
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
Inúmeros vídeos foram enviados para a Central da Plataforma Nacional do Facetubes ([email protected]). Um deles, chamou a atenção dos editores. Era o que fala sobre perdão e está publicado na conta do (carlosbezerrajr) no Facetubes. O vídeo é simplesmente incrível, apesar de ser muito simples. Uma abordagem normal em uma rua e uma pergunta sobre “o perdão”. É óbvio que existem ofensas tremendas, até imperdoáveis. Mas...
Ficou claro nesse vídeo que perdoar não é um gesto leve. É um ato que mexe com a o íntimo do orgulho, com a memória do que doeu e com a tentação de manter a ferida como prova. Há gente que confunde perdão com rendição, como se perdoar fosse admitir que o outro estava certo.
Não é! O perdão, quando é verdadeiro, não absolve o erro automaticamente, não apaga a responsabilidade, não reescreve o fato. Ele faz outra coisa, mais difícil: ele impede que o fato continue mandando em você.
A dificuldade começa por um ponto simples e brutal. A ofensa não é só um acontecimento, é uma perda de controle. Algo entrou na sua vida sem pedir licença e alterou o que você pensava ser sua segurança. Por isso, a raiva se apresenta como um modo de “organizar” o caos, um modo de manter o peito em pé. Só que, com o tempo, a raiva vira casa. E aí o perdão deixa de ser um tema moral e vira uma decisão de sobrevivência.
Existe o perdão como reconciliação, aquele que reata vínculos quando há arrependimento e mudança. Existe o perdão como limite, quando você perdoa, mas não volta a dar ao outro o mesmo lugar. Existe o perdão como silêncio, quando você não precisa mais explicar a dor para o ofensor para se libertar dela. E existe o perdão mais invisível e mais esquecido, o perdão de si mesmo, que costuma ser o mais cruel porque não tem para onde fugir. Quem se condena por dentro se torna juiz e réu ao mesmo tempo. E isso desgasta até a fé.
O "Pai Nosso", tão falado e tão pouco encarado, não romantiza esse processo. Ele coloca o perdão como medida, não como enfeite. “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.” Não é uma frase de efeito. É uma exigência de coerência. É como se dissesse que não há paz espiritual sem uma prática concreta de desatar nós. E, para muitos, a contradição se revela aí: a pessoa pede perdão a Deus, mas continua negando perdão ao outro como se isso fosse um direito sagrado, um troféu do próprio sofrimento.
Voltando ao vídeo, Maria não fala como quem decorou uma lição. Ela responde com a força de quem já teve de usar o perdão para não se perder. Quando diz que perdoar é força, ela não está vendendo virtude. Ela está relatando um caminho. Ela chama o perdão de presente para si mesma. Como se fosse uma maneira de se mover, de sair do lugar onde a dor estaciona e domina. Ela fala disso com o corpo, com o coração. A emoção transborda. E quando a voz vacila e ela chora ao confessar o quanto pensa nisso, o que vemos é raro: alguém que não tem vergonha de admitir que o perdão, para ela, é uma disciplina interior, quase uma oração diária, um trabalho de limpeza do próprio espírito.
E então vem a parte que incomoda de verdade. Maria diz que todos fazemos escolhas ruins. Todos erramos. E que a falta de perdão produz uma força de coisas ruins que atravessa gerações. Essa frase não é “bonita”. Ela é acusatória contra o nosso hábito de perpetuar aquilo que nos feriu. Porque, quando não perdoamos, não apenas guardamos a lembrança do mal. Nós carregamos o mal como método, como linguagem, como lente. O ressentimento vira herança. O que era dor vira postura. O que era trauma vira regra. E, sem perceber, a gente repete no outro, em alguém mais fraco, aquilo que jurou nunca mais aceitar.
Por isso, entrar em 2026 falando de perdão não é convite à autoajuda. É convite à lucidez. Começar perdoando a si mesmo pode ser o primeiro corte real no ciclo. Perdoar-se pelas coisas ruins provocadas pela ganância, pela inveja, pela sensação de supremacia, pela rigidez egóica que transforma qualquer desacordo em guerra. Perdoar-se não é passar pano. É reconhecer, sem maquiagem, que você também feriu, que você também falhou, que você também foi pequeno em momentos decisivos. E então, em vez de transformar a culpa em chicote, transformar a culpa em mudança.
O VÍDEO
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