
SEGUNDA POÉTICA
Em um cenário literário frequentemente marcado pela disputa entre tradição e experimentação, o projeto atua como ponte, revelando vozes integradas aos grandes circuitos editoriais. Por isso, a Editoria de Literatura e Arte, escolhe à dedo os nomes que aqui são publicados, escolhidos que são pelas múltiplas linguagens e ritmos que atravessam o país, oferece ao leitor um panorama vivo da produção contemporânea, ora urbana e urgente, ora intimista e meditativa. O resultado é uma apresentação visual e gloriosa, que reafirma a vitalidade da poesia nacional e sua capacidade de se reinventar sem perder o vínculo com a sensibilidade coletiva.
Mais do que um espaço de divulgação, SEGUNDA POÉTICA tornou-se um termômetro cultural. Ao destacar autores inclusive, emergentes. Assim, o projeto não apenas amplia o repertório do público, mas também tensiona o próprio mercado literário, que passa a reconhecer a força criativa de poetas independentes. Em tempos de consumo acelerado e disperso, a iniciativa devolve à poesia um lugar de encontro — entre gerações, estilos e geografias — e reafirma que a literatura brasileira continua a produzir, com vigor, obras capazes de dialogar com o presente e projetar o futuro.
O VENTO
Carmem Regina Dias
E aí, me vi,
vento,
agora, quase brisa.
Fui fundo no movimento,
temporal, ventania, tornado,
ar agitado, a fúria dos elementos,
relâmpagos riscando o breu,
paisagem dos sonhos no chão,
flores despetaladas,
açoites do vendaval,
fios de ternura cortados,
mil desejos destelhados,
nada parado em pé,
além deste ser
que caminha a meu lado,
a quem, eu, poeta desacorçoado,
confiante, sigo.
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Daniel Mauricio
Meus pés
Entre os teus.
Viciado em ti,
O resto do corpo
Já sabe o caminho.
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Angel Popovitz
Um louco num manicômio
é, ao menos, alguém.
Eu sou internada
num manicômio, sem manicômio.
Estou
doida a frio,
lúcida e louca,
alheia a tudo
e igual a todos,
desperta,
com sonhos que são loucuras porque não são sonhos.
Estou assim:
encarando uma realidade
pior que a ficção,
e tudo que busco
é entender o mundo em que vivo.
Não quero que a realidade
se encaixe na minha fantasia,
não busco utopias
e nem ver o mundo
com otimismo, nem pessimismo,
quero ver o mundo real.
Paixões, torcidas e opiniões midiáticas
e de outros meios
não me interessam,
não há um lado único nessa
aparente disputa
que está ocorrendo no mundo inteiro.
Sim, existe o lado de pessoas que buscam fazer o que é certo
e daquelas que através
de artifícios, artimanhas, mentiras, manipulação...,
buscam enganar uma massa
de inocentes.
Pessoas deveriam
ter amor pela verdade,
mas infelizmente
a grande maioria não tem,
amam a mentira,
porque é mais fácil de abraçar;
ela conta uma fantasia,
uma utopia para o futuro,
e aquele que ama mentiras
é facilmente entregue
ao engano.
O que vejo é uma tese 𝘷𝘦𝘳𝘴𝘶𝘴 antítese
em busca de uma síntese,
na qual todas as classes dominantes
do mundo inteiro estão de acordo.
Tristes tempos.
Fujo do lixo,
recolho-me
ao reservado de
minha companhia,
-que luxo-
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AMOR É BÊNÇÃO
Alcina Maria Silva Azevedo
O amor é bêncão que só de Deus provém.
E nem todos podem ter nas mãos,
algo que não vêem.
Somente o que transforma
aquela imensa dor.
É que pode conviver
com esse imenso amor!
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FLORESCER
Joizacawpy Muniz Costa
Parece ter sido de repente
Mas aquela pequena flor
Teve que vencer batalhas.
Ela surgiu frágil
E paradoxalmente imponente,
Era pouco provável sua sobrevivência.
Solo endurecido,
Escassez de água,
Muitas pedras,
E uma força natural tamanha.
Sim ela brotou entre as rochas,
Rasgou o solo endurecido
Sem medo nem ruídos.
Depois de todo esforço
Mostrou-se imensamente bela
Não pediu olhares de admiração
Mas todos percebem que é bela.
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A MATERIALIZAÇÃO DA POESIA
Jussara Deva Kirtan
Poesias são pensamentos
Materializados que,
Pretende o poeta
Sejam lidos por mais
Um outro,
Além do si mesmo que as
Traduziu em letras
Das nuvens em
Movimento.
As nuvens pensamentos,
Como se sabe,
Vem das águas emocionais
Do poeta e do mundo, como é
Natural a evaporação neste
Planeta Terra-Água e Fogo.
Podemos definir assim o
Poeta como creatura tanto
Aérea como completamente
Aquática…
Viajante de teco-teco,
De asa delta,
Pescador das letras em
Suas próprias águas
Claras, turvas,
Azuis celestes e azuis escuras.
Que se apaguem
Todas as poesias escritas
Pelo poeta,
Após lidas por pelo
Menos mais um outro,
Além de si,
Sílfide incansável.
Pois dos rios onde
Pesca as letras de suas
Palavras,
Os peixes são abundantes.
Das nuvens,
Caravanas Mutantes,
Pensamentos errantes,
Sempre presentes.
Inesgotável é assim a
Fonte das Poesias,
Alma do Mudo expressa
Pelo poeta em
Letras, reflexões e sentimentos.
E versos.
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