
Editoria de Pesquisa Social da Plataforma Nacional do Facetubes
A partir destes versos do poeta e imortal APB/AML, professor José Neres, a Editoria de Pesquisa Social da Plataforma Nacional do Facetubes decidiu retomar e atualizar esta apuração sobre um dos temas mais graves da vida brasileira. Antes de qualquer número, vale encarar a força da ranhura poética de Neres em Mancha Carmim, porque nesse já está, em linguagem lírica, o que as estatísticas depois confirmam com brutalidade.
Vide, ipisis litteris:
José Neres
Esse moço de terno azul-marinho
Disse que gostava muito de mim.
Certo dia, ele me pediu um beijinho
Quanto estávamos sós no jardim.
Ao chegar alguém, saiu de fininho.
Outro dia voltou e disse bem assim:
“Que menina bela! Lindo corpinho!
Só penso em você, doce Serafim.”
Tão tola que era, pensei ser carinho...
Aceitei mimos, dinheiro, quindim...
Certo dia, tirou meu vestidinho.
Seis anos! Não conhecia não ou sim...
Diante daquela mancha carmim,
Triste, conheci o início do meu fim.
A pergunta que o poema impõe continua a mesma, e talvez hoje ainda mais urgente. Quais são, de fato, os números reais desse abuso tantas vezes escondido debaixo do tapete, abafado pelo medo, pelo vínculo familiar e pela vergonha que a vítima jamais deveria carregar?
A resposta recente piora o que já era escandaloso. A edição de 2025 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (vide ilustração), com dados de 2024, registrou 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável no Brasil, o maior volume da série histórica acompanhada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública desde 2011, com taxa de 41,2 por 100 mil habitantes. Nos números do próprio FBSP, 76,8% desse total corresponde a estupro de vulnerável, o que recoloca a infância e a adolescência no centro do drama nacional.
O perfil das vítimas segue confirmando a face estrutural dessa violência. No infográfico do anuário, 87,7% das vítimas eram do sexo feminino e 55,6% eram negras. O ambiente doméstico permanece como palco predominante da agressão, com 65,7% dos casos ocorrendo dentro de casa. Os autores também aparecem, em grande parte, no círculo de convivência mais próximo, com 45,5% classificados como familiares e 20,3% como parceiros ou ex-parceiros íntimos.
O dado etário, que já era aterrador nas séries anteriores, continua revelando a mesma chaga. Somadas as faixas de 0 a 4 anos, 5 a 9 anos e 10 a 13 anos no infográfico do anuário de 2025, chega-se a 61,4% das vítimas até 13 anos de idade, praticamente repetindo a dimensão do desastre que há anos se denúncia. Não se trata de desvio pontual. Trata-se de um padrão.
A reportagem também ouviu pessoas por abordagem direta nas ruas do Brasil, através de seus correspondentes, e o relato da maioria das vítimas reforça o que os estudos vêm dizendo há anos: "A faixa etária mais jovem, por sua dependência e vínculo familiar, muitas vezes se torna alvo de abusadores que se aproveitam da autoridade, do silêncio e da proximidade para cometer o crime", diz o editor-chefe da pesquisa da Plataforma, jornalista Julyan Ayres (correspondente da PNFT, em Recife-PE).
Vale ressaltar, ainda, que a subnotificação continua sendo uma peça central dessa tragédia. O próprio texto do FBSP - Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ao analisar 2024, volta a destacar que as estatísticas policiais não dão conta do volume real dos crimes sexuais. O artigo remete ao estudo do Ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que estima que apenas 8,5% dos crimes são registrados pela polícia, o que ajuda a explicar por que os números oficiais, embora gigantescos, ainda podem estar abaixo da realidade.
Por outro lado, no campo da violência sexual contra mulheres, a atualização também é dura. Em fevereiro de 2026, a Agência Brasil retomou estudo do Instituto Locomotiva – incluindo o recente período carnavalesco, com dados importantes - segundo o qual 50% das mulheres já foram vítimas de assédio sexual no Carnaval e 73% têm receio de sofrer esse tipo de violência pela primeira vez ou novamente. O dado mostra a mesma cultura permissiva que sustenta o silêncio sobre crimes sexuais em diferentes ambientes, da rua à casa.
A referência ao UNICEF e ao FBSP também merece atualização numérica. O levantamento mais recente divulgado em 2024 aponta 164.199 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes de até 19 anos no período de 2021 a 2023, com crescimento anual e 63.430 registros em 2023, média de uma ocorrência a cada oito minutos. O mesmo material reforça a subnotificação e traz outro retrato doloroso, com maioria de vítimas meninas, predominância de vítimas negras e alta incidência dentro de casa.
Por isso, quando especialistas e entidades insistem em prevenção, educação, protocolos de atendimento, capacitação de policiais, peritos, profissionais da saúde e da escola, não se trata de retórica. Trata-se de resposta mínima diante de uma violência recorrente, íntima e socialmente tolerada por tempo demais. A repressão penal é indispensável, mas chega tarde quando a rede de proteção falha no primeiro sinal.
No fundo e na realidade inconteste, “(...) o Brasil enfrenta uma das mais graves crises de direitos humanos de sua vida recente no campo da proteção sexual de crianças, adolescentes e mulheres. A urgência de políticas públicas efetivas, investigação qualificada, justiça mais célere e mobilização social contínua não é mais tema lateral. É exigência imediata de um país que já conhece os números, mas ainda não conseguiu deter a repetição do horror”, opina o jornalista Mhario Lincoln, editor-sênior da PNFT.
Mín. 18° Máx. 30°