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“As Crianças Perdidas de Bacabal”, por Rogério Rocha.

Rogério Rocha é Membro-efetivo da Academia Poética Brasileira.

21/01/2026 às 07h50 Atualizada em 21/01/2026 às 07h54
Por: Mhario Lincoln Fonte: Rogério Rocha
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Original do texto
Original do texto

*Mhario Lincoln c/Editoria de Literatura e Arte.

Em “As Crianças Perdidas de Bacabal”, Rogério Rocha arma uma ladainha laica — um poema-invocação, feito de “boa noites” que não acolhem porque acendem! A anáfora funciona como sino em rua vazia, repetindo a benção até ela virar denúncia; cada saudação cria um quadro rápido. Veja como esse cara é sensacional: (matas com “hálito de folha e fumaça”, “poeira acesa sob lâmpadas amarelas”, “mãos sujas, olhos de brasa”). Ao mesmo tempo, um inventário moral de uma cidade que aprendeu a conviver com o abandono. O golpe mais fino está nos versos finais: “preciso me desacordar”, “necessito me desintegrar”. Não é fuga fácil! É o retrato de uma consciência que, ao ver crianças “invisíveis”, sente que o mundo perdeu o pacto mínimo de humanidade. Aqui, a metáfora não enfeita: fere; e justamente por isso o poema cresce, porque transforma a noite em linguagem pública, sem panfleto, com imaginação precisa e um ritmo de transe contido.

E é inevitável não lembrar Guernica, de Picasso. A mesma fauna simbólica (o touro, -neste caso o galo-, o grito, o corpo em fratura), a mesma sensação de clausura sem saída, só que em preto-e-branco convulso, obra pintada como resposta ao bombardeio de 26 de abril de 1937 e ao colapso civil diante da violência. Apesar da distância histórica e social, a ponte é humana. Isto é, quando a dor vira rotina, a mente tenta varrer o intolerável para debaixo do silêncio — “The ordinary response to atrocities is to banish them from consciousness," do livro "Trauma e Recuperação" (Trauma and Recovery) e refere-se à tendência humana de negação diante de eventos traumáticos.

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enfim, o poema de Rocha parece escrever exatamente contra esse apagamento. Inteligentemente ele nomeia, um a um, os fantasmas que a cidade preferiria não ver. Nessa linhagem de grito social, dá para aproximá-lo (em miniatura e intensidade) do gesto de Ferreira Gullar em Poema Sujo. Mutatis Mutandi, ali, também, a palavra vira levantamento de escombros íntimos e coletivos, memória que se recusa a ser calada, com o Brasil real atravessando o verso. (Mhario Lincoln, editor-sêmior da Plataforma Nacional do Facetubes).

 

AS CRIANÇAS PERDIDAS DE BACABAL
por Rogério Rocha

Boa noite, crianças perdidas de Bacabal
boa noite, feiticeiros de boca seca no calor
boa noite aos espíritos das matas, com hálito de folha e fumaça 
boa noite, víboras miméticas da tv
boa noite aos anjos que vagam sem Oriente.
Estou com sono,
preciso me desacordar.

Boa noite, galos dos sonhos silenciosos
boa noite, pimenteiras ressecadas
boa noite, poeira acesa sob lâmpadas amarelas
boa noite aos gestores dos círculos ocultos, mãos sujas, olhos de brasa
boa noite, velhotes que guardam o escuro no bolso
boa noite, crianças invisíveis
Silêncio.
Tenho sono, necessito me desintegrar.

 

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Graça SilvaHá 3 semanas Fortaleza CeRaramente ainda se vê na internet algo feito com tanto coração e alma.
Keila Maria DinoHá 3 semanas Teresina PI "Tenho sono, necessito me desintegrar." Incrível expressão metafórica, poeta. Significa exaustão profunda, quase como se a pessoa estivesse tão cansada física ou emocionalmente que desejasse desaparecer por um instante, dissolver-se do peso das demandas e sensações ao redor.
Maria SattoHá 3 semanas São PauloUm dos versos mais comoventes que li.
Rogerio Rocha Há 4 semanas São Luís do MaranhãoAgradeço ao MHL a publicação do meu poema aqui na plataforma. Um abraço.
Keila MartaHá 4 semanas São LuísInteressante poema, o sumiço dessas crianças revelou muitas facetas desse lugar, a pobreza sem tempo para acabar, as fofocas junto com crendices, preconceitos, e o fantasma do furto de crianças que acontece diariamente. Mais um lado de um Brasil que ninguém tá muito preocupado em oferecer melhores condições, em nome de uma preservação de identidade cultural. Parabéns pelo poema!
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