
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
EXCLUSIVO: Antes de entrarmos no mérito, há de se perguntar: existe algo no leitor que leve a esperar que o livro censurado seja liberado para ler e, após a liberação, o livro continue tendo o mesmo peso, dantes, censurado? Pois bem! Um levantamento que toca diretamente no “instinto do leitor” diante do proibido, foi publicado no The Harris Poll (EUA, 2015), repercutida por veículos da área de bibliotecas. Nele, há um registro de que 30% dos adultos disseram que ficariam mais propensos a ler um livro se ele tivesse sido banido, e 40% afirmaram que se sentiriam mais atraídos por um livro controverso. Com base nisso (e deixando claro: modelo editorial, não “resultado real” para as três opções), o Facetubes criou a enquete: “Quando você descobre que uma obra foi recolhida/censurada, o que faz?”. As respostas abaixo:
(1) Leio logo, justamente por ser censurada. (2) Insisto em ler: espero, procuro e faço questão de encontrar. (3) Evito: prefiro não entrar em polêmicas e escolho outra obra.
E você, caro leitor, o que faria? Dúvida? Então, vale ler, abaixo:
Grande nomes, grandes escalhes, na Prosa e na Poesia.
Existe um mito confortável em torno dos “grandes nomes”: o de que tudo o que publicam vira sucesso automático. A história editorial mostra o contrário. Herman Melville, por exemplo, viu Moby-Dick (1851) naufragar no próprio tempo, recebendo acolhida crítica e comercial fraca e ficando longe de qualquer “fenômeno de livraria” que seu nome viria a representar depois.
Do mesmo modo, F. Scott Fitzgerald chegou a 1934 com expectativa alta e entrega literária ambiciosa, mas Tender Is the Night teve recepção morna e desempenho aquém do esperado na largada, com números de vendas iniciais modestos em relação ao prestígio que o autor carregava.
Em muitos casos, o “encalhe” tem causa objetiva e documentada: censura, processos, recolhimento. Foi o que ocorreu com The Rainbow (1915), de D. H. Lawrence, banido após ser rotulado como obsceno, com exemplares não vendidos confiscados, o que travou circulação e consolidou a marca do escândalo sobre o livro.
No Brasil, época dos Governos Militares, também houve esse tipo de bloqueio editorial: Feliz Ano Novo (1975), de Rubem Fonseca, foi proibido e atingido por medidas de censura em 1976, com impacto direto na disponibilidade da obra e na sua trajetória pública naquele período.
Clarice Lispector também viveu esse tipo de barreira de recepção: pesquisas acadêmicas e levantamento de crítica jornalística registram A cidade sitiada (1949) como obra de “recepção difícil”, associada a avaliações negativas iniciais e ao estigma de linguagem trabalhosa, o que ajuda a explicar por que o romance ficou, por anos, à margem do entusiasmo popular, mesmo com a autora já em ascensão. Aliás, vale dizer que a obra de Lispector é um romance publicado em 1948, sobre uma moça chamada Lucrécia que, morando no subúrbio, só consegue olhar para o mundo a partir de seus olhos. Quando sai de lá, passa a perceber que o mundo que ela olha também olha pra ela.
Há ainda o “encalhe” que nasce do próprio desafio formal. William Faulkner publicou The Sound and the Fury (1929) com uma arquitetura narrativa que afastou leitores no início; a própria Britannica registra que o livro “não vendeu rapidamente”, e aponta o peso da seção inicial difícil como barreira concreta de leitura.
James Joyce foi além: Finnegans Wake (1939) se impôs como obra de recepção dividida e linguagem radicalmente complexa, com mistura de idiomas e estratégias linguísticas que empurraram o romance para um público menor, mais especializado do que massivo.
No campo da poesia, a história também desmonta a fantasia do “sucesso inevitável”. A primeira edição de Leaves of Grass (1855), de Walt Whitman, é registrada em estudos do Walt Whitman Archive como tendo vendido “muito poucos exemplares” no início, antes de o livro construir, lentamente, sua vida longa e seu lugar no cânone.
E há fracassos editoriais quase didáticos, como o caso de Henry David Thoreau: seu primeiro livro, A Week on the Concord and Merrimack Rivers (1849), teve devolução maciça de exemplares, episódio preservado na documentação do projeto “The Writings of Henry D. Thoreau” e em registros que reproduzem o número de 706 cópias retornadas ao autor, um retrato cru de como a glória literária, muitas vezes, chega tarde.
Alguns títulos não foram apenas rejeitados: foram atacados. Jude the Obscure (1895), de Thomas Hardy, enfrentou reação hostil e escandalizada, a ponto de a crítica e o clima moral da época marcarem o livro como “indesejável” e, segundo relatos recorrentes, contribuir para que Hardy abandonasse o romance e se voltasse à poesia.
Teve ainda um caso dos mais esdrúxulos, cujo livro acabou sendo odiado por muitos anos. Trata-se do livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774), de Johann Wolfgang von Goethe. O romance foi associado, já no século XVIII, a uma onda de suicídios por imitação (o chamado “efeito Werther”), porque alguns leitores teriam reproduzido o gesto do protagonista e até elementos de vestuário descritos no livro. Importante: isso é uma associação histórica e cultural frequentemente mencionada, não uma prova simples de causa direta — mas ficou como o exemplo clássico de obra literária ligada a “sucessão” de casos de imitação.
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