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Nova crônica do poeta e escritor Eloy Melonio: “DEDOS, MÃOS E O OSCAR”

Eloy Melonio é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

24/02/2026 às 19h50 Atualizada em 24/02/2026 às 19h54
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
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Ilustração c/o autor Eloy Melonio, à esquerda, embaixo.
Ilustração c/o autor Eloy Melonio, à esquerda, embaixo.

Eloy Melonio 

        “Ô sorte!” Essa exclamação melodiosa é um autêntico suspiro carioca para expressar alegria por algo esperado que aconteceu. Nascida da fértil imaginação do sambista Wilson das Neves (1936-2017), essa coisinha simpática vai assim se agasalhando no coração dos brasileiros.

E, assim, uma cena cinematográfica fechou o Jornal Nacional (REDE GLOBO) de 22 de janeiro. Nesse dia, “O Agente Secreto” seria ou não confirmado entre os indicados ao OSCAR 2026. Num gesto espirituoso, os apresentadores César Tralli e Renata Vasconcelos cruzaram o indicador e o médio da mão direita para invocar a sorte. Com os braços esticados, um de frente para o outro — torceram por uma conquista inédita do cinema brasileiro.

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E não é que deu certo! As indicações se confirmaram, e “O Agente Secreto” oficialmente figura nas categorias “melhor filme”, “melhor filme internacional” e “melhor elenco”. E Wagner Moura, “melhor ator”. É pouco, ou quer mais?

 


E agora muita gente espera que Tralli e Renata repitam essa cena no JN de 14 de março (sábado), um dia antes da solenidade do OSCAR. E aí, um probleminha: os titulares geralmente não apresentam o jornal aos sábados. Resta-nos, assim, ficar com a certeza de que estamos bem-representados. Ou, então, cruzamos todos o indicador e o médio da mão direita.

Essa hegemonia da “sorte” é uma fixação cultural. Cada pessoa tem seus meios de se relacionar com ela e dela receber o que espera. O problema é que seus caminhos e seu timing são imprevisíveis. Assim como seus golpes e sua ironia. Imagine quantos garimpeiros arrasados por causa de seus pífios resultados? Gente que confiou mais na sorte do que nos próprios braços. Que o diga a profa. Matilda, protagonista do romance “Ouro de Tolo”, de Jáder Cavalcante. A pobrezinha saiu de casa em busca de novos horizontes em Serra Pelada, no Pará, e terminou no quinto dos infernos.

Não sei se cabe aqui a dura pedagogia de Tim Maia: “Na vida, a gente tem que entender/ Que um nasce pra sofrer/ Enquanto o outro ri” (Azul da Cor do Mar). Ou a lição prática de Gilberto Gil: “Andar com fé eu vou/ Que a fé não costuma faiá” (Andar com Fé).

Muito invocada em despedidas ou ante desafios, a sorte não descansa e não envelhece. Está por aqui desde que o homem perdeu a confiança em si mesmo. Recebe aplausos, ganha elogios, sobe ao pódio. Sempre muito requisitada, seus créditos são, invariavelmente, supervalorizados.

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        Os extremos não devem ser privilegiados. Já ouvi alguém dizer (sobre outra pessoa): A sorte passou longe desse miserável. Não tem empego, não tem futuro. Numa outra perspectiva: Teve a sorte de ver os filhos bem-encaminhados. De fato, a sorte é uma figurinha multifacetada.

É verdade que muita gente não consegue encarar a vida objetivamente. Acham que tudo é uma questão de “ter ou não ter (sorte)”. Em vez de jogar, ficam na arquibancada, esperando o gol da vitória. Entre várias citações clássicas com essa palavra e escolhi a mais coerente: "Sorte é estar pronto quando a oportunidade vem" (Oprah Winfrey, apresentadora de TV, E.U.).

Em 8 de fevereiro deste ano, Carolina Fratani, 38 anos, parecia preparada para chegar à última pergunta no quadro “Quem Quer Ser Um Milionário”, no “Domingão com o Huck” (REDE GLOBO). Leu a pergunta. Pensou, avaliou. Não sabia a resposta e não podia mais recorrer à ajuda externa. Três caminhos a separavam da maleta entupida de cédulas de cem reais. Se escolhesse a opção certa, seria a segunda participante na história desse quadro a sair com um milhão. Se errasse, ficaria com cem mil reais.

Mesmo com toda a plateia de pé, braços esticados em sua direção, sacudindo as mãos em movimentos curtinhos para cima e para baixo, ela permaneceu sóbria e ponderada. Convicta de que a sorte não deve prevalecer à razão, decidiu parar.  E levou para casa R$ 500 mil.

        Uma piada talvez seja uma boa reflexão: um montanhista está em apuros. Sozinho, segura-se na ponta de uma rocha que pode ruir a qualquer momento. Grita por socorro. Para seu alívio, uma voz angelical responde: “Confie em mim. Solte as duas mãos”. Desconfiado, grita outra vez: “Tem mais alguém aí?”

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E quanto ao Tralli e a Renata? Será que, em março, farão a mesma torcida na sexta-feira, 13, que antecede o Oscar? Parece que essa data não é muito favorável. De qualquer maneira, para os que confiam na sorte, tentar não custa nada, não é mesmo?

De um jeito ou de outro, os cinéfilos brasileiros esperam um resultado positivo para encher o peito e soltar a doce “Ô sorte!”.

 

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