
DIGO SIM
Ferreira Gullar
Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos de meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperança entre pulmões
e nuvens
Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no Carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.
A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Thereza
pelo meu filho perdido
neste vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
– digo sim
Poema de Ferreira Gullar publicado no livro "Na vertigem do dia". Poemas do período do exílio e volta ao Brasil durante a ditadura militar no Brasil e outros países da América do Sul
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Adeus Colombina
Luis Augusto Guterres
O último casarão não desabado, restou embriagado.
Chora o pierrot o vinho derramado, em um carnaval de lágrimas.
Blocos da tradição escorregam nas pedras de cantaria, em ritmos e metais desafinados.
A alegria resiste, teimosa no despertar da serpente, lenda que pulsa sob a ilha submersa.
Vai passar, vai acabar, mas a cidade, em sua eterna liturgia, renascerá das cinzas da folia.
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QUASE CARNAVAL
Rogério Rocha
Eu sei, já é quase carnaval!
As moças com roupas coloridas,
Atravessam sem pressa a avenida
Na expressão da alegria real.
À distância está tudo normal,
Os sorrisos e corpos suados,
Num cortejo assim surreal,
A inventar o que foi o passado.
Nesse samba que trago no peito,
Um barulho que dribla o desgosto,
São as notas de um amor imperfeito
Como o beijo que explode no rosto.
Sei que o samba nos pede alegria,
Mas, desculpe, meu tom de lamento,
É que eu vejo no rosto do dia
A saudade marcada no tempo.
Madrugada, senti teu abraço,
O reflexo de um triste segredo.
Carnaval, como todo cansaço,
Cada vez se despede mais cedo.
Sigo em frente, a viver o agora,
Mesmo quando a saudade aperta,
Pois meu samba é tristeza que mora
Na ilusão de uma rua deserta.
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Fofão solitário
Dilercy Adler
Um Fofão solitário, metáfora viva da solidão, um dos traços mais profundos da condição humana, percorre o espaço com pulos desajeitados, sons entrecortados e gestos largos demais para caber no próprio corpo.
Ele tenta dizer “fica”, “me vê”, “me escuta”, mas não domina a linguagem de quem o observa. Então salta. Então ri alto. Então agita os braços como quem acena para um navio sem saber para onde ele vai.
Alguns verão nisso pura alegria, quase infantil: um ser expansivo celebrando o mundo.
Outros sentirão um arrepio, como se aquele excesso escondesse algo indecifrável.
Mas, no fundo, o que vibra não é euforia nem ameaça:
é o desejo cru de conexão.
E talvez o mais humano nisso tudo seja justamente essa ambiguidade, a dor que se fantasia de festa, o medo que nasce daquilo que ainda não sabemos ler.
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Amor de Carnaval
Regis Furtado
Deixa a chuva cair
Vem pra cá, não esmureça
O meu bloco tá na rua
Se o carnaval começa
Perco logo a cabeça
O meu bloco é da alegria
Não precisa fantasia
Só um samba bem marcado
Vou amar sem compromisso
Pra me envolver no feitiço
Desse teu beijo molhado
Vem pra chuva, vem
vem, vem
Aproveita vem, vem
Que esse amor de Carnaval
Vai só até a quarta-feira, meu bem!
Litorânea ou beira-mar
A folia vai reinar
Subindo e descendo ladeira
Nosso amor casual
Vai dar show no carnaval
Vai ser até a quarta-feira, meu bem
Vem pra chuva, vem
vem, vem
Aproveita vem, vem
Que esse amor de Carnaval
Vai só até a quarta-feira, meu bem!
Que esse amor de Carnaval,
Vai só até a quarta-feira, meu bem.
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BAÚ DE FANTASIAS
Francisco Baia
Abri o baú do passado,
retirei minha fantasia
que outrora me fez
o mais entusiasta
dos foliões das passarelas perdidas de alegria.
Me vesti com cuidado,
pois os detalhes eram fundamentais
para uma apresentação
portentosa e belissima.
Diante de mim pus
um espelho reflexivo,
pois era o momento de
encarar toda uma història vivida
com profunda vontade e veeméncia.
Não me surpreendi com o que vi,
até porque, nada tinha acontecido
de diferente nos meus anseios.
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O CAMINHO E O TEMPO
Marlene Ribeiro
No rastro firme de cada passo
Não sinto o peso da solidão.
Pois no cansaço e no abraço,
É Deus quem guia meu coração.
O riso agora tem mais calma,
E a prata no cabelo, um novo brilho.
É a luz que vem de dentro da alma.
Iluminando cada curva do trilho.
Vou vivendo a paz de quem entende:
Cada fio branco é uma lição vencida,
E quem com o Criador caminha e aprende,
Nunca acaba só na estrada da vida.
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OLINDA
Jorge Cruz
Nascido e criado em Olinda,
Não tinha como escapar.
Do frevo das ruas e ainda,
Dos palhaços, das músicas no ar.
Meninos soltos nas ladeiras.
Brincadeiras com as bombas d’água.
Molhando a todos nas brincadeiras,
Reclamantes felizes mostrando a língua.
Uns torciam pela Pitombeiras.
Eu torcia pelo Elefante.
As brigas eram só zombeteiras.
Não havia briga delirante.
Meu pai entrava no frevo no pé,
No meio da turba gigante.
Pequeno, eu só tinha a fé,
De sair vivo logo adiante.
Observava com orgulho plácido,
Brancos, negros, mulatos abraçados,
Naquele momento mágico,
Carnaval, suor e risos, misturados.
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ALMA DE CARNAVAL
Aldira Martins
Carnaval é alma livre
Use com moderação !
Pra não perder o controle
Da barra de direção!
Começa na sexta-feira
O planeta animação !
Não precisa ter carteira
Pra gozar da diversão !
No sábado sobe a ladeira
O pico do folião
No domingo é grande o frevo
Sacudindo a multidão !
Quando é segunda-feira
Continua a empolgação !
Ninguém sabe o quê é tristeza
Problemas, existem não!!!
Quando vê já é terça feira
E tudo cheira a paixão
Mais o relógio não pára
E vai acabar o rojão !
Vem a quarta feira de cinzas
Chamar o mundo pra razão
Quem viveu, viveu com gosto !
Já outros dizem que não!
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