
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
Na última noite do ano, a virada costuma parecer um gesto simples. Mas, quando a gente encosta o ouvido na tradição brasileira, descobre que o réveillon sempre foi mais do que festa: é um instante em que a literatura pede passagem mesmo - e alguns, nem se dão conta disso. Ou seja, reparo e futuro. Se voltássemos no tempo e traduzíssemos, com rigor de arquivo, o que cartas, biografias, crônicas e memórias deixam escapar, ouviríamos vozes do século XIX e XX desejando, cada uma à sua maneira, a mesma coisa essencial: um país menos estreito do que a dor que ele produz. Machado de Assis, Cruz e Sousa, Castro Alves, Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus, Mário de Andrade, Jorge Amado e Marcelo Rubens Paiva.
Machado de Assis talvez pedisse o que nunca foi “apenas” íntimo: saúde para continuar escrevendo e serenidade para manter de pé o amor que o ancorava no mundo. Há registros biográficos que apontam o peso da epilepsia e do desgaste físico em sua vida adulta. Ao lado dele, Cruz e Sousa faria um pedido mais áspero, porque nasceu onde a sociedade negava futuro a um homem negro com ambição estética: “ares de liberdade”, não como metáfora bonita, mas como direito de existir e publicar sem ser empurrado para a margem.
E se Castro Alves estivesse entre nós na contagem regressiva, o desejo viria com pressa de quem viveu pouco e escreveu como se a linguagem pudesse abrir cadeados. O Brasil o consagrou como voz abolicionista, e isso já diz que o seu “ano novo” não caberia em calendário: seria a urgência de ver a liberdade deixar de ser promessa e virar chão. Lima Barreto, por sua vez, talvez não pedisse glória; pediria lucidez coletiva, menos racismo e menos cinismo da elite. O que sua vida revela, inclusive em registros e programas dedicados a sua memória, é uma obstinação em denunciar um país desigual, pagando com solidão, estigma e feridas íntimas o preço de dizer a verdade em voz alta.
Aí entra Carolina Maria de Jesus, que faria um pedido capaz de constranger qualquer salão: comida, papel, dignidade e a chance de sua escrita ser lida como literatura, não como curiosidade social. Ela foi catadora de papel e se tornou autora de um dos livros mais contundentes do país, publicado a partir de diários, e o seu percurso segue documentado em acervos que mostram como vida e obra se misturam sem pedir licença. Mário de Andrade, olhando para o mesmo Brasil por outra lente, desejaria que o país aprendesse a escutar a si próprio, sem vergonha das vozes populares que a modernização tenta silenciar. Não é suposição: ele idealizou e organizou, em 1938, uma missão para registrar manifestações culturais e folclóricas no Norte e Nordeste, como quem salva um arquivo vivo antes que ele pudesse desaparecer. Sabia disso?
Jorge Amado, militante e romancista, faria um pedido que tem endereço político: o direito de voltar, o direito de publicar, o direito de ver amigos soltos. Ao fim, esses dez desejos de Ano Novo, acima, (hipotéticos, até certo ponto) se encostam como fogos no mesmo céu: saúde para criar, liberdade para existir, justiça para não adoecer, memória para não desaparecer, e coragem para reescrever o país com palavras que não se vendem. Se o Brasil quiser mesmo virar o ano e entrar, nestas épocas, em um 2026 forte e autêntico, precisa aprender com seus escritores o gesto mais raro: “trocar a comemoração vazia por uma decisão profunda, daquelas que mudam a vida sem fazer barulho”, como disse certa vez o filósofo contemporâneo (APB-PR), Olinto Simões.
Mas há um autor específico que merece destaque: Marcelo Rubens Paiva. Na pesquisa elaborada pela Plataforma Nacional do Facetubes querendo saber qual livro (marcou) mesmo a virada de ano, 56% responderam "Feliz Ano Velho". A faixa etária questionada estava entre 19 e 60 anos, faixa essa que pode funcionar como uma espécie de régua emocional.
Na verdade, "Feliz Ano Velho" foi publicado originalmente em 1982 e narra, com contundência e nervo, o acidente que deixou o autor tetraplégico poucos dias antes do Natal de 1979, além de acompanhar a travessia entre hospitais, corpo, família, amigos e reinvenção de vida. O impacto foi tão imediato que a obra apareceu entre os premiados do Jabuti de 1983 como autor revelação, sinal de que não era apenas uma história pessoal, mas uma ferida geracional colocada em voz pública.
O que torna o livro inesquecível é que ele recusa a maquiagem do heroísmo, e entrega uma verdade crua, às vezes engraçada, às vezes insuportável, sempre lúcida. Em um dos trechos mais citados, o narrador admite, sem retórica, “Meu futuro é uma quantidade infinita de incertezas.” A frase não dramatiza, ela delimita. A partir dali, a reflexão objetiva é dura e necessária, a vida não promete estabilidade, mas exige construção, milímetro por milímetro, com vergonha, raiva, ternura e coragem.
Talvez por isso, quando escritores e poetas “preveem” o ano seguinte, o que aparece, no fundo, é a mesma aposta que atravessa "Feliz Ano Velho", a de que recomeçar não é um slogan, é um método.
Uns projetam um livro grande, outros um quadrinho, outros um novo romance, outros apenas o direito de seguir perguntando. Paiva lembra que, às vezes, 'o ano que vem' começa no mesmo dia em que tudo desaba, e que a literatura, quando é honesta, não promete final feliz, mas oferece direção, lucidez e uma forma de não desistir.
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