
Editoria de Carnaval da Plataforma Nacional do Facetubes c/ estudantes de Biblioteconomia convidados: Carlos Kaika, Ludmilla Sales Filizola e Leonarda Francisca. Assinatura editorial da Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
Nesta Sexta-Feira Gorda, quando o país inteiro parece respirar em ritmo de bateria, São Luís guarda uma chave antiga para entender por que o Carnaval do Maranhão não é só festa, é memória cantada. Em 1979, a Flor do Samba atravessou a passarela com um samba-enredo que a cidade passou a chamar pelo verso que virou senha de rua, “Haja Deus”. O enredo oficial era “Maranhão, Festas, Lendas e Mistérios”, assinado por Augusto César Maia, o Tampinha, e Chico da Ladeira, poeta dos melhores, e o título daquele ano ficou com a escola do Desterro, num desfile lembrado como um dos marcos da fase de consolidação do Carnaval de passarela em São Luís.
Tanto que os críticos e carnavalescos passaram a desenhar o status carnavalesco ludovicense como “Antes e Depois do - Haja Deus”. Ali, consolidava-se a moderna concepção de sambas-enredos que a partir de então, seria copiada ou estudada como base.
“Eu e Tampinha nos sentamos numa tocada dessas e começamos a solfejar alguma coisa. E logo, parimos ‘Haja Deus’”, disse Chico da Ladeira, em uma entrevista de jornal. Mutatis Mutandi, a verdade é que esse samba mudou a história. Porque, logo na apresentação na avenida, o que se ouvia não era só um convite ao delírio. Era uma vitrine de glórias, costurando festas, lendas e mistérios como quem costura a própria identidade no brilho do pano e no peso do couro. A frase que batizou a música, “Haja Deus, quanta beleza, a Flor do Samba vem mostrar”, realmente ficou imortalizada.
A vitória de 1979 também ajudou a fixar um período em que a cidade experimentou lugares e formatos para o desfile. No ano seguinte, a Flor voltou a vencer com o enredo “De Daomé à Casa das Minas: A Origem de um Povo”, numa sequência que consolidou a agremiação como força histórica e, ao mesmo tempo, colocou o samba-enredo maranhense no centro de uma disputa estética que misturava rua, alegoria e orgulho de bairro.
Chico da Ladeira, que morreu em 2020 e teve despedida na própria quadra da escola, foi lembrado na imprensa maranhense como autor do samba mais difundido do Carnaval local e como presença de velha guarda da Flor, desses artistas que compõem com a cidade inteira, não apenas com a escola. Augusto César Maia, por sua vez, aparece em registros culturais como compositor e cronista, com obras e parcerias fora da avenida, incluindo canções gravadas por intérpretes de alcance nacional, o que ajuda a explicar por que “Haja Deus” tem a engenharia melódica de quem sabia fazer o refrão pegar sem perder o lastro poético.
Para entender a repercussão, vale olhar o efeito que sambas como esse têm no Maranhão. Eles viram arquivo. Viram escola de canto para quem aprende história na rua. Viram cartão de visita para o visitante que chega achando que o Carnaval maranhense cabe apenas no roteiro do Bumba-meu-boi. Não cabe! A cadência das escolas de samba de São Luís tem uma biografia própria, e “Haja Deus” é um capítulo central.
Essa biografia fica ainda mais nítida quando a gente aproxima o hino da Flor de outros sambas-enredo que os veteranos do Carnaval local tratam como “memoriais”. O jornalista Joel Jacintho, que também compôs e acompanhou disputas por dentro, lembra que venceu concurso interno e desfilou com a Favela do Samba em 2003, e cita uma sequência de enredos e parcerias que ajudam a medir a tradição autoral maranhense, de “De Sousândrade” e “O Guesa” em ambiente de concurso, passando por sambas criados para a Escola Pirata do Samba, em São José de Ribamar, até composições para a Turma do Quinto com parceiros como César Teixeira, Godão e Bulcão, além de títulos que marcaram subida de grupo e mudanças de patamar no desfile.
Na mesma linha, aparece um episódio de bastidor que diz muito sobre como o Maranhão escolhe seus hinos. Em 1981, quando o concurso de samba-enredo da Turma do Quinto se abriu para compositores além do bairro, Chico da Ladeira teria ficado em segundo, e a história terminou com uma troca de rota que o povo ainda conta, uma aposta em samba já cantado nas esquinas da Madre Deus, associada a uma decisão de diretoria que tinha um medo bem maranhense, o de virar alvo da gozação vinda do Desterro caso a escolha não tivesse força suficiente para segurar a avenida.
Há também um capítulo de contraste que volta e meia ressurge nas conversas de Carnaval. Em 2012, a Beija-Flor de Nilópolis levou para o Rio o enredo “São Luís – O poema encantado do Maranhão”, registrado no acervo da LIESA. No Maranhão, houve quem celebrasse a homenagem e houve quem achasse que a canção não entregou a grandeza do tema, uma crítica que aparece em depoimentos e memórias de bastidor, como a do próprio Joel Jacintho, que menciona, inclusive, tentativas de emplacar temas maranhenses em agremiações cariocas anos depois, com a participação de nomes locais como o violonista João Pedro Borges, (Sinhô) e César Lima.
Esse conjunto de lembranças aguça a lembrança de “Haja Deus” e explica por que ela se sustenta. Socialmente, a letra opera como uma espécie de pacto de visibilidade. Ela eleva o que muitas vezes é tratado como “folclore” à condição de centro, e faz isso sem pedir desculpas. A cultura popular surge como motivo, não como decoração. Isso é profundamente político no sentido mais simples da palavra, o de organizar a cidade em torno de um nós, com fé, riso, percussão e rua, criando uma cidadania simbólica que dura mais do que um desfile.
“A Flor do Samba, nesse cenário, é mais do que uma escola. É uma instituição de bairro que virou referência da cidade”, confessa Augusto César Maia. Sim: fundada em 1939 na área da Rua da Estrela, perto do Largo do Desterro, ela costuma ser apresentada como uma das mais antigas de São Luís e mantém uma presença contínua nos desfiles, com títulos que atravessam décadas.
Desta forma, a evocação de “Haja Deus…” abre a letra como um chamado litúrgico, mas logo se percebe que o sagrado ali não é dogma, mas sim, vibração popular, é corpo em movimento, é fé que se constrói na rua. Os autores reconhecem, com rara sensibilidade, que o profano não diminui o divino — ao contrário, o engrandece. “No Maranhão, o essa liturgia carnavalesca não disputa espaço com o altar; ele o amplia”, complementa Maia, ao ser questionado (em entrevista ao jornalista Mhario Lincoln, em 1990), sobre o assunto sagrado/profano da letra.
Chiquinho França, músico e produtor durante alguns anos do Festival de Música Carnavalesca da "TVMirante", ouvido pela reportagem disse: "Com a experiência que ganhei nesse período em que fui coordenador/produtor desses concursos, dá pra notar a força desse samba-enredo da Flor do Samba: o foco que os compositores deram para engrandecer as festas e a religiosidade do maranhense. Acho que a partir daí, os sambas-enredos tomaram um novo rumo, valorizando ainda mais a música maranhense".
No fundo, há uma lucidez madura em todo o contexto ao reconhecer que o samba é encontro. Encontro de povos, de ritmos, de histórias. Encontro entre quem cria e quem ouve. Encontro entre passado e futuro. O texto compreende que o Carnaval maranhense não é espetáculo isolado, mas continuidade de uma tradição que atravessa séculos e resiste, teimosa, luminosa.
O resultado disso tudo, enfim, é uma reflexão que honra o samba‑enredo maranhense não apenas como objeto de estudo, mas como força vital. Uma escrita que compreende que, antes de ser tema, o samba é território. E que, ao pisar nesse território, é preciso respeito, escuta e, sobretudo, poesia.
A LETRA
Augusto César Maia/Chico da Ladeira
Haja Deus quanta beleza
A flor do samba vem mostrar
São festejos e motivos
Da cultura popular
Haja Deus...
O amo canta
Uma toada pro Guarnicê
Matraca toca boi dançando até o amanhecer
Salve o divino ô salve o Divino, meu imperador
Ao som das caixas pedindo esmola e amor
Meu boi bumbá
Bumba meu boi
Meu cazumbá onde é que foi
O carnaval é a festa maior
Tem colombina ô tem dominó
No jogo do baralho
Quem se espanta é o fofão ôlálá
Chegou cruz-diabo coma lança na mão
Ô ô ô ô ô ô
O negro canta em dialeto
Lá na casa de nagô
Tambô rufou é mina, o terreiro empoeirou
Tambor de criola
Na avenida a tocar
E a negra velha
Sai dançando o pungá
A rabeca dá cadência ao contrapasso
Na baixada o lamento ecoou
São Gonçalo é festa religiosa
Pela-porco de Rosário
Foi a França que exportou
Cavala-canga
Curupira e Perêrê
É tarde eu já vou indo
Vou dançar o lê lê lê
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