Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes
Maroca Amor Amordaçada, de Biláh Bernardes, chega ao leitor como um livro de encantamento e superação. O próprio texto de apresentação, assinado pelo competente Anelito de Oliveira, diz que a narrativa mira a vida comum por dentro, com a coragem de quem sabe que, para falar de ferida social.
Em Belo Horizonte, durante a estada em que a Academia Poética Brasileira foi para empossar novos membros a convite de Clevane Pessoa, vice-presidente da instituição, a presença da autora e o contexto mineiro reforçam o sentido de obra nascida do chão, do encontro e do testemunho. Desde essa época, lá pelos idos de 2014, Biláh demonstrava muita capacidade lírica e combativa, agora, em bela prosa socializada.
O núcleo do livro, conforme a apresentação, está no percurso de uma leitora chamada Maroca, que muda à medida que lê. “À medida que se intensifica sua experiência de leitura de narrativas, Maroca evolui de uma visão genérica sobre injustiça social para uma visão mais específica, da injustiça social sobre a mulher.”
E é aqui que a literatura entra como alavanca concreta, não como discurso abstrato. A leitura de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, é apontada como decisiva, num processo que transforma percepção e linguagem, e que aproxima Maroca da história real de mulheres esmagadas pela pobreza, pela violência e pela exclusão.
A identificação vai além do entendimento intelectual e encosta na pele, no nome, no orgulho. Segundo a apresentação, Maroca “se identifica profundamente” com a autora lida, a ponto de essa experiência “transformar inclusive sua relação com o próprio nome”, quando ela passa a se orgulhar de se chamar Carolina, espelhando-se na escritora que se tornou ícone de lutas históricas que atravessam mulheres, da pobreza ao desamor, da discriminação à opressão.
Nesse ponto, o livro amarra dois movimentos num só. A leitura amplia o mundo e, ao mesmo tempo, estreita o foco, colocando a injustiça social sob a lente do gênero e revelando o custo íntimo de sobreviver quando o lar também é território de silêncio.
O texto de apresentação é explícito ao fazer dessa história uma política afetiva. Afirma que “a cooperação entre mulheres é imprescindível ao enfrentamento e superação necessária dessas mazelas” e conclui que Amor Amordaçado é “uma possível contribuição a essa superação”, definida como “uma sororidade afetivo-literária”. É uma escolha forte porque desloca a ideia de “amor” do campo romântico e coloca a palavra para operar como resistência.
O amordaçamento aqui não é só tema, é denúncia de um mecanismo social que cala, desautoriza e normaliza a dor. O livro reage oferecendo ligação, espelho e linguagem. Esse encaixe se amplia quando o título passa a circular no ecossistema da Coleção Infame Ruído 2025, que “apresenta vozes das margens do mundo” e reúne autoras e autores que produzem cultural ou geograficamente fora dos circuitos hegemônicos na América Latina, na África e também na Europa.
Como item estruturante do projeto Terceira Feira, iniciativa do Instituto de Desenvolvimento Humano Daghobé, a coleção visa contribuir com a formação de leitores em escolas públicas situadas em territórios com menores taxas de IDH nos vales do Jequitinhonha e Mucuri, no grande sertão das Minas Gerais, aproximando autores brasileiros e hispano-americanos de leitores que, historicamente, foram deixados para depois.
Nesse cenário, Maroca Amor-Amordaçada cumpre uma função dupla. É literatura que refina a sensibilidade e, ao mesmo tempo, ferramenta de leitura do mundo, afirmando que a palavra também pode ser abrigo, denúncia e ponte.
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