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Quando os 'loucos' perseguem livros. A história de Constantinopla às fogueiras nazistas: a censura como método de Poder

Pilhagens, expurgos e intimidações mostram como a repressão à palavra destrói acervos, espalha autocensura e estreita o debate hipotético, transformando a literatura em alvo político e o leitor em refém do medo.

06/01/2026 às 11h52 Atualizada em 06/01/2026 às 12h42
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes.
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Arte: MHL/GINAI do FT
Arte: MHL/GINAI do FT

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes.

Quando o Estado tenta governar a circulação de livros, não está apenas administrando um conflito de ideias. Está redefinindo o que uma sociedade aceita como permitido pensar, discutir e registrar. A história literária guarda episódios em que a repressão não se limita ao ato tardio de proibir. Ela se antecipa, vigia, infiltra, intimida e constrange a cadeia editorial, deslocando a decisão do leitor para a esfera do medo e do controle.

Constantinopla oferece um retrato antigo e eloquente dessa fragilidade do patrimônio escrito. A perda de manuscritos e bibliotecas não cabe numa imagem única de incêndio, mas em sucessivas rupturas, como o saque de 1204 na Quarta Cruzada, associado à pilhagem e à dispersão de bens culturais, e, depois, a queda de 1453, cujo efeito cultural foi ambivalente. A fuga de estudiosos com livros para a Itália aparece em estudos como um vetor que ampliou o acesso do Ocidente à tradição grega, mostrando como, em certos momentos, a destruição e o exílio reconfiguram o mapa do conhecimento, ainda que deixem lacunas irreparáveis.

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No século XX, as fogueiras públicas de livros na Alemanha nazista, em maio de 1933, explicitaram o caráter pedagógico da violência simbólica. Queimar obras em praça pública não era apenas eliminar exemplares, era anunciar um projeto de “limpeza” cultural e intimidar autores, leitores, editores, professores e bibliotecários. A consequência imediata foi o expurgo e a perseguição. E mais profundo ainda: a normalização da ideia de que o poder tem direito de decidir quais palavras pertencem à comunidade e quais devem ser apagadas.

 

A repressão moderna também sofisticou métodos, especialmente em regimes que preferiram o carimbo e o arquivo policial ao espetáculo. No bloco soviético, a palavra foi tratada como assunto administrativo e de segurança, com obras impedidas de circular no próprio país e manuscritos sequestrados por órgãos do Estado. É nesse ambiente que se inscrevem as trajetórias de obras como Doutor Jivago, Vida e Destino e Arquipélago Gulag, frequentemente lembradas como exemplos de como a censura pode atuar não só sobre o livro impresso, mas sobre o próprio processo de escrita, tornando a criação uma atividade de risco.

Há, ainda, a perseguição que nasce do choque entre literatura e fundamentalismos, quando a coerção escapa do Estado formal e passa a operar por ameaças que atravessam fronteiras. A obra Os Versos Satânicos (1988), de Salman Rushdie, virou um símbolo porque transformou o desacordo com um texto em justificativa para violência, deslocando a controvérsia do campo da crítica para o da intimidação.

Nesse ponto, a história da censura encontra uma teoria da liberdade. Quando George Orwell descreveu como a pressão política altera aquilo que pode ser dito, chamou atenção para um mecanismo decisivo. Muitas vezes a censura mais eficiente é a que dispensa tribunal, porque instala o reflexo da conformidade e o hábito do autocontrole. Séculos antes, John Milton já denunciava o licenciamento prévio como uma tutela que infantiliza a sociedade e empobrece o próprio ato de conhecer. Em conjunto, essas reflexões ajudam a entender por que a intimidação cultural tende a produzir um país menor, mesmo quando se apresenta como proteção.

 

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Assim, os editores da Plataforma Nacional do Facetubes também pesquisaram esses absurdos acontecidos num Brasil não tão longe porque o país também viveu esse repertório, com a censura como rotina e o constrangimento como estratégia.

O Pasquim sob censura prévia, com intervenções que foram além do lápis do censor, e a repressão a livros como Zero e Em Câmara Lenta ilustram um período em que o Estado tentou controlar não só o que se publicava, mas quem publicava. Mesmo na ‘democracia’, a disputa reaparece por outros caminhos. Feliz Ano Velho se consolidou como marco de memória e geração, enquanto o caso da biografia Roberto Carlos em Detalhes, retirado de circulação após acordo em 2007, expôs como a via judicial pode operar como barreira à circulação, tema que voltou ao centro do debate quando a justiça brasileira decidiu, em 2015, que “biografias não dependem de autorização prévia”.

Diante desses episódios, a imparcialidade exige reconhecer que há tensões reais entre direitos individuais, ordem pública e liberdade de expressão. Mas a evidência histórica também é clara ao mostrar o custo de permitir que estruturas de coerção, formais ou informais, definam o que pode ser publicado.

Quando o medo se torna política cultural, o resultado mais comum não é a proteção da sociedade, e sim a erosão do debate e o empobrecimento do horizonte intelectual. E isto é real, em quaisquer lados, em quaisquer tempos.

 

VÍDEO-BÔNUS

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Literatura indiana [em inglês]. Romance Midnight's Children. 1981. Do autor indiano britânico Salman Rushdie [1947-] escritor Leitura e comentários by LdeM Bacharel em Letras FALE / UFMG.

 

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JaimeHá 1 semana BSB/DFPreclaro Presidente ML, O Senhor abre o ano, nos brindando, com esse magnífico artigo acima. Parabéns!!!
Keila Marta Há 1 semana São LuísPara o bem ou para o mal as pessoas devem ter acesso aos dois lados da moeda, o problema é que quando a notícia é manipulada, e direcionada para outra direção fica mais difícil,e assim as pessoas acabam viciando enxergar as coisas por apenas uma lente. E por isso que não se deve sensurar a publicação literária, pois o acesso diferentes fontes, livros diferentes culturas, outras editoras, a riqueza de repertórios sem apego a viés é uma das maneiras de ampliar a formação intelectual.
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