
A visão italo-brasileira de Monica Puccineli sobre o Carnaval.
É CARNAVAL.
Adormece a realidade
que a terra vive e nosso
amado Brasil, sai a sambar.
Recarrega as batera deste
povo maravilhoso que até
suas dores em samba sabe
transformar.
É um presente que Deus
lhe deu para nunca fraquejar
Povo lindo, sorridente, que
coragem e galhardia ao mundo
sabe demonstrar.
Agradeçamos a Deus por mais
um Carnaval, que dobrem suas
forças, sua fé, sua esperança
e que este Brasil maravilhoso
continue a brilhar.
Feliz Carnaval!!!!
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*Mhario Lincoln
Preferi analisar um pouco mais demorado o poema da confreira Monica Puccinelli (APB/IT) porque há um gesto raro nele, mesmo sendo curto e frontal. A poeta começa pedindo licença ao cotidiano para que o país respire. Quando ela escreve que “adormece a realidade” e que o Brasil “sai a sambar”, o verso não trata a festa como fuga, mas como um intervalo necessário de recomposição.
O Carnaval aparece como motor simbólico de sobrevivência, uma espécie de bateria que recarrega o corpo social, porque este povo, diz a autora, aprendeu a converter feridas em cadência. Nesse ponto, a italianidade de quem escolheu o Brasil como casa, funciona como lente afetiva. Ela olha de fora e, ao mesmo tempo, já olha de dentro, com gratidão de quem se espanta e se reconhece.
A palavra “transformar” é o núcleo ético do poema. Não é só cantar apesar da dor, é transmutá-la em forma compartilhável, pública, comunitária. E como eu gosto muito de olhar os versos pela lente filosófica, aqui, esse meu olhar veio a descobrir nesses versos, um parentesco com a ideia de resistência íntima que impede o colapso, mesmo quando o mundo pesa.
Lembra Albert Camus quando afirma, em “Retour à Tipasa”, “Au milieu de l’hiver, j’apprenais enfin qu’il y avait en moi un été invincible.” O que Camus disse foi: "No meio do inverno, aprendi finalmente que havia em mim um verão invencível." Essa citação publicada em L'Été (O Verão), em 1954 é uma metáfora sobre a resiliência humana e a força interior. Pois bem. É a mesma convicção, aqui tropical e coletiva, de que existe uma luz guardada no povo, pronta para reaparecer como dança, sorriso e coragem. Poeticamente, a autora escolhe um tom de benção. Ela repete Deus como eixo e transforma a alegria em ato de fé, sem moralismo, com um desejo simples de continuidade. Por isso, o fecho pede que dobrem força, fé e esperança, como quem pede mais fôlego para o mesmo corpo atravessar o ano. Esse movimento conversa com a imagem de reintegração tão brasileira na sua delicadeza, sintetizada por Cecília Meireles. “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.”
Já no poema de Puccinelli, o Carnaval é exatamente isso, a volta inteira depois dos cortes diários, a prova pública de que ainda há música suficiente para não fraquejar. Porque no fim, “é Carnaval” e isso funciona como um cartão de amor ao Brasil, datado e assumido, com a alegria de quem agradece sem ingenuidade.
Há brilho, sim, mas há também um respeito pelo que custa sorrir. E é esse respeito que dá peso ao elogio do povo, porque a festa não apaga a dor, apenas a reorganiza em esperança cantável, para que o país continue a brilhar.
*Presidente da Academia POética Brasileira.
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