
*Mhario Lincoln
Bandeira Tribuzi sempre me fascinou por ser multidisciplinar. E mesmo assim, soube como poucos abastecer-se de poesia regional com amplitude inegável.
Como leitor e admirador assíduo, coube-me certa ocasião de estudos não pragmáticos, fazer-me alguns questionamentos um pouco fora e equidistante, acredito, da linha mestra de seus biógrafos.
A mim me parece lógico questionar um dos versos mais conhecido do poeta, que abre o Hino da Cidade de São Luís: "Ó Minha Cidade Deixa-me Viver", trabalho esse visto, em muitas vezes, somente pelo lado lírico forte, com ideias progressistas, sociopolíticas com viés histórico.
Porém, acredito ter, nesses versos, algo muito mais profundo, muito mais ardente, angustiantemente íntimo, que só, uma liberdade poética de incrível bom gosto.
“Ó minha cidade deixa-me viver”, parece algo além do fato do verso ter linguagem simples e prosaica. Acho-o robusto quando o foco é a reflexão complexa do deixar viver, como se de uma forma ou de outra algo misterioso e desinencial, ali existisse. Destarte, lá no fundo da alma do poeta, essa retórica, imagino, representa algo muito mais forte: um grito abissal de angústia retraída.
Como diria Fernando Pessoa, incorporado em Álvaro de Campos: “Esta velha angústia, / Esta angústia que trago há séculos em mim, / Transbordou da vasilha (...)”.
Ora, se esses versos fossem os mesmos, mas escritos por Nauro Machado, por exemplo, esse 'deixa-me viver...' fatalmente teria um outro sentido hermenêutico. É como se o angelical Mario Quintana se transmudasse em Charles Baudelaire.
Neste caso de Tribuzi me vem a sensação egóica, só minha, de que existem dois ‘eu líricos’ habitando a cidade, sem possuí-la em seu todo, dessa forma, sem a liberdade suficiente para tê-la em toda a plenitude poética.
Vale então requisitar a presença memorável de outro maranhense: Ferreira Gullar e seu “Poema Sujo”, escrito durante o exílio. Nele, há um grito explícito, reverberado em “Breve Memorial do longo tempo”, da mesma forma que em “Louvação a São Luís”, de Tribuzi.
Então, mesmo com a licença poética infinitamente lírica, histórica, condescendente, melódica, saudosa, amável, há algo que se explicita incurável, num modelo retórico entre Quintana e Baudelaire.
E o que poderia ser? Algo parecido com “Londres”, de William Blake: “Londres/Vagueio por estas ruas violadas,/ Do violado Tamisa ao derredor,/ E noto em todas as faces encontradas/ Sinais de fraqueza e sinais de dor”?
Seria algo que o prendesse a um fictício romance d’antanho não resolvido? “Oh tira-me esta túnica! Vestida/ assim, meu ser é coisa, somente coisa,/ pois a forma é o cárcere de minha vida”, como gritou Alfonso Cortés, poeta da Nicarágua?
Ou, ainda, uma sutil referência aos turbilhões, d'antes vividos em terras portuguesas? O “deixa-me viver”, teria sido ali brotado pela saudade d'outrora? “Um horizonte, — a saudade/ Do que não há de voltar;/ Outro horizonte, — a esperança/ Dos tempos que hão de chegar;/ No presente, — sempre escuro, —/ Vive a alma ambiciosa/ Na ilusão voluptuosa/ Do passado e do futuro”, como bem poetizou Machado de Assis?
Há controvérsias e líricas dúvidas. Nada a fazer. A não ser, continuar dissecando cautelosamente o sentido real do que Tribuzi vivenciou, ao perpetuar "Ó Minha Cidade, Deixa-me Viver...".
Porém, acho fervorosamente, ter esse verso algo muito mais profundo, incalculavelmente misterioso, com adornos íntimos.
Por isso, não compactuo com a pueril ideia de, penas ser, uma licença poética. A meu ver, há muito mais possibilidades de se encontrar cravadas nesses falares, um extravaso de uma angústia, como nos versos de um outro maranhense, o Catulo, que diz: " (...) Uma saudade brilhando/na cravação de uma dor (...)".
“Ó minha cidade deixa-me viver”, poderia sim, ser vista sob um ponto de vista incomum, mas perfeitamente acessível, pois de toda angústia (e esse episódio verbálico é angustiante) pode nascer a razão, sob invernos e os verões, levando a algumas dezenas de interpretações simbióticas, na busca pelas traduções naturalmente frenéticas da alma.
Como nos versos da poeta Lêh Walker, de Maceió-Alagoas: “Deixe-me viver/Quero decifrar a poesia dos teus lábios/ Alcançar teu corpo como uma morte súbita parar a vida que há entre eles...” ou como Orfeo Sun: “Deixe-me viver nesse mundo/ onde minhas leis destram meu destino./ Deixe me viver nessa realidade/ onde ilusões são tomadas por sonhos./ (...) Deixe me sonhar mais um pouco nesse mundo que tão poucos sonham alto./ (...). Deixe me usufruir dessas sensações que aos poucos vem se tornando minha razão”.
Claro e evidente que tudo que aqui escrevi é fruto de minhas especulações hermenêuticas, contudo, vale ressaltar, em minha desaforada interpretação, o que me ensinou Martha Medeiros: "(...). Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. (...)".
Mhario Lincoln é Presidente da Academia Poética Brasileira.
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