
A SEGUNDA POÉTICA chega novamente reunindo nomes essenciais da poesia brasileira e internacional, levando ao público um encontro de vozes, estilos e sensibilidades. Nesta edição, participam Clevane Pessoa, Maura Luza Frazão, Anna Liz, Elisa Lago, Cecy Bastos, Pedro Sampaio, Salgado Maranhão, além do poeta espanhol e correspondente do Facetubes/Madri-Espanha, Juan Bote Valero, e o escritor José Sarney — todos compondo um painel vivo da poesia contemporânea.
A iniciativa, ratificada pela Plataforma Nacional do Facetubes, reafirma um princípio fundamental: quanto mais se divulga poesia, mais se aumenta o alcance e a educação literária. A poesia, afinal, não é mero ornamento — é ferramenta de consciência, memória e transformação.
Como disse o poeta Mhario Lincoln, "(...) pensar poesia é preencher vazios com o plasma do espírito, até torná‑los corpo.” (Segredos Poéticos). Essa afirmação, sem dúvida, sintetiza o papel da poesia no mundo contemporâneo: condensar experiências humanas, revelar nuances invisíveis e devolver ao leitor uma percepção mais profunda da realidade.
A poesia moderna, segundo estudos críticos, caracteriza-se por esse forte imagética, intensidade emocional e menor dependência da rima, privilegiando a liberdade expressiva e a subjetividade. Assim, esses elementos fazem da poesia um campo fértil para a reflexão sobre o mundo atual — um mundo acelerado, hiperconectado e, muitas vezes, fragmentado.
Mesmo diante do avanço das grandes tecnologias artificiais, a poesia permanece como um dos pilares da beleza da vida, porque oferece aquilo que nenhuma máquina pode sintetizar, ou seja, a experiência humana em sua forma mais pura, sensível e indomável.
A SEGUNDA POÉTICA, ao ser lida no Brasil e no Exterior, através de seus poetas-ícones, reafirma que a literatura continua sendo um dos mais potentes instrumentos de formação estética, ética e emocional.
E, enquanto houver poesia, haverá sempre espaço para o humano, para o sentir, o pensar e o transformar.
ENTÃO, leiam e comenbtem sobre os poetas de hoje:
Diário de bordo 27
SALGADO MARANHÃO
Por vezes me extremunho
à dinastia da espada,
Essa que nos estorna
e nos restinga à solidão da placenta
Ó Deus dos venenos e das valias,
Ó gratidão de navalhas com ternura,
Onde amarrar meus cavalos?
Em que pedra serei musgo
Se tenho só essa lua ferida
pelo sangue e este sal de atinias rasuradas?
Face aos afluentes da prole
que vendeu suas unhas,
Deixem-me cantar aos logos peregrinos
Que nem sabem que são santos.
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Mhario Lincoln fez uma resenha sobre essa poesia de Salgado Maranhão. A íntegra pode ser lida em:
(https://www.facetubes.com.br/noticia/7478/qa-espada-e-a-placentaq-como-a-poetica-de-salgado-maranhao-revira-memorias-doloridas)
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Palavra / Mapa
ANNA LIZ
uma palavra
vale mais que um mapa
se é longa a estrada
a mesma mão que traça, risca e desenha,
captura os desatentos
liberta os cansados
mesmo que o verso sangre
os pés na caminhada
a noite nos abraça e revela
uma única palavra ilumina
a palidez dos astros
enquanto um deus nos esquece
no escuro
a mesma palavra que corta, fere e fura a carne
domestica os incautos
e levanta os exaustos.
uma palavra vale mais que um mapa
se se conhece ou não a estrada.
"Nobre Coração"
PEDRO SAMPAIO
Uma luz, brilha nas trevas para o justo
Permanece, para sempre o bem que fez
Toda bondade, torna o coração robusto
E toda sua gratidão, simboliza a altivez
Aquele que, deixa tudo nas mãos de Deus
Em breve verá, a mão de Deus em tudo
Nenhum mal atravessará os caminhos seus
E o seu grito por justiça, jamais ficará mudo
Não temais, fortaleça sua fé, firme a cada segundo
É bom que sejas Sal da Terra e Luz do Mundo
Para promover, no mundo a sua transformação
Sendo Sal você tempera e em tudo põe sabor
Sendo Luz você clareia e ilumina com esplendor
Sendo assim se fará, um Ser de nobre coração.
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Das entregas
CLEVANE PESSOA
Toco-te os pelos, a pele, as partes,
tenho-te nas palmas das mãos,
na ponta dos dedos...
Qual cega, leio-te em Braille de buscas,
cheiro-te, narinas frementes
qual animalzinho em pleno cio.
Tua umidade e teu suor,
são iguais ao rocio
que leva a pétala até a flor...
Mais deliciosos que o mel
da capelinha de melão...
Toca-me: sou fruto sumarento
e me desmancharei em ti
e saberás todos os meus segredos...
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Escrevo a Vida
CECY BASTOS
Desejo apenas expressar que vivo uma vida...
Sorrindo, mesmo nos dias árduos do meu viver
Solta, em um instante de luz,
Brilhando, como o sol que resplandece em meu ser.
Choro e prefiro que seja de emoção,
Lágrimas quentes, reverberando no chão,
E que seja de dor, um aprendizado sutil,
Um poema melancólico, gravado em meu perfil.
Caio, mesmo com a sabedoria da maturidade
Levantando-me firme, buscando a cura na alma,
Do chão, ergo-me com fervor
Transformando o tropeço em um canto de amor.
Vida efêmera, mesmo que só um momento alegria,
um sorriso, um abraço, um verso, uma melodia,
Capturando a essência que traz felicidade,
Nos pequenos detalhes, a vida se revela de verdade!
Vida faminta, ainda que para saciar,
Um desejo profundo, um sonho a alcançar,
Alimentando a alma com verdade,
Saciar a sede da pura liberdade.
Vida embriagada, mesmo que de paixão,
Num amor tempestuoso ou numa suave canção,
Deixando-me levar pelo calor do instante,
Na dança do amor, tudo se torna vibrante.
Vida sedenta, ainda que de compreender,
O mistério profundo que nos faz viver,
Cada experiência, um verso a tecer,
Desejo apenas reescrever cada detalhe bom e, assim, com minha pena...
Renascer para viver!
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Sentidos Aguçados
MAURA LUZA FRAZÃO
Com o tempo entendi
Que todo desejo
Tem um propósito ou intenção
E que cada sentido
Parte de uma realidade
Alcançar prazer
Realização de um sonho
Ou simplesmente satisfação
De uma vaidade.
Conquistar para o deleite pessoal
Subjugar ao bel prazer
Ambicionar
Vencer, lutar
Xeque-mate
Assim o tempo me ensinou
Que todo e qualquer desejo
Vem de uma necessidade.
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Incerteza
ELISA LAGO
Entre o sim e o não
Melhor se encaixa o talvez
Tamanha insensatez
Nas linhas que se entrelaçam
Na trilha da incerteza
Afeto está em falta
No tum tum tum ligeiro
Coração se estraçalha
Trincado dentro do peito
Tristeza dói de montão
Disfarça no riso largo
O medo da solidão...
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CARTA DO ANTI-SANTO JOSÉ
JOSÉ SARNEY
Eu, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
Bendito sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos...
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Convidado especial
Poeta espanhol e correspondente do Facetubes na Espanha, Juan Bote Valero (almendralejo/Badajooz). Mora em Madrid.
Pauvre Lelian/Juan Bote Valero
Todo lo que aqui se cuenta
está bien sabido y demostrado.
Todo cuanto yo pueda sentir ahora
ya ha sido sentido con anterioridad
por un sinfin de poetas anónimos.
Cuántos poemas estarían perdidos en Java o en Sumatra,
cuántas flores exóticas no habrían pasado
por el prisma que descompone el arte en siete colores,
cuánto amor derrochado no sería ni siquiera
lágrimas inútiles de un adolescente inquieto...
Cuánto semen corrupto de la infanteria francesa
ha engendrado la poesía que ahora engrandece a ese país,
cuántos países se habrían perdido para siempre
los poemas de Rimbaud si tú y sólo tú,
amador de amados, comunero parisino,
no hubieras atado a tu cintura un barco ebrio,'
que constantemente naufragaba en los mares de la sodomía.
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Anagrama bajo el que aparece Verlaine en su propio libro Los poetas maldi-
tos, 1884.
Poema que Rimbaud envía a Verlaine, el cual queda locamente enamorado de
sus palabras joviales.
Tradução livre: Mhario Lincoln
Original: Pauvre Lelian/Juan Bote Valero (Madri-Espanha).
Pobre Lelian*
Tudo aqui relatado
É bem conhecido e comprovado.
Por mais que eu sinta agora,
uma multidão de poetas anônimos já sentiu isso antes.
Quantos poemas se perderiam em Java ou Sumatra,
quantas flores exóticas no passado
através do prisma que decompõe a arte em sete cores,
quanto amor despedaçado não existiria,
lágrimas inúteis de um adolescente inquieto...
Quanto sêmen corrupto da infantaria francesa
gerou a poesia que agora glorifica este país,
quantos países se perderam para sempre,
os poemas de Rimbaud, se você e somente você,
amante dos entes queridos, comunardo parisiense,
não amarre um navio bêbado à sua cintura,
que naufraga constantemente nos mares da sodomia.
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Anagrama do poema que aparece no próprio livro de Verlaine, Les Poets Maldts, 1884.
Poema que Rimbaud envia a Verlaine, que se apaixona perdidamente por suas palavras joviais.
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