
NOTA DO EDITOR: a "Segunda Poética", da Plataforma Nacional do Facetubes, abre mais uma edição reunindo vozes que reafirmam a poesia como presença viva no cotidiano, com Maria José Lima, em “Atravessando o Tempo”, trazendo o amor como fundamento; Bel Piraquara, em “Velha”, enfrentando o tempo, o espelho e a resistência de existir; e Lindicássia Nascimento, em “Lindo é viver”, celebrando a vida como aprendizado, travessia e luz. Wanda Cunha transforma figuras femininas da tradição bíblica em matéria de revisão crítica. Eva, Dalila, Salomé, Madalena e Maria. E Nauza Luza Martins (Academia Poética Brasileira, seccional DF), trabalha com imagens tradicionais da lírica, como prata, marés, espumas, brumas e estrelas, mas as organiza em torno de uma inquietação precisa. A importância desta edição está justamente nessa convergência de sensibilidades: cinco poetas, cinco modos de olhar a condição humana e uma mesma certeza editorial, a de que a poesia continua sendo espaço de memória, afeto, coragem e reconhecimento. (Mhario Lincoln, jornalista e poeta).
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1 - Em “Lindo é viver”, Lindicássia Nascimento constrói um poema de celebração simples, apoiado numa percepção direta da existência. A repetição de “lindo” é a base do texto; funciona como refrão interior, como quem insiste em lembrar que a vida ainda pode ser vista pela claridade. O existir aparece ligado ao movimento, ao aprendizado e à necessidade de guardar no peito uma razão para continuar.
A natureza organiza o poema como se fosse uma grande cena de passagem. O amanhecer, o sol, a lua e o dia que “deita cansado da caminhada” formam uma sequência em que o mundo parece ensinar o ser humano a permanecer. Há uma delicadeza especial na imagem do entardecer, quando o dia, mesmo exausto, ainda encontra forças para deixar sua cor no céu. Nessa imagem, a autora sugere que viver também é continuar criando beleza, apesar do cansaço.
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LINDO É VIVER
*Lindicássia Nascimento
Lindo é mesmo o existir,
é sentir e se mover,
é ver o dia amanhecendo
e na vida aprender,
é guardar dentro do peito
um motivo pra viver.
Lindo é ver o sol nascendo
abraçando a imensidão,
lá no canto onde ele surge
feito chama em criação,
no mesmo lado onde a lua
nasce com a mesma intenção.
Lindo é quando o dia deita
cansado da caminhada,
mas ainda encontra forças
pra deixar sua pincelada,
colorindo o céu inteiro
como obra encantada.
Lindo é sorrir sem medida,
é cantar com emoção,
é correr pelos caminhos
com leveza e direção,
espalhando pelos campos
alegria em oração.
Lindo é viver cada verso
que a vida escreve na gente,
e fazer de cada passo
um motivo florescente,
pra viver de novo e sempre
com a alma reluzente.
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2 - Em “Velha”, Bel Piraquara enfrenta uma das palavras mais carregadas da experiência humana e a devolve ao leitor sem disfarce. A repetição do termo não funciona como aceitação passiva de decadência, mas como tentativa de tomar posse de um rótulo que costuma vir de fora. A voz do poema diz “não porque sou, mas porque o tempo passou”, e nessa inversão está a força central do texto. A velhice não aparece como identidade fechada, mas como marca cronológica que não consegue apagar a infância guardada no olhar.
O espelho é o grande campo de confronto do poema. Nele, a personagem vê os olhos cansados, mas também reconhece a criança que permaneceu. Essa duplicidade impede que o texto caia na lamentação. Há esquecimento, invisibilidade e luta, mas há também permanência íntima. A mulher que olha para si mesma não encontra apenas as perdas do tempo. Encontra a história inteira do corpo, da memória e da resistência que sempre a manterá de pé.
VELHA
*Bel Piraquara
Velha...
Não porque sou,
Mas porque o tempo passou.
Olho no espelho,
E os olhos cansados
Não impedem que eu veja,
Uma doce criança.
Velha... invisível
Esquecida da vida.
Olho no espelho
No espelho da vida,
A luta incessante
Pra ficar em pé.
Velha...
E ainda luto sem medo
E encaro o espelho
Desafiando a vida
Chorando... rindo... sonhando,
Velha...
Não porque sou,
Mas porque o tempo passou.
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3 - Em “Atravessando o Tempo”, Maria José Lima constrói uma voz lírica que não trata o amor como acontecimento repentino, mas como reconhecimento tardio de algo que parecia existir antes da própria consciência. O poema começa numa zona de suspensão, “à beira do tempo”, onde a espera não é passiva, mas inquieta. O infinito aparece como interlocutor mudo, diante do qual a personagem poética permanece entre o medo e a possibilidade de entrega.
A chegada do outro reorganiza a experiência interior. A dúvida perde força, a espera ganha corpo e o destino deixa de ser abstração para se tornar presença. O verso “como se nossa história já estivesse escrita muito antes de nós dois” concentra a força do poema porque desloca o amor do plano comum da escolha para o território do reencontro. Amar, aqui, não é apenas começar uma história; é reconhecer uma continuidade que o tempo havia encoberto. Na parte final, o poema alcança sua medida mais sensível ao afirmar que o amor supera “as palavras” e “os dias”.
ATRAVESSANDO O TEMPO
*Maria José Lima
Eu permaneci
À beira do tempo
Como quem observa o infinito
Sem saber se ele iria responder.
Havia medo em mim
Um silêncio antigo
Como se amar fosse um salto
No escuro da alma.
Mas você chegou.
E, de repente
O que era dúvida
Tornou-se espera preenchida
Destino revelado em presença.
Meu coração, antes hesitante
Aprendeu a confiar
No instante que nos uniu
Como se nossa história
Já estivesse escrita
Muito antes de nós dois.
Eu te reconheço
Não só no agora
Mas em tudo o que passou
Sem que soubéssemos.
É como se eu tivesse amado você
Em outras eras
Em outras vidas
Em todos os caminhos
Que o tempo já percorreu.
Eu tenho te amado
Mais do que as palavras alcançam
Mais do que os dias contam.
E continuarei
Atravessando o tempo
Silenciosa e inteira
Como quem sabe
Que o amor verdadeiro
Não tem fim.
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4 - Em “Questionamentos”, Wanda Cunha transforma figuras femininas da tradição bíblica em matéria de revisão crítica. Eva, Dalila, Salomé, Madalena e Maria aparecem não como imagens fixas, mas como nomes carregados por uma mulher que tenta compreender por que a história lhe entregou mais culpa do que escuta. O poema nasce dessa pergunta persistente. A voz feminina não aceita o lugar estreito da “costela” nem a leitura que reduziu a mulher a origem do erro, perigo, sedução ou penitência.
A força do texto está no confronto entre herança religiosa, memória cultural e identidade feminina. Quando pergunta por que retrata “mais culpa que Adão” ou semeia “mais perigo que Sansão”, a poeta denuncia um sistema de interpretação que transferiu à mulher o peso moral de muitas narrativas. O verso sobre Cristo, o único que não atira a pedra, desloca o poema para um ponto decisivo. Ali, Wanda Cunha sugere que a condenação não nasce do sagrado em sua essência, mas da mão humana que escolhe julgar antes de compreender. Ou seja, a mulher não é apenas vítima, santa, tentadora ou penitente. É um ser atravessado por contradições, fé, ironia, culpa imposta e escolha própria.
QUESTIONAMENTOS
*Wanda Cunha
Por que nasci Eva
E cresci Dalila?
Por que sou Salomé
E estou Madalena?
Tudo que me ensinaram
Foi ser a costela
De alguém semelhante a mim,
Mas com uma semelhança
Sem a nuança
Da Maria que assumi.
Por que retrato mais culpa que Adão?
Por que semeei mais perigo que Sansão?
Por que inspiro mais astúcia que João?
Por que só Cristo não me atirou a pedra
que trazia na mão?
Ora,
Eu não sei por que nasci costela
E, ao mesmo tempo, a escolhida a ser Maria.
Tudo isso, entretanto, não me vangloria
Que, sem Deus, certamente eu não seria
Todo esse ser de glórias e inglórias
Que, diversas vezes, mudou com ironia
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5 - Em “Órfã de Luar”, Nauza Luza Martins parte de uma hipótese simples e de grande rendimento simbólico: o desaparecimento da lua. A ausência do luar não é tratada apenas como perda de luz no céu, mas como ruptura de uma antiga aliança entre a noite e a palavra poética. Quando a autora pergunta “Que será do poeta e seu papel”, desloca a cena para o centro da criação literária, onde a lua deixa de ser ornamento e passa a funcionar como força íntima da escrita.
O poema trabalha com imagens tradicionais da lírica, como prata, marés, espumas, brumas e estrelas, mas as organiza em torno de uma inquietação precisa. Sem a lua, o poeta perde uma espécie de linguagem silenciosa, aquela que não se explica pela razão imediata, mas pela emoção que atravessa a noite. A expressão “metade da noite então se esvai” é um dos pontos fortes do texto, porque mostra que a perda não é física apenas. É também afetiva, imaginária e criadora. Nauza Luza Martins evita o desamparo absoluto. O poeta, órfão da inspiração externa, é chamado a buscar dentro de si a luz que já não cai do céu.
ÓRFÃ DE LUAR
*Nauza Luza Martins
Se a lua um dia ausentar-se do céu
E a noite em luto, escura, se fizer
Que será do poeta e seu papel
Sem prata viva a iluminar o ser?
Perderá o suspiro que conduz
Versos tecidos em marés e espumas
Pois é da lua o sopro que traduz
Os silêncios que a alma escreve em brumas.
Metade da noite então se esvai
Não pelo tempo, mas pela emoção
Que sem luar o sonho já não vai.
Resta ao poeta, órfão da inspiração
Buscar em si mesmo a luz que não mais cai
Para acender estrelas no próprio coração.
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