
Editoria de Literatura e arte da Plataforma Nacional do Facetues c/Mhario Lincoln*
Diário de bordo 27
Salgado Maranhão
Por vezes me extremunho
à dinastia da espada,
Essa que nos estorna
e nos restinga à solidão da placenta
Ó Deus dos venenos e das valias,
Ó gratidão de navalhas com ternura,
Onde amarrar meus cavalos?
Em que pedra serei musgo
Se tenho só essa lua ferida
pelo sangue e este sal de atinias rasuradas?
Face aos afluentes da prole
que vendeu suas unhas,
Deixem-me cantar aos logos peregrinos
Que nem sabem que são santos
A poesia de Salgado Maranhão: uma leitura crítica
A poesia de Salgado Maranhão sempre parece escrita a partir de uma fratura primordial — uma ferida que não cicatriza, mas que, paradoxalmente, ilumina. Em “Diário de bordo 27”, essa tensão entre dor e lucidez se condensa numa linguagem que é ao mesmo tempo telúrica e metafísica, como se o poeta estivesse sempre com um pé no barro e outro no abismo.
1. A espada e a placenta: há aqui, de forma explícita, um sujeito entre violência e origem. Logo nos primeiros versos, o eu lírico se declara “extremunhado / à dinastia da espada”. A imagem é poderosa: não se trata apenas de violência histórica, mas de uma linhagem de brutalidade que molda corpos e destinos. A espada aqui não é só arma; é herança, é estrutura social. E, no entanto, essa violência, “restinga à solidão da placenta”. O poeta opera um movimento filosófico raro: ele associa a agressão ao retorno e ao início, fato cíclico, como se cada golpe da história o empurrasse de volta a uma origem não escolhida. A placenta, símbolo de proteção, aparece aqui como isolamento — uma espécie de exílio uterino.
2. O Deus ambíguo: venenos, valias e a ternura das navalhas. Aqui, Salgado Maranhão invoca um “Deus dos venenos e das valias”, figura que sintetiza a ambiguidade do mundo contemporâneo. Vivemos num tempo em que tudo cura e envenena ao mesmo tempo: tecnologia, política, afeto, memória. A “gratidão de navalhas com ternura” é uma das imagens mais fortes do poema, porque captura essa contradição essencial: o gesto que acolhe também fere.
Essa ambivalência é profundamente social. Poeta maranhense e vindo de uma experiência de vida marcada pela desigualdade e pela luta, sabe que o Brasil é um país onde a ternura frequentemente convive com a violência estrutural. E o poema traduz isso sem panfleto, apenas com a precisão da metáfora.
3. A busca por um lugar: cavalos, pedras e musgos. “Onde amarrar meus cavalos?” é uma pergunta que ecoa como um grito existencial. O cavalo, símbolo de força e movimento, precisa de um ponto de ancoragem. O poeta, porém, não encontra esse lugar. A pergunta é social e filosófica: onde se fixa a identidade num país em constante deslocamento? Onde se ancora a subjetividade num mundo que dissolve referências? Se dilui e se caminha para a solidão de ideias? Como diz : "Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo".
4 - “Em que pedra serei musgo”, chega-se à conclusão que o musgo é o que cresce silencioso, aderido ao tempo. O poeta quer ser musgo, mas não sabe em qual pedra. É a metáfora perfeita da precariedade contemporânea: queremos raízes, mas o solo é instável. Em outro verso, Salgado punja: a “lua ferida / pelo sangue” é uma imagem de mundo em hemorragia. O sal das “etinias rasuradas” (palavra rara, que remete a apagamentos, riscos...) sugere que a história é escrita sobre cicatrizes. e brilhantemente, o poeta Maranhão transforma o corpo em arquivo; e esse arquivo está sempre sendo reescrito à força. Há aqui uma crítica social implícita: a violência que marca o corpo é a mesma que marca a coletividade. O poema fala do indivíduo, mas ecoa a experiência de povos inteiros.
5. A prole que vendeu as unhas: o trabalho como mutilação: “Face aos afluentes da prole / que vendeu suas unhas” É um dos versos mais politicamente incisivos do poema. Vender as unhas é vender a própria capacidade de agarrar, de lutar, de se defender. É a imagem da exploração levada ao limite. Desta forma, Salgado não denuncia; ele revela! E essa revelação tem mais força do que qualquer discurso explícito.
6. O canto aos logos peregrinos: santidade sem saber: o final do poema é uma espécie de epifania laica. O poeta quer cantar “aos logos peregrinos / que nem sabem que são santos”. Aqui, Maranhão toca num ponto filosófico profundo: a santidade do comum, a sacralidade do anônimo. Os “logos peregrinos” são as pessoas que caminham, que sobrevivem, que resistem — e que, sem perceber, carregam uma forma de transcendência. Vale, enfim, afirmar com grande harmonia, a visão ética e estética de Salgado Maranhão, nestes versos. O sagrado não está no templo, mas no movimento humano.
*Mhario Lincoln é jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes e presidente da Academia Pética Brasileira. Embaixador Universal da Paz (Círculo Universal dos Embaixadores da Paz, entidade ligada à Organização das Nações Unidas/ONU).
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