
*Mhario Lincoln
Em todo Natal, sou tomado por uma espécie de compulsão: preciso ler um ou dois livros sobre a data. Este ano, depois de reler Dickens nos sete primeiros dias de dezembro, pedi à GinAI, (Artificial Intelligence Management of Facetubes), que criasse, sem qualquer 'prompt' meu, ou seja, zero interferência), uma imagem de Papai Noel neste 2025. A máquina devolveu a cena que ilustra esta página: o bom velhinho sentado na areia, ao lado de um homem em trapos, dividindo um cachorro-quente e um refrigerante diante de um pôr do sol, que parece maior do que a própria tristeza.
A vontade de escrever sobre a imagem me levou de volta às aulas de redação no Colégio "São Luís Gonzaga", em São Luís, nos anos 60, com a professora Zuleide Bogea. Ela colocava um grande livro de gravuras num cavalete e pedia à turma do ensino básico que descrevesse a cena. Ali, aprendi que olhar com atenção é o primeiro passo para transformar silêncio em narrativa. Essa foto, mesmo digital, me faz retomar uma velha ideia dos fins de ano: a esperança. Mesmo sabendo que boa parte das promessas se desfaz com a primeira chuva fria.
Porém, voltando à foto IA, essa imagem do homem magro, com olhos brilhando, não é a de quem ganhou um banquete, mas a de quem, por alguns minutos, voltou a se sentir gente. Então eu pergunto. Será que a máquina teve segundos paradoxais de um insight beirando uma “sensibilidade biônica” ? Isso porque a IA não desenhou um Papai Noel mágico, mas uma figura capaz de preservar, com gestos mínimos, os bons fluidos da humanidade. Veja bem! Quando alguém se senta ao lado, escuta e reparte o pouco que tem, (mesmo só escutando palavras), está dizendo ao outro: “Você ainda faz parte. Você ainda conta”. Está compactuando e reconhecendo que 'ouvir' e 'compartilhar', vale mais do que qualquer presente caro embrulhado em papel brilhante.
Destarte, essa criação digital de forma direta ou indireta acabou por reforçar minha tarefa íntima. A de não esperar por milagres, em 2026, sejam humanos, profissionais, mentais ou de saúde. Mas que devo participar de 2026 com todas as forças que ainda tenho. E se ninguém me estender as mãos (ou não mais compreender meus atos) que eu - mesmo assim - consiga estender a mão a quem está no fundo do boqueirão, possa compartilhar um lanche simples ou oferecer um abraço inteiro de reconhecimento.
Sei, por outro lado, que meus pequenos atos de bem-aventurança, não deixarão a humanidade feliz, nem matarão a fome do mundo, mas fazendo a minha parte, sem egoísmo, ódio ou rancor, posso ajuda de forma indireta, a preservar o que mais importa para mim, neste momento em que vivo: a certeza de que ninguém está definitivamente condenado ao abandono.
Então, caso meu Natal se resuma apenas em praticar algumas ações positivas, vendo e ouvindo o outro, já me darei por satisfeito. Mesmo que em algum momento da festa, alguém ainda tente revirar ódios antigos ou condenar por erros do passado, insistirei em outra rota: a de Papai Noel na areia, dividindo o pouco que tem com quem quase não tem nada. É nesse gesto simples, repetido longe das vitrines, dos shoppings, das lareiras com presentes infindos, que eu reconheço o verdadeiro espírito natalino.
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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