
Da editoria de Litertura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Tempero Divino
ALEX BRASIL
Um pouco de veneno,
um pouco de mel,
um pouco de inferno,
um pouco de céu:
assim Deus tempera
a nossa sorte,
enquanto nos espera
na eternidade, além da morte
"(...) Um poeta entre a dor e a beleza. Assim, Alex define sua poética em uma frase emblemática: "No poeta até a beleza dói". Seus poemas são expressões do eterno dilema humano entre nossos ideais e a realidade que nos rodeia, entre o que aspiramos ser e o que somos forçados a enfrentar". Mhario Lincoln.
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Trístico 01 – Ménage
JOSÉ NERES
Na cama, éramos sempre três:
Eu, você e a solidão.
Cada um esperando sua vez.
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DA POESIA
José Neres
Jamais desistir
De tão doce intento
De tornar palavras
As cores do vento.
"(...) a força de José Neres está, nessas lágrimas líricas, em transformar a intimidade ferida em linguagem nítida, breve e cortante. Sua poesia intestina não grita por excesso; ela fere ou torna-se magia, pela contenção. É essa capacidade de falar de abismos ou de êxtases, com poucas palavras. Eis o segredo!(...)". Mhario Lincoln
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Vésper
LAURA AMÉLIA DAMOUS
quando a luz despedaçar
a noite e
o grito atravessar o tempo
é hora de acudir
o soluço amordaçado do dia
CIMITARRA
Laura Amélia Damous
a lua afiada
decepa
a noite
estamos órfãos
"(...) é a mais expressiva da lírica maranhense, surgida nesta nova geração de poetas(...)". MARCONI CALDAS.
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Intimidade
SONIA ALMEIDA
Percorro meu corpo e, aos poucos, vou percebendo-me cruz de mim mesma.
Pesa-me esse pensamento que não para e essa visão de mundo sem cortina.
Pesa-me a espera, o desejo, a certeza da mudança diante da rotina e, em mim, essa tonelada de verdades que ainda não sei.
Mas quero o comum inevitável de minha intimidade, onde espero sempre a ilusão de tantas novidades.
Tiro a roupa de estreia e visto-me do lençol de tantas vezes: a mesma árvore, a mesma flor e o mesmo beija-flor que me confunde.
Visto-me do lençol que me veste e me despe. Tiro meu cheiro e viro frasco de minhas essências.
Escondo-me na mesma intimidade em que me mostro.
"(...) Neste poema de Sonia Almeida, a força poética nasce de uma interioridade que se observa sem piedade e sem ornamento: é aqui que sua lírica vira altar, ferida e testemunha de si. Portanto, é uma poética de rara maturidade, em que o corpo pensa, a intimidade encena e a alma se reconhece no próprio labirinto(...)". Mhario Lincoln.
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Quando
ANA LUIZA ALMEIDA FERRO
Quando a última luz se apagar
a noite eterna será meu sol
as estrelas piscarão no atol
e eu lá, pequena, a cismar.
Quando a última voz se calar
ouvirei o silêncio dos ressentidos
soltarei o grito engasgado dos contidos
em meio à solidão do mar.
Quando o último perfume se esvair
buscarei a fragrância das flores
com o cheiro de mil amores
e me porei, surpresa, a sorrir.
Quando o último sabor se perder
encontrarei o gosto da vida
no doce aceno da partida
e degustarei as delícias do ser.
Quando o último toque se findar
sentirei a chama que me consome
apalparei a frágua da minha fome
e descobrirei o verdadeiro lar.
Quando a última porta se fechar
daquele parapeito da janela do tempo
verei a vida passar em contratempo
e me olvidarei nas asas do sonhar.
"(...) Aqui, um exemplo raro de força poética se impondo pela extraordinária capacidade de converter a ideia do fim em rito de transfiguração, como se cada perda sensorial não anunciasse aniquilamento, mas uma forma mais funda de revelação do ser. Ou seja, inclui-se, igualmente, rara delicadeza que prova que a linguagem lírica não serve apenas para nomear o efêmero, mas para arrancar da ruína uma centelha de permanência(...)". Mhario Lincoln.
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Rupestre
RONALDO COSTA FERNANDES
Minha imprudência
é feita de cavernas
onde caço animais
nas paredes do desejo.
Ando rude e encovado
nos desenhos primitivos
da minha memória
quase extinta
pelos anos de escuridão.
No meu corpo
tão áspero e rupestre
há uma pré-história de mim.
"(...)" Nestes versos, um Ronaldo radical: escavando essa instância confessional do poema, onde o poeta desloca o impulso humano para um plano primevo, em que desejo, memória e instinto se confundem numa substância única, mostrando uma poesia de alta densidade simbólica, em que a linguagem parece tatear a origem do homem dentro do próprio homem(...)". Mhario Lincoln.
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Ode ao mundo lá fora
Félix Alberto
se fosse solidão
eu saberia
mas no fundo
é só uma casa
dentro de mim
vazia
de tanta multidão
"Nestes versos, a solidão é de uma interioridade sitiada pelo excesso. Há aqui uma notável inversão poética e existencial: a multidão, que em tese deveria preencher, aparece como força de desgaste, de ruído e de despersonalização, fazendo lembrar a velha tensão entre o ser e o mundo, entre a intimidade que deseja recolhimento e a vida social que tantas vezes nos fragmenta." (Mhario Lincoln).
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