
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista
Se alguém sair pelas ruas das cidades maranhenses com uma lanterna nas mãos, querendo saber qual o grande intérprete da música carnavalesca regional, o nome que vai aparecer com mais força, recorrência e simbolismo na memória da população é o de Gabriel Melônio, voz oficial da Turma do Quinto, por décadas. Isso fica evidente quando a própria escola decide transformar o intérprete em enredo, anunciando “O Anjo Gabriel” como tema para narrar a trajetória artística dele. E, no desfile, a imprensa local reforçou a dimensão do gesto ao dizer que ele é a personalidade que “dá voz” aos sambas da escola.
E isso é fato porque há vozes que não apenas cantam um samba-enredo. Elas organizam a avenida por dentro, costuram o coro da comunidade e, com um tom sóbrio, mas poderoso (esse é o impacto da reversão: tom sóbrio em meios aos gritos de guerra dos cantadores de samba-enredo), Gabriel vai virando mito, enquanto já garante ser uma bússola de um Carnaval inteiro.
É nesse lugar simbólico que Gabriel Melônio se impõe como referência, não pelo excesso, mas pela constância de décadas, pela dicção de quem respeita a palavra e pela coragem de sustentar a emoção no ponto exato em que a bateria pede alma, invés de calma!
As fontes mais consistentes sobre o início dessa travessia apontam 1977 como o ponto de virada, quando ele assumiu o posto de intérprete oficial da Turma do Quinto, escola da Madre Deus que carrega no corpo a tradição do canto comunitário.
Em entrevista recente, houve consenso quando a própria agremiação o trata como símbolo de resistência e identidade cultural, linguagem que não surge por gentileza, mas por evidência, já que o Carnaval cobra prova anual. Antes da passarela, houve o rádio e a vocação. Nascido em Anajatuba, Melônio aparece em registros culturais como alguém que começou cedo, cantando ainda menino na Rádio Ribamar. É a formação clássica de quem aprende a projetar a voz sem perder o sentimento, com o microfone como escola de respiração e o ouvido como juiz.
O reconhecimento musical mais documentado fora da avenida vem de 1985, quando ele venceu o Festival Viva defendendo “Oração Latina”, obra de César Teixeira em duo com Cláudio Pinheiro. O jornalista Zema Ribeiro registra que a canção se tornou um “hino” e continua sendo cantada em atos e mobilizações, sinal de que a interpretação ultrapassou o palco e entrou na vida pública.
No Carnaval, o ápice de consagração veio quando a própria escola transformou o intérprete em enredo. “O Anjo Gabriel” contou sua trajetória e, no desfile de 2016, a Turma do Quinto foi a campeã com o tributo, em uma vitória que carrega um sentido raro, ou seja, a avenida, ali, não homenageou uma abstração. Homenageou uma voz em carne, tempo e serviço prestado, e isso diz muito sobre a força de Melônio como patrimônio vivo.
Quem observa por fora entende o resultado. O Quadrante Brasil o apresenta como puxador oficial há mais de quatro décadas e registra o próprio Melônio falando da relação com a escola com simplicidade e verdade, “pra mim é um prazer, uma alegria enorme cantar no Quinto”. Esse tipo de frase, no Carnaval, vale como certidão. Porque ninguém sustenta décadas na linha de frente apenas com técnica, é preciso amor e nervo. E isso o anjo Gabriel demonstra sucessivamente.
E a presença dele não se limita ao desfile de passarela. O Príncipe de Roma, bloco tradicional de peso no Carnaval ludovicense, deve contar novamente com Melônio como intérprete, ampliando esse alcance para o circuito do povo, onde a rua ensina outra ciência do canto, a de segurar a multidão sem perder o sorriso.
Some-se a isso homenagens e registros de carreira, como a lembrança de que foi celebrado pela Favela do Samba em 2010, além de premiações de interpretação em outros palcos culturais da cidade.
Melônio é ou não é um anjo entre nós?
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