
Mhario Lincoln, Editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
Decidi começar o ano lendo algo mais musculoso, desses livros que não “passam” pela gente, atravessam. Saí às ruas de Curitiba procurando uma leitura mais vigorosa e, depois de algum tempo mergulhado na solidão de uma pequena livraria do centro, com ruas quase vazias e vento frio batendo de lado, fui puxado para o fundo de uma estante de Sociologia, em um dos vários sebos daquela rua. Lá estava ele, como quem espera há anos: "A Criação da Consciência Feminista", de Gerda Lerner.
Eu não conhecia a autora. Abri, folheei devagar, senti o cheiro da celulose e da tinta e, em meia hora de contato, já estava fisgado. Li um trecho em pé, outro sentado num banquinho, com aquela inquietação boa de quem encontra algo raro. O livro que encontrei é a edição brasileira da Cultrix, com tradução de Luiza Sellera, e chegou com a promessa de encarar, sem maquiagem, a longa luta das mulheres para libertar a mente do pensamento patriarcal.
Há uma dimensão histórica aí que não cabe em slogan. Lerner escreveu este volume como parte de sua obra maior Women and History, iniciada com A Criação do Patriarcado. Não é um “manual” para os dias de hoje, é uma investigação que pergunta de onde veio o apagamento e por que a interrupção do legado feminino se repetiu tanto.
E a autora não é um nome lateral nessa conversa. Gerda Lerner, nascida em Viena e forçada a fugir do nazismo, tornou-se uma das vozes que ajudaram a fundar, de fato, o campo da História das Mulheres dentro das lides Academicas, criando programas pioneiros e insistindo que “mulheres” não eram nota de rodapé de nada. Na homenagem publicada pela American Historical Association, ela é descrita com precisão: “Gerda Lerner was a historian of remarkable eloquence, insight, and courage”. (Gerda Lerner foi uma historiadora de notável eloquência, perspicácia e coragem.)
O que o livro faz, então? Ele acompanha um percurso que vai da Idade Média ao fim do século XIX, com uma narrativa documentada e povoada por rostos concretos, de místicas como Hildegard de Bingen e Julian of Norwich a escritoras que abriram frestas onde não havia porta, chegando a nomes como Emily Dickinson. No meio desse caminho, Lerner dedica atenção especial à crítica bíblica feminista e ao modo como, por séculos, mulheres precisaram voltar aos mesmos textos para enfrentar a “autoridade” usada contra elas.
E há um detalhe que me bateu com força, porque é mais triste do que qualquer tese: a sensação de descontinuidade, como se uma geração não conseguisse entregar à outra uma herança inteira do que aprendeu. É o tipo de coisa que explica por que certas lutas parecem recomeçar do zero. A própria orelha do livro traz um elogio de Nell Irvin Painter, professora de História em Princeton, que resume bem esse impacto quando diz: “In this wise, wonderful book… Lerner remedies the very tragedy she analyses”. Traduzindo: “Neste livro sábio e maravilhoso… Lerner remedia a própria tragédia que analisa.”
Saí da livraria com a sensação de quem “já ganhou o ano”. E mal cheguei em casa, comecei a devorar o livro. Quando escrevi este texto, em 02.01.2025, (ou seja, no ano passado), às 13h03, eu já tinha sido puxado para dentro de um corredor onde convivem tragédia e triunfo na condição feminina, esse misto de dor e conquista que atravessa séculos. Paguei para ver.
E estou aprendendo, com rigor e sensibilidade, a falar e escrever sobre um tema que não aceita preguiça intelectual. Imagino o que essa leitura ainda vai me entregar até o fim. Ainda empolgado, sugiro a leitura para quem se interessa por assuntos (reais) sobre como essa luta de "pertencimento", esta, a palavra mais usada em 2025, segundo a Brooks), no Brasil.
Evoé, Lerner.
Mhario Lincoln, Editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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