
Departamento de Memória, da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
A gravação que o leitor verá abaixo, reúne as últimas entrevistas de Olinto Simões e Geraldo Magela, dois intelectuais, que, apesar de nascidos em outros estados (Rio e Minas), marcaram presençamuito forte nas artes e na literatura paranaense. Geraldo Magelo, inclusive, dirigiu, por alguns anos, a Feira do Poeta e promoveu grandes saraus no TUC (Teatro Universitário de Curitiba). Por isso, o vídeo, produzido pela TVFacetubes e dirigido por Mhario Lincoln, registra não apenas depoimentos, mas a presença humana de dois grandes pensadores brasileiros, que falavam com a serenidade de quem conhece o peso do tempo e a responsabilidade da palavra. E falavam abertamente sobre "poesia no Modess", no "Caixão", ou na "Marmita". E isso impressiona muito a quem assiste.
Geraldo Magela era mais que poeta. Era uma usina de poesia em constante ebulição, um “DVD de duas pernas”, como foi dito com carinho. Funcionário público de profissão, mas artista por vocação, era o que ele mesmo definia como “proseador da dor”. Na entrevista, revelou como transformava a vida — e até a morte — em matéria-prima poética.
Magela escreveu mais de 28 livros, organizou antologias, fundou uma editora para publicar poetas excluídos e ressuscitou vocações adormecidas, como a do próprio entrevistador, Olinto Simões, que voltou a escrever por sua influência. Headhunter de poetas, assim era chamado, pois sempre foi aos bares, escolas e periferias cutucar almas adormecidas e fazer emergir novos escritores.
Seu olhar poético transformava até um guardanapo em altar literário. Criava “poesias culinárias em marmitas”, versava sobre absorventes femininos com ironia e profundidade e fazia da palavra uma arma de beleza e combate. Sua mãe, Lisbela, musa eterna, era retratada como borboleta em flor, sua memória costurada em metáforas pungentes e sensíveis. Geraldo era o poeta que espreitava a poesia no cotidiano, na dor, no riso e no absurdo. Para ele, “a psicose era parte do fazer poético”, e sua lucidez delirante não era loucura, era método e fala como propriedade de Paulo Leminsk, esse poeta extraordinário, com quem teve uma convivência amiga por muitos anos.
Olinto Simões, igualmente marcante, carregava a elegância da linguagem e a paixão pela literatura. Embora a entrevista tenha se centrado mais em Magela, é impossível não destacar a importância de Olinto como mediador, provocador e testemunha viva do poder transformador da poesia.
Foi ele quem, com humildade e sensibilidade, reconheceu em Magela o seu ressurgimento como poeta. Um reencontro casual numa noite poética em Curitiba reativou sua verve, e dele brotou novamente o verso. "Veja o que você fez, Magela: mais um poeta apareceu", confessou, emocionado. A história que havia sido pausada desde os anos 1980 renasceu na mesa de um bar, com caneta em punho e papel improvisado.
Olinto representava o leitor apaixonado, o poeta que renasce, o cronista atento da alma humana. Sua presença na entrevista foi como a da própria poesia: discreta, mas essencial.
A entrevista, agora póstuma, transcende o formato audiovisual. É documento histórico, manifesto poético e ato de resistência artística. Mais do que conversar, Magela e Simões nos ensinaram a escutar — a palavra, o outro, e o silêncio entre as frases.
Em tempos de ruído e pressa, ambos nos lembram que a verdadeira grandeza está na humildade, na escuta e na palavra bem dita. A cidade de Curitiba, que os acolheu e inspirou, agora os guarda na memória das calçadas, nos bares poéticos e na arquitetura de versos que deixaram. Se a poesia é uma ciência, como dizia Magela, então ambos foram seus mais apaixonados pesquisadores.
Hoje, ao rever essa entrevista, não lemos apenas uma conversa. Lemos um testamento da poesia brasileira viva, feito por dois homens que escolheram a palavra como morada e resistência. Sua partida é física, mas o verbo permanece.
Geraldo Magela e Olinto Simões: que suas palavras continuem nos tirando do chão e nos lançando às estrelas. Obrigado por tanto. Assim, a força do material desta entrevista está justamente na sua simplicidade. Ele não tenta interpretar, dramatizar ou transformar os entrevistados em personagens. Apenas registra. E, ao registrar, cumpre uma função essencial: lembrar que cada vida pública é também uma vida comum, e que a história da comunicação brasileira não se escreve apenas nos grandes veículos, mas também nas pequenas produções que mantêm viva a relação entre voz, território e memória.
Vídeo-Bônus.
A última entrevista de dois ícones da poesia e da arte, que viveram em Curitiba-PR
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