violência policial, o encarceramento em massa e as desigualdades estruturais.

A frase de Davis – “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista” – tornou-se lema de campanhas e políticas educacionais no Brasil, aparecendo, por exemplo, em materiais que discutem a importância da Lei 10.639/2003 para a construção de uma sociedade antirracista.

Sua obra e sua trajetória influenciam diretamente intelectuais e militantes brasileiras, incluindo Sueli Carneiro, que dialoga com o feminismo negro internacional para formular sua crítica ao racismo de Estado e às desigualdades de gênero.

Ao conectar história da escravidão, lutas trabalhistas, movimentos feministas e direitos civis, Women, Race & Class oferece uma gramática global da consciência negra: mostra como a opressão racial não é um desvio do sistema, mas um de seus pilares, e como a resposta precisa ser estrutural, articulando movimentos sociais, reformas legais e transformação cultural.

Desta forma, as ideias formuladas por autoras como Sueli Carneiro, Paulina Chiziane e Angela Davis ajudam a sustentar, em diferentes frentes, esse caminho de transformar memória em direito:

No plano jurídico-político, contribuem para consolidar a noção de racismo estrutural, legitimando o Estatuto da Igualdade Racial e as políticas de cotas e ação afirmativa.

 

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Destarte, no plano educacional, oferecem base teórica e narrativa para a implementação da Lei 10.639/2003, que exige o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, reconhecendo intelectuais negros como sujeitos do conhecimento. E no plano simbólico e cultural, ampliam o repertório da consciência negra para além das fronteiras nacionais, articulando Brasil, África e diásporas em torno de uma agenda comum de combate ao racismo, ao sexismo e às heranças coloniais.

 

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(*) Fontes:

Mhl.

Editoria-Geral da Plataforma Nacional c/ Revistas da Academia.edu/Google/Alert/NYTimes/WikimediaCommons. Pesquisa essêncial: "Enciclopédia Negra"/Flávio dos Santos Gomes/Jaime Lauriano/ Lilia Schvvarcz.

 

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"A Enciclopédia Negra a meu ver, não é um catálogo biográfico. É uma reparação histórica.m Isso porque, ao reconstituir o percurso de mais de 550 pessoas negras (em 416 verbetes que atravessam séculos, regiões, profissões, credos, gêneros e orientações sexuais), a obra costura aquilo que o Brasil oficial insistiu em rasurar: nomes, rostos, afetos, sonhos e projetos que fundaram o país, mas raramente aparecem como protagonistas. Flávio dos Santos Gomes, Lilia Moritz Schwarcz e Jaime Lauriano atualizam a tradição humanista ao devolver centralidade a essas vidas, tratando cada biografia como existência singular, multifacetada e complexa, em vez de mero dado estatístico de um passado escravocrata. Essa obra de grande relevância, sintetiza tudo isso.

É um “reencontro” com a memória silenciada. Assim, essa  Enciclopédia Negra que guardo com carinho no mais alto da prateleira de minha biblioteca residencial,  desmonta o conforto da narrativa única e mostra que a experiência nacional só pode ser compreendida quando o protagonismo negro deixa de ser exceção e passa a ser regra no imaginário e na escrita da história do Brasil". Texto de Mhario Lincoln, poeta e jornalista, editor-sênior da Platafoma Nacional do Facetubes.

 

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Silvânia TamerHá 4 meses São LuisParabéns pela excelente matéria. As reflexões de Sueli Carneiro, Paulina Chiziane e Angela Davis iluminam a urgência de reconhecer o racismo estrutural e fortalecer o Estatuto da Igualdade Racial. O Dia da Consciência Negra nos convoca a romper silêncios, enfrentar preconceitos enraizados e reafirmar que igualdade é compromisso diário, com justiça, dignidade e humanidade.
Keila Marta Há 4 meses São LuísEssas questões relacionadas à desigualdade e preconceito racial é muito complicado e está tão emaranhado culturalmente que tem se perpetuado até os dias atuais, e deve ser muito dolorido sofrer algum tipo de segregação por conta da cor ou do aspecto do cabelo. Parece que tudo se torna mais difícil, deve ser cansativo está sempre se impondo, dizendo não ou por vezes subindo o tom para se fazer ouvido.
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