
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes.
“O Presente dos Magos” atravessou mais de um século sem perder a maneira de ferir e consolar na mesma frase, como fazem os contos realmente populares: curtos, claros e implacáveis. Publicado em 10 de dezembro de 1905, no The New York Sunday World, e depois incorporado à coletânea The Four Million (1906), o texto de O. Henry — pseudônimo de William Sydney Porter — constrói sua grandeza justamente a partir da pobreza material do casal e da riqueza moral do gesto. A reviravolta, tantas vezes recontada, não é um truque: é uma sentença sobre o preço íntimo do afeto, lembrando que o amor não se mede pelo objeto, mas pela coragem de perder algo para salvar o outro do vazio da data.
Há também uma inteligência social no conto que o tempo só confirmou. O. Henry escreve a cidade e a conta do fim do mês sem dramatização excessiva: "o dinheiro curto não aparece como espetáculo da miséria, mas como motor de escolhas e pequenos constrangimentos", afirma o jornalista Mhario Lincoln, que indicou a narrativa para ser incluída nesta lista do Facetubes. E é, exatamente por essa ideia, que essa história continua moderna. O argumento moral não pede piedade; pede atenção ao que fica invisível quando o calendário transforma “presente” em obrigação. E, no fundo, o que torna o conto um clássico natalino não é o enfeite qualquer comprado em uma loja de R$1,00, mas é a ideia de que a ternura, quando é verdadeira, aceita ficar “desarmada” mesmo que nosso Mundo ainda prefira 'embrulhos'.
No extremo oposto do verbo, “O Boneco de Neve”, de Raymond Briggs, prova que o Natal também pode ser narrado com silêncio, ritmo e imagem. O livro, lançado em 1978 no Reino Unido, é inteiramente sem palavras e desenhado em lápis de cor, como se a memória da infância tivesse textura e granulação próprias. Cada pausa vira lembrança pessoal, cada quadro vira um espaço de projeção, e a delicadeza melancólica da jornada (que é encantamento, mas também despedida) nasce justamente do que não é explicado.
A adaptação animada de 1982 transformou esse silêncio em música e consolidou a obra como ritual televisivo britânico. Exibida pela Channel 4, com direção de Dianne Jackson e produção de John Coates, ela manteve a ausência de diálogos e apostou na partitura de Howard Blake — com “Walking in the Air” (leia abaixo a letra original e traduzida), como coração afetivo, cantada por Peter Auty. O reconhecimento veio em escala rara para um especial natalino. A indicação ao Oscar (55ª edição) e prêmio BAFTA de programa infantil, sinais de que a história fala a várias gerações sem precisar “explicar” o que quer dizer.
Caminhando No Ar
Walking In The Air
Direção de Dianne Jackson e produção de John Coates
Estamos caminhando no ar
We're walking in the air
Estamos flutuando no céu enluarado
We're floating in the moonlit sky
As pessoas lá embaixo dormem enquanto voamos
The people far below are sleeping as we fly
Segurando firme
I'm holding very tight
Passeando no azul da meia-noite
I'm riding in the midnight blue
Descobrindo que posso voar alto com você
I'm finding I can fly so high above with you
Através do mundo
Far across the world
As vilas passam como se fossem árvores
The villages go by like trees
Os rios e as colinas
The rivers and the hills
A floresta e os riachos
The forests and the streams
As crianças de boca aberta contemplam
Children gaze open mouth
Pegas de surpresa
Taken by surprise
Ninguém lá embaixo acredita no que está vendo
Nobody down below believes their eyes
Estamos surfando no ar
We're surfing in the air
Estamos nadando no céu congelado
We're swimming in the frozen sky
Estamos passando acima das congeladas
We're drifting over icy
montanhas flutuantes
Mountains floating by
De repente baixamos até o fundo de oceano
Suddenly swooping low on an ocean deep
Despertando o monstro poderoso de seu sono
Arousing of a mighty monster from its sleep
Estamos caminhando no ar
We're walking in the air
Flutuamos no céu da meia-noite
We're floating in the midnight sky
E quem nos vê cumprimenta-nos enquanto voamos
And everyone who sees us greets us as we fly
***
Lidos em sequência, os dois títulos formam um díptico exemplar do Natal. Em O. Henry, o presente pesa porque custa; em Briggs, o presente pesa porque passa. Um aponta para a ética do amor que renuncia; o outro, para a beleza frágil do que derrete — e, por isso mesmo, permanece.
Boa leitura!
Vídeo-Bônus
(Dicas de leituras. Ficção britânica. A Christmas carol. 1843. Um conto de Natal. by Charles Dickens (1812 - 1870) escritor e jornalista) com Leonardo Magalhaens, colaborador da Plataforma Nacional do Facetubes
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