
Entrevista integrada
A poesia concreta de João Batista do Lago
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Esta entrevista reúne dois tempos de conversa e um mesmo eixo. Um momento único onde o poeta João Batista do Lago fala sobre formação, leitura, solidão criativa e o lugar da poesia quando ela se aproxima do social sem perder o rigor da linguagem. O momento a seguir integra as perguntas de outros dois poetas: Raimundo Fontenele e Mhario Lincoln com blocos essenciais, em que o próprio João Batista aprofunda episódios, influências e princípios. de escrita.
No painel da poesia maranhense contemporânea, Raimundo Fontenele, Mhario Lincoln e João Batista do Lago representam formas de fidelidade ao ofício. Fontenele, nascido em Pedreiras, com trajetória marcada por múltiplas publicações e circulação por diferentes ambientes culturais, aparece como poeta pesquisador, de fôlego longo, atento à memória e aos deslocamentos do país, com obra ampla em poesia e prosa. Mhario Lincoln com tendência primordial de divulgar a essência da oratória lírica, enquanto João Batista do Lago, nascido em Itapecuru-Mirim, consegue unir jornalismo, reflexão e construção verbal racional, assumindo uma poesia que não depende de lampejos, mas de leitura, método e maturação, com livros publicados e presença constante na cena literária.
A ENTREVISTA
Pergunta 1 Raimundo Fontenele:
Conhecedor e admirador do seu genuíno talento poético, gostaria de conhecer também o homem. Onde nasceu e quando. Quem foram seus pais.
João Batista do Lago: Nasci no interior do Maranhão, em Itapecuru-Mirim, em 24 de junho de 1950. Meu pai foi Pedro Uchôa do Lago, servidor público federal e auditor fiscal da Receita Federal. Minha mãe foi Júlia Martins Gomes do Lago. Na juventude, ela ajudou meu avô José Firmino Gomes no comércio e, depois do casamento, dedicou-se à casa e à família, como era comum naquele tempo.
Pergunta 2 RF:
Você guarda uma lembrança decisiva ligada ao seu pai e a um livro. O que aconteceu naquele Natal e por que isso foi importante?
João Batista do Lago: Apesar de não ter nenhuma circunstância direta, ou eu não me lembrar de tê-las, apenas um espisódio deve, à princípio, me ter levado à ler poesia, pelo menos. Meu pai veio à capital numa época de Natal e comprou presentes para todo mundo. Para meus irmãos, coisas mais vistosas. Para mim, ele trouxe um livro. Eu fiquei indignado e não li naquele momento. O livro ficou guardado. Anos depois, por volta dos 14, eu o reencontrei. Era "Broquéis", obra de estreia de João da Cruz e Sousa e o marco inaugural do Simbolismo no Brasil. Eu li e, a partir dali, comecei a ler cada vez mais. Pode ter tido alguma relação com o início de minha caminhada poética.
Pergunta 3 RF:
Então esse pode ter sido o momento do insigth poético?
João Batista do Lago: À princípio, não houve um momento definitivo. O que houve, de fato, foi muita leitura. Li poetas maranhenses, brasileiros e estrangeiros, li bastante os gregos e, depois, caminhei pela filosofia, com incursões em sociologia e psicologia. Foi uma construção gradual, mais racional do que movida por um chamado repentino.
Pergunta 4 Mhario Lincoln:
Você afirma que não faz poesia porque a poesia já está aí. O que é a poesia, então?
João Batista do Lago: A poesia já existe em si. Ela é! O que resta a nós é uma capacidade mais afinada de abstrair do centro da sociedade, do centro da família, do centro da igreja, do futebol, da política, da economia, da história, tudo aquilo que está escrito, mas não revelado. O poeta, no fundo, também é um revelador.
Pergunta 5 Raimundo Fontenele:
Quando a leitura virou método, para onde ela te levou.
João Batista do Lago: A leitura me remeteu ao mundo antigo, ao mundo grego, ao mundo helênico. À medida que eu ia lendo Platão, Heródoto e outras obras, eu ia me conscientizando das coisas e do Mundo. A partir daí, comecei a escrever algumas coisas; e alguns escritos resultaram em poemas.
Pergunta 6 Raimundo Fontenele:
Quando você decidiu tornar público seus primeiros poemas. Foi em livro ou em jornais, como a maioria faz?
João Batista do Lago: A publicação veio depois de um longo tempo de leitura e amadurecimento. Mesmo trabalhando em jornal, eu escrevia muito e guardava muita coisa sem publicar. A internet acabou sendo a grande impulsionadora, o meio que facilitou tornar meus poemas e textos mais públicos e constantes.
Pergunta 7 RF:
Conte-nos um pouco sobre a evolução da sua arte.
João Batista do Lago: Minha evolução tem relação direta com leitura, conhecimento e acúmulo intelectual. O texto foi ganhando forma com o tempo, mais por construção do que por impulso. A internet acelerou a circulação, mas a base sempre foi o estudo, o hábito de ler e a disciplina de organizar a linguagem.
Pergunta 8 Mhario Lincoln:
Você se define, ao mesmo tempo, como alguém de poesia irracional e alguém de poesia racional. Como essas duas afirmações convivem?
João Batista do Lago: Eu chamo o poeta de louco solitário, mas não no sentido de sair por aí fazendo besteira. O poeta é louco na medida em que traduz e retraduz imagens, gritos, dores, amores, sofrências, tudo aquilo que consegue absorver e abstrair da natureza do humano. Ao mesmo tempo, eu faço uma poesia muito bem pensada, muito bem calcada. A loucura é da realidade e a construção do poema é trabalho.
Pergunta 9 Raimundo Fontenele:
Participou de algum grupo ou movimento literário ou foi mais um lobo solitário procurando sua presa, no caso a busca individual da sua poesia?
João Batista do Lago: Sempre fui mais solitário. Não tenho muito gosto por vida de grupo. Para não dizer que nunca participei, Rai Santos (poeta e louco pelas coisas extraordinárias) me convidou para o "Poetas da Ponte" e eu cheguei a integrar por pouco tempo, sem levar adiante. Em geral, prefero caminhar sozinho.
Pergunta 10 RF:
Qual a diferença você percebe entre o mundo cultural maranhense dos anos em que você começou a fazer parte dele e a cultura maranhense dos tempos atuais?
João Batista do Lago: Cada época tem seus próprios ritmos. Eu não acredito nessa ideia de que um tempo foi melhor do que o outro. A cultura muda, se reorganiza, amadurece, às vezes erra e acerta.
Pergunta 11 RF:
Qual deve ser o papel do Estado frente ao problema cultural de um modo geral?
João Batista do Lago: O ideal é que o Estado fomente, estimule, crie condições e ajude a cultura a existir com mais força. E, num plano mínimo, se o Estado não atrapalhar, já ajuda muito. O melhor caminho é apoiar de modo concreto e respeitoso, sem sufocar a criação.
Pergunta 13 Mhario Lincoln:
Quais são, na prática, os ingredientes que atravessam sua poesia.
João Batista do Lago: Angústia, saudade, ódio e o que alguns chamam de inferno astral aparecem, sim. Eu faço um poema do dia a dia, visceral. Um poema calcado na dor, na fome, na guerra, na agonia, no amor, na alegria, na esperança, na política, no social, no econômico. Minha poesia caminha por aí.
Pergunta 14 Mhario Lincoln:
Então, você tocou na poesia social ao falar de Ruanda. O que te levou a esse tema?
João Batista do Lago: Eu fiz uma homenagem a Ruanda e isso entra no que chamo de poesia social, sociopolítica. Ruanda sofreu um verdadeiro holocausto, e eu quis registrar essa ferida humana com linguagem poética.
Pergunta 15 Raimundo Fontenele:
A mitologia também aparece quando você fala de Hécate. O que te atrai nessa figura.
João Batista do Lago: Hécate é uma figura que atravessa o mundo grego, o helênico, o romano, o egípcio, e chega até hoje. É uma divindade cultuada até hoje. Esse atravessamento histórico e simbólico me interessa e dialoga com a minha leitura do mundo antigo.
Pergunta 16 Mhario Lincoln:
Você faz uma observação crítica sobre haicai no Brasil. Qual é a distinção que você defende.
João Batista do Lago: O que se chama de haicai no Brasil muitas vezes são tercetos na métrica 5 7 5, e ainda colocam rimas. O haicai é muito focado na natureza e se restringe às quatro estações do ano. A forma original importa e não é detalhe.
Pergunta 17 Raimundo Fontenele:
Fale um pouco da sua trajetória poética. Valeu a pena? Sente-se feliz e realizado com o que lhe reservou o destino.
João Batista do Lago: Minha trajetória é fruto de leitura e construção paciente. Se valeu a pena, valeu pelo caminho em si, pela formação que a literatura me deu e pelo modo como a escrita se tornou uma forma de ordenar pensamento e experiência. Sigo escrevendo com a mesma desconfiança de rótulos e a mesma disciplina de sempre.
Pergunta 18 Mhario Lincoln:
Você anunciou o desejo de fazer uma antologia pessoal. O que pretende reunir nela.
João Batista do Lago: Quero reunir os poemas que eu mais gosto e que considero que merecem ser reeditados, os que me trouxeram uma nova consciência, os que saltaram do fundo da minha alma, os que nasceram da exégese do social e da loucura do humano.
Pergunta 19 Raimundo Fontenele:
Cite três nomes que você considera decisivos na poesia maranhense de todos os tempos?
João Batista do Lago: Eu não gosto muito da palavra maiores. Prefiro citar autores que, para mim, são decisivos. Lembro o professor José Nascimento de Moraes Filho, que considero pouco reconhecido no Maranhão. Lembro Nauro Machado. E lembro José Chagas, um poeta que admiro muito, ainda que não seja maranhense.
Pergunta 20 Mhario Lincoln: Além desses, que outros nomes te trouxeram para um campo mais atual de leitura e consciência.
João Batista do Lago: Eu posso falar de Carlos Drummond de Andrade, mas gostaria de destacar dois maranhenses que me chamaram muito a atenção. Nauro Machado, para mim, é um ícone. E Ferreira Goulart também me marcou. Na atualidade, um poeta vivo que me chama a atenção é Manuel Serrão da Silveira Lacerda (já falecido). Aos meus olhos, ele estará entre os principais poetas do Maranhão hoje, com uma poesia muito forte e concreta. Eu ouso dizer que pode começar a ser entendido de modo mais amplo daqui a 50 anos.
Pergunta 21 Raimundo Fontenele:
Em alguns de seus poemas, a indignação vira voz pública. Você pode resumir o que essa voz pede.
João Batista do Lago: Sim! Eles denunciam a fome, a deseducação, as filas dos hospitais, o desemprego, a insegurança e a perda de esperança. E convoca o leitor a obedecer à linguagem da consciência, a tomar a mão do irmão e da irmã e a agir, porque, para mim, é chegada a hora da ação.
Pergunta 22 Raimundo Fontenele:
Para encerrar, o que você diria ao jovem que quer ser poeta?
João Batista do Lago: Primeiro, leia bastante. Procure saber quem são os poetas e o que significa ser poeta. Não dá para dizer de alguém que escreve um terceto e sai por aí dizendo que fez um haicai. A poesia exige leitura, forma e tempo. Sem isso, difícil ser um poeta na acepção do âmago.
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