
*Mhario Lincoln
Quem ainda tratava poesia afro-brasileira como “tema” e não como espinha dorsal do país, pode mudar de opinião quando ler “Afrodescendência em Mim”, de Maura Luza Frazão. Isso porque a autora escreve sobre esse discutido e polêmico tema com muita nitidez. E não pede licença “pra seu ninga”.
Nessas páginas (as quais li ainda no nascedouro), fica explícita que a sua identidade pulsa por todos os poros, me levando a crer na ideia do mesmo “pulsar” dos signos fortes, em rituais africanos, ainda vivos e atravessando séculos. Ou seja, cada verso que li nessa obra, me traz a palavra imensurável, não, como ornamento. Mas, para virar presença, corpo, memória e gesto de pertencimento.
Lendo com mais atenção, imaginei uma obra que constrói uma linhagem íntima e coletiva ao mesmo tempo: celebra melanina pulsante, recusa 'valores impostos'. No entanto, me desnudou a maneira como a autora tem fome de conhecimento e liberdade, fazendo os versos aparecerem, como se escritos por “mãos calejadas” de quem atravessou lutas oceânicas reais.
Essa força de Maura Luza se traduz também pela maturidade em encarar suas novas realidades. Ela mesmo me falou que se inseriu no contexto da luta africana há alguns anos, após reconhecer sua força interior nativa. E, de certa forma, com a influência da literatura afro, ora, ocupando patamares jamais visto, anteriormente, dentro do arcabouço da literatura brasileira.
A meu ver, a literatura afro, não está mais à margem do contexto. E, sim, no centro do furacão, abrindo pela coragem, esmero, consciência, cultura e liberdade a própria história, como no caso dos versos de Maura Luza, que vem somar com outras grandes autoras afrodescendentes.
Por exemplo: no circuito internacional, um marco recente envolve Ana Maria Gonçalves, autora de “Um defeito de cor”, romance que recebeu o Prêmio Casa de las Américas (2007), distinção concedida em Cuba e tradicionalmente associada à projeção continental de obras latino-americanas.
Outra frente de reconhecimento fora do país aparece com Conceição Evaristo, apontada como vencedora do Prêmio Nicolás Guillén (Caribbean Philosophical Association, 2018). Na mesma linha de consagração internacional, a escritora Sueli Carneiro recebeu o Kalman Silvert Award (LASA, 2021), voltado a trajetórias de grande impacto intelectual. E, por fim, para não me alongar muito, trago para a mesma mesa onde senta, com orgulho Maura Luza, a autora Djamila Ribeiro, figura entre as laureadas do Prince Claus Award (2019), concedido pelo fundo cultural holandês.
Como se vê, gradativamente, a literatura afro veio retomando os espaços que sempre foram seus, através de reação inteligentes e pacífica (a pena é a arma) de escritores oriundos dos conglomerados quilombolas, terreiros, oralidades e experiências negras contemporâneas no Brasil, fato que explicitou a sustentabilidade de novas formas de narrar o país.
Sim, isso mesmo: novas formas de narrar o País, embutindo verdades (não simplesmente estórias escolares, escritas pelos vencedores) nos colégios, universidades, mercado editorial e política cultural.
Não por acaso, o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira é obrigação legal (Lei 10.639/2003). E quando essa literatura ganha circulação, ela amplia repertório, corrige apagamentos e cria instrumentos de leitura do presente, como a ideia de escrevivência, que inscreve a vida coletiva na escrita.
Confesso que tive vontade de perguntar diretamente a Maura Luza, após resenhar seu livro: a poesia afro é de difícil digestão para certos intelectuais mandantes do contexto, por ser militante demais? Esse medo deles — às vezes 'travestido de critérios estéticos' (como me contou raivosamente o poeta e APB-MA, João Batista do Lago, apoiador do movimento afro-poético) — é uma forma antiga de controle, porque tenta separar beleza; de verdade, forma; de experiência?
Pois minha pesquisa demonstrou - infelizmente - que falta pouco para a consagração, mas, mesmo com o advento da Lei 10.639/2003, pesquisas e levantamentos mostram que a implementação ainda é falha, em muitos lugares deste país e por causa disso, algumas poetas e escritoras negras preferem guardar suas obras em gavetas interiores, antes de expô-las publicamente.
Contudo, a meu ver, o insight decisivo é simples e libertador: a poesia afro não pede privilégio; pede escuta justa. Ela não reduz o mundo. Ela o devolve por inteiro, com camadas que estavam faltando. E é aí que Maura Luza Frazão se impõe com qualidades raras: clareza emocional, coragem de nomear, musicalidade direta em seus poemas, imaginação ética em seus versos e uma inteligência de construção que faz o leitor sentir e pensar ao mesmo tempo.
Por isso que eu designei “Afrodescendência em Mim”, como uma obra que opera como “sankofa”, símbolo africano significando, "retornar ao passado para aprender e construir o futuro".
E dentro de todas as boas possibilidades, enfim, posso dizer, de peito aberto que, para o meu Maranhão, esse livro vai virar ferramenta viva de estudo e mobilização cultural, além de criar círculos de leitura em escolas e bibliotecas ancorados na Lei 10.639; formar professores com cadernos pedagógicos, em aplicação imediata; promover saraus e slams intergeracionais (oralidade como método) em bairros, quilombos e centros culturais; mapear e registrar autoras e autores afro-maranhenses em acervo digital (texto e áudio) com universidades e coletivos; e instituir uma semana anual de poesia afro nas redes e na imprensa cultural, com debates, oficinas e clubes de leitura.
Bom, ao fim, posso afirmar: a literatura afro-maranhense, no gênero poesia (moderna), tem um período: antes/depois de “Afrodescendência em Mim”.
Orgulho-me de ter feito a apresentação (pós-prefácio), da obra, com muito orgulho.
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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