
Socorro Guterres
Em minha infância cobiçei muito o livro Reinações de Narizinho , de Monteiro Lobato, ambição quase similar à personagem do conto "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector. No livro atrativo e polêmico de Lobato o recurso à imaginação é ressaltado pela inovação da linguagem, expondo pela fantasia uma crítica à realidade (vertente inusitada na literatura infantil), estabelecendo por meio do mundo do faz de conta o trânsito da criança entre o real e o ilusório. Publicado em 1931, Reinações de Narizinho é uma compilação de obras escritas entre 1920 e 1930, sendo assim fruto da década de vinte.
Monteiro Lobato não enxergava a criança como um ser submisso, mas como ser pensante, e dessa forma estimulava a criatividade, bem como um olhar para o mundo, a fim de que o infante reconhecesse a realidade, nas noções de certo e errado, numa linguagem acessível a essa faixa etária. A meu ver, o escritor expressa nas histórias o mundo como ele se apresentava, talvez não refletindo suas exatas convicções.
Atualmente há críticas sobre expressões que identificam em alguns trechos violência verbal no que diz respeito ao racismo, sobretudo em relação à personagem negra tia Nastácia, cozinheira do Sítio do Picapau Amarelo, cenário especial e bem brasileiro das Reinações , onde convivem de igual para igual os netos de Dona Benta: Narizinho (Lúcia, assim denominada pelo nariz arrebitado) e o primo Pedrinho, o que não era comum no começo do século XX, pois os filhos não questionavam os adultos, apenas obedeciam. Para facilitar esse diálogo, Lobato criou a incrível boneca Emília, que protagoniza as obras infantis e é muito faladeira. Voltando às críticas, na verdade Lobato é alvo da tentativa de uma censura revisionista, porém podemos observar que sua escritura é consequência do contexto histórico em que viveu. Ademais, aspectos de obras de grandes autores como Shakespeare, Platão ou Aristóteles (em circunstâncias diversas) também poderiam ser censuradas se fora do contexto nas quais foram criadas. E não esqueçamos: Narizinho é descrita como uma menina de 7 anos com a pele da "cor do jambo", destacando assim a brasilidade e miscigenação da personagem.
Nas aventuras pelo mundo da fantasia seus jovens leitores encontram deuses gregos, Branca de Neve, Cinderela, Peter Pan, Esopo e tantos outros personagens, imaginários e fabulares, mostrando narrativas ligadas à cultura brasileira, recuperando costumes, lendas e folclores, objetivando alcançar o público infantil.
Nas Reinações há uma espécie de mundo paralelo, como o Reino das Águas Claras, no Sitio do Picapau Amarelo, promovendo uma crítica ao real, que então, distanciado pelo devaneio, permite a aproximação entre a infância e a poesia, fundada no ato do brincar que tanto possibilita a criança uma especial sensibilidade para atenuar a dor, como também permite a ela descobrir o mundo e interpretá-lo a sua maneira e assim construir espaços nos quais exerça sua visão particular de mundo, despojado de regras e de leis, como uma porta aberta para mudar uma situação de domínio. Desse modo, os temas existenciais se adaptam ao universo infantil, deixando que a criança, por meio de uma ingênua reflexão moral, mantenha contato com a realidade mesmo estando no terreno fabular, surgindo assim uma nova concepção do infante, com ênfase a sua emancipação.
Emília é uma bonequinha de pano que mede aproximadamente quarenta centímetros de pura teimosia. Fabricada a partir de uma saia velha de tia Nastácia (a bondosa e supersticiosa quituteira do sítio), foi enchida com macela, e desse modo era muito feia, tendo ainda os olhos e as sobrancelhas feitos de retrós pretos, o que lhe conferia um aspecto de bruxa. A boneca criada de forma fragmentada surge como símbolo de sua própria criadora, a negra Nastácia, que fazia parte da classe pobre e discriminada da sociedade na época da escrita das Reinações .
Nas primeiras versões da história a menina Narizinho, proprietária de Emília, vivia a conversar com ela, fato comum nas brincadeiras de todas as demais crianças , mas a trajetória da boneca modifica-se a partir do momento em que ela aprende a falar graças à pílula falante do Dr. Caramujo, médico da corte no Reino das Águas Claras, tornando-se sem "papas na língua". Desse modo, Lobato permite-se passar sua visão de mundo para as crianças, compartilhando-a literariamente e através de Emília ocorre uma transmissão de conteúdos simbólicos expressivos da sociedade. Então, a boneca possibilita construir o cenário lúdico para novas descobertas, levando a um espaço diferenciado da vida comum sujeita a regras, às quais Emília transgride, liberando os limites do real; circunstância proporcionada pelo ato de brincar.
Portanto, a acentuada irreverência de Emília, que fala sem pensar, rompe com os padrões adotados na literatura infantil dos anos 20 e 30. Em "A Formiga Coroca", de Reinações de Narizinho , exemplifica-se a atitude transgressora de Emília que, encontrando-se nas "Terras dos Animais Falantes" dialoga com o sábio La Fontaine, o qual reconhece na boneca uma "estranha e viva personalidade". No episódio, a fábula sobre a cigarra e a formiga é reformulada graças a intervenção da boneca, que ajuda "a preparar uma boa forra contra a formiga".
Convém explicitar que o termo literatura infantil é dirigido a uma minoria, porém os textos de Lobato subvertem a realidade através da fantasia (recurso já utilizado pela tradição literária), representando a infância com ênfase na vivência cotidiana da criança, em oposição ao conceito adultocêntrico que predominou nas produções que antecederam e mesmo persistiram após Lobato. O espaço que remete ao cotidiano infantil em Reinações de Narizinho é o Sítio do Picapau Amarelo, lugar que permite à criança empreender suas "viagens" , possibilitando os mais diversos aprendizados, não no sentido de preceitos ou regras, mas de sabedoria, por meio de uma concepção da criança que ressalta sua emancipação em relação aos valores dos adultos.
Enfim, Monteiro Lobato promove a liberdade de expressão infantil evidenciada em sua mais bela expressão: o faz de conta. A literatura infantil antes da "ousadia" lobatiana não prestigiava o discurso do infante, tudo era transmitido por uma voz adulta com objetivos educacionais. Assim, a atividade fantasiosa nas histórias infantis de Lobato reanima a literatura infantil e faz ressurgir com toda a potencialidade o imaginário pueril.
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