
Esmeralda Costa (APB-CE), titular da Coluna do Cordel Brasileiro
O Natal sempre foi um terreno fértil para a poesia popular. Nos folhetos de cordel, essa data ganha vida não apenas como celebração festiva, mas como espaço de reflexão crítica sobre valores, memórias e contradições da sociedade. Entre os muitos temas revisitados pelos poetas populares, destaca-se o debate entre fé e consumo, tradição e mercado. Este é sem dúvidas, o tema central do cordel “Quem é maior no Natal: Jesus ou Papai Noel?”, de autoria de Kênia Diógenes e Sandreilson Moreira.
Construído no formato clássico da peleja, o cordel promove um diálogo direto entre Jesus Cristo e Papai Noel, mediados por um narrador atento. Mais do que disputar protagonismo, os personagens revelam ao leitor as múltiplas camadas que envolvem o Natal contemporâneo. De um lado, Papai Noel assume o papel do símbolo globalizado, associado aos presentes, à publicidade e ao imaginário infantil; de outro, Jesus Cristo resgata o sentido originário da data, marcado pela caridade, pelo amor ao próximo e pela justiça social.
Neste tempo propício para a reflexão sobre o verdadeiro sentido do Natal, nossa coluna Cordel Brasileiro, traz na íntegra para você, caro leitor, o precioso e reflexivo cordel:
Quem é Maior no Natal: Jesus ou Papai Noel?
Kênia Diógenes e Sandreilson Moreira
Narrador:
Era uma vez dois sujeitos
Disputando um só papel
Vamos ver nessa peleja
Apresentada em cordel
Quem é maior no natal
Jesus,ou Papai Noel?
P.N:
Prazer, meu nome é Noel
Meu ho ho ho é legal
Quando chega o fim de ano
Sou atração principal
Pois eu sou no mundo inteiro
O símbolo do Natal.
J.C:
Pois a festa do natal
Foi em minha homenagem
De quando voltei à terra
Num período, de passagem.
Eu me chamo Jesus Cristo
Tu és pura malandragem.
P.N:
Sei que o natal começou
Quando tu, Jesus, nasceu
Eu sou ciente dos fatos
Sei bem o que aconteceu
Mas hoje é bem diferente
Agora o natal sou eu.
J.C:
O Natal só é você
Para certo cidadão
Aquele que só se importa
Com presente e diversão
Esquecendo-se que alguns
Vivem sem nenhum tostão.
P.N:
Pois trago no meu trenó
No meu saco de bagagem
Presente pra todo mundo
Numa única viagem
O que será do natal
Se não tiver minha imagem?
J.C:
Sua imagem foi criada
Pela multinacional
Chamada de Coca-cola
Representa o capital
Antes até verde era
Sua roupa habitual.
P.N:
Vestindo verde ou vermelho
O mais querido sou eu
Recebo milhões de cartas
Nesse período que é meu
E você fica esquecido
Ninguém nunca lhe escreveu.
J.C:
Se ninguém nunca me escreve
É por não ser necessário
Os pedidos saem da alma
Do sofrimento primário
Se o problema é muito grande
Eu que sou o destinatário.
P.N:
Tenho colaboradores
Trabalhando noite e dia
Fazendo a mais linda festa
Com amor, paz e alegria
E transformando o natal
Num período de magia.
J.C:
Se tu falas dos duendes
Essa lenda enganadora
Respondo que para mim
Gente bem batalhadora
Trabalha sem ter cansaço
Numa lida inspiradora.
P.N:
Seus seguidores me vêem
Como figura banal
Sem saber que também fui
Uma pessoa real
Que fez o bem,e porque
Me tratam como rival?
J. C:
Eis essa grande injustiça
Conferida a seu respeito
Se foste um homem tão bom
Lembrado por grande feito
É triste que sua imagem
Mudou tanto desse jeito.
P.N:
Quem mais será o culpado
Dessa contrariedade?
Pois se agora sou famoso
Foi devido a caridade
Porque eu sempre ajudei
Quem tinha necessidade.
J.C:
Se você fez caridade
Já tem todo meu amor
Ajudar a quem precisa
É um ato redentor
Me entristece que hoje sejas
Boneco decorador.
P.N:
Sempre busquei ajudar
A quem sofria a mercê
Passando necessidade
Não somos rivais porquê
Tudo que fiz pelos outros
Eu aprendi com você.
J.C:
Se o que você aprendeu
Foi amor e caridade
Acho que uns esqueceram
Seu princípio de bondade
Juntos vamos resgatar
O desejo de equidade?
P.N:
Quase ninguém entendeu
Mas vou fazer um resumo
Meu trabalho caridoso
Agora segue outro rumo
E meu legado hoje em dia
Só representa consumo.
J.C:
Hoje tratam seu presente
Como matéria, mais nada
Apesar de oferecer
Alegria à criançada
Meu presente é para sempre
Se usa em toda jornada.
P. N:
Mas lá no princípio tinha
Uma sublime união
Quando meu gesto tocava
O mais duro coração
O Senhor entrava em cena
Com amor,paz e perdão.
J.C:
Os presentes ofertados
Nos centros de caridade
Ainda resgatam sonhos
De amor e de bondade
Cumprindo um pouco a missão
Dessa incrível sociedade.
P. N:
Eu represento quem tem
Um coração com amor
Essa obra é toda sua
Sou só um trabalhador
Que levo sua bondade
Pra todo canto que for.
J. C:
Seu trabalho continua
No plano espiritual
Pois se encarnado fez muito
Fez bem mais no plano astral
Não é à toa que tens
Por nome São Nicolau.
Narrador:
E assim termina a peleja
Sem vencido ou vencedor
Que a razão do natalício
É compartilhar amor
E os exemplos do nascido
Ser um multiplicador.
Como vimos, a essência do texto não se reduz a um simples confronto. Ao longo dos versos, Papai Noel reconhece sua origem histórica ligada à caridade de São Nicolau e lamenta a transformação de sua imagem em objeto de consumo. Jesus, por sua vez, não o rejeita nem o diminui, mas o acolhe como instrumento de bondade, lembrando que todo gesto solidário encontra raiz nos valores que Ele próprio ensinou. Assim, o cordel desloca o leitor do debate “quem é maior” para uma reflexão mais profunda: o que realmente estamos celebrando no Natal?
O tema abordado, reafirma uma das funções mais nobres do cordel: provocar consciência crítica sem perder a leveza, o humor e a musicalidade. Ao tratar de temas como desigualdade social, esvaziamento simbólico das festas e mercantilização da fé, os autores dialogam diretamente com o presente, mostrando que o cordel continua vivo, atual e necessário.
Em tempos em que o Natal muitas vezes se resume a vitrines iluminadas e listas de compras, cordéis como este cumprem o papel de reconectar a celebração ao seu sentido humano e coletivo. Mais do que escolher entre Jesus ou Papai Noel, o texto convida o leitor a resgatar o espírito do Natal como tempo de partilha, empatia e compromisso com o outro, trazendo à tona valores que não cabem em embrulhos, mas transformam trajetórias.
Assim, este e outros cordéis natalinos seguem sendo não apenas memória cultural, mas também instrumentos de resistência poética, lembrando que o verdadeiro presente do Natal é, e sempre será, o amor compartilhado.
A Coluna Cordel Brasileiro e o portal Facetubes, desejam um Feliz Natal e um abençoado ano novo a todos os leitores.
Um abraço e até a próxima edição!
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Esmeralda Costa
Campos Sales-CE
Membro da Academia Poética Brasileira(APB), Academia Cearense de Literatura de Cordel(ACLC), Academia Internacional de Literatura Brasileira(AILB) e Academia Groairense de Letras(AGL).
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