
"A chegada de Vitória Duarte à Plataforma Nacional do Facetubes representa mais do que a incorporação de um novo nome ao corpo de colaboradores: é a confirmação de que a literatura maranhense vive um momento de rara vitalidade. Sua voz, já reconhecida entre leitores atentos e críticos exigentes, carrega uma combinação rara de sensibilidade, rigor e coragem estética. Há nela uma lucidez que não se impõe pelo estrondo, mas pela precisão; uma força que nasce do cuidado com cada frase, como se cada palavra fosse escolhida para permanecer.
A editoria-geral desta Plataforma não poderia ignorar a relevância de uma autora que, tão jovem, já demonstra domínio de uma escrita que se expande para além das fronteiras regionais. Convidá-la a integrar este espaço global é reconhecer que sua obra dialoga com o mundo sem perder o sotaque da terra que a formou. Vitória chega como quem abre janelas: trazendo ar novo, perspectivas que iluminam e uma maturidade literária que surpreende pela densidade.
Em sua estreia, propõe-se a refletir sobre resoluções literárias para atravessar o ano, tema que exige serenidade e firmeza. Em tempos de dispersão, pensar a literatura como bússola é um gesto de resistência". (Mhario Lincoln)
Por: Vitória Duarte
As escritoras que atravessam este texto não prometem finais felizes, produtividade constante ou clareza. Mas prometem (tentar) seguir mesmo quando o mundo aperta. Porém, nem todas essas resoluções foram escritas como resoluções. Apenas Alejandra Pizarnik e Virginia Woolf, de fato, registraram esse gesto direto de prometer a si mesmas algo no início do ano. As outras (Cora Coralina, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles) vieram de frases soltas e livros… Acredito que o mais importante é ter em mente que algumas resoluções não precisam ser nomeadas para existir. Elas se revelam na insistência de certos temas, no retorno a uma mesma pergunta, na forma como uma autora escreve apesar de tudo. Então decidi chamar essas citações de resoluções porque elas atravessam o tempo como compromissos silenciosos.
Recria a tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
−Cora Coralina
O recomeço aqui não é épico, é doméstico. Cora não fala em grandes mudanças, mas em gestos possíveis como remover pedras, plantar roseiras, fazer doces. Entende-se que vida se refaz no chão, com as mãos sujas e que é necessário recomeçar não como quem foge do que foi, mas como quem aceita que viver é um trabalho contínuo de se reinventar com o pouco que se tem ou com o que sobrou do muito que não deu tempo de ser.
Feliz ano novo! Não entendo de sonhos. Mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta ano novo. E é tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue.
−Clarice Lispector
Eu diria que nesse momento Clarice desmonta a expectativa mais cruel de janeiro: a obrigação da felicidade. Aqui, a resolução é existencial, não motivacional. Mudar dói, às vezes sangra, e ela não suaviza isso porque compreende que a principal promessa de ano novo não é a alegria, mas a passagem.
Que este ano me seja dado viver em mim e não fantasiar e ser outras, que me seja dado sarar e não buscar o impossível, mas sim a magia e a estranheza desse mundo que habito. Que me sejam dados desejos de viver e conhecer o mundo.
−Alejandra Pizarnik
Essa é uma resolução de recolhimento, quase um pedido. Alejandra deseja habitar a própria identidade, sem fuga, sem máscaras, pois há um cansaço em se projetar em versões inalcançáveis de si mesma… Essa resolução é um susurro de quem sabe que viver em si é um gesto de coragem, sobretudo para quem sempre se sentiu como um quebra cabeça cuja as peças foram perdidas.
Aqui estão minhas resoluções para os próximos três meses: Não ter nenhuma. Para não ser amarrada por elas.
Ser livre e gentil comigo mesma.
(...) Às vezes ler, às vezes não ler.
Parar de me irritar pela garantia de que nada vale a irritação.
−Virginia Woolf
Virginia escreve contra a tirania das listas. Sua resolução é a liberdade: não se amarrar, não se punir, não transformar a vida em projeto de eficiência. Ser gentil consigo mesma é revolucionário num mundo que exige produtividade constante. Até a leitura entra nesse pacto: às vezes ler, às vezes não. Woolf entende que viver também é saber parar de exigir sentido o tempo todo.
É preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim sem esperar nada em troca.
−Lygia Fagundes Telles
Lygia propõe uma ética do gesto gratuito ao sugerir fazer coisas sem finalidade, sem retorno e sem plateia. Amar o inútil é resistir à lógica da produtividade, do resultado, do cálculo. Amar o inútil é esquecer dos porquês.
Depois de ler todas as palavras dessas queridas autoras, sinto que não se trata de sobreviver ao ano com força, mas de atravessá-lo com palavras suficientes para nomear o que nos acontece e isso (em cada fim ou recomeço) significa muito.
Mín. 20° Máx. 27°