
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes.
Arthur Schopenhauer não entra na história da filosofia como um consolador. Entra como alguém que olha para a existência sem cortina, sem enfeite e sem promessa fácil. Por isso foi chamado de filósofo pessimista. A classificação, embora recorrente, não encerra o problema. O que há nele não é apenas pessimismo. Há uma espécie de lucidez dura, quase cirúrgica, diante de uma vida que cobra do ser humano mais resistência do que entusiasmo.
Vale dizer que o ponto mais forte do pensamento schopenhaueriano não está apenas na dor, mas na pergunta que nasce depois dela. Se o mundo fere, como continuar de pé? Se a convivência social desgasta, como preservar a própria consciência? Se o futuro não se deixa dominar, como viver sem ser destruído pela ansiedade? Esse é o centro dramático do texto: Schopenhauer não oferece uma saída luminosa. Ele oferece uma disciplina de sobrevivência.
A biografia ajuda a entender a gravidade dessa filosofia. Schopenhauer nasceu em 1788, em Danzig, hoje Gdansk, na Polônia. Seu pai, Heinrich Floris Schopenhauer, era comerciante e preparou o filho para seguir a vida mercantil. Ainda jovem, Arthur viajou pela Europa com a família, teve contato com diferentes países e idiomas, e carregou uma relação difícil com a própria formação. Ele esteve entre os primeiros filósofos do século XIX a afirmar que, no fundo, o universo não é racional. Também destaca que sua resposta ao conflito humano passava pela redução dos desejos, pela arte, pela moral e por uma forma de ascese diante de uma condição humana marcada pela frustração.
Esse ponto é decisivo. Schopenhauer não vê o desejo como simples impulso bonito de realização. Para ele, desejar é quase sempre abrir a porta para a falta. Quem deseja demais se expõe demais. Quem depende demais do mundo entrega ao mundo a chave da própria paz. Por isso sua filosofia não se parece com uma celebração da felicidade, mas com uma técnica severa de redução do sofrimento. O homem não controla o mundo. Mal controla as circunstâncias. Muitas vezes, nem controla o modo como será interpretado pelos outros. Resta-lhe, então, um território pequeno e decisivo: a administração de si.
É nesse ponto que a solidão deixa de ser abandono e se transforma na capacidade de suportar a própria presença. E isso é forte porque desloca o tema do isolamento para a soberania interior. Schopenhauer não está simplesmente aconselhando a fuga das pessoas. Ele está dizendo que ninguém será verdadeiramente livre se não conseguir ficar de pé quando o aplauso, a companhia, a aprovação e a presença dos outros desaparecerem.
Foi assim que Schopenhauer (erroenamente conhecido, apenas, como 'filósofo do pessimismo'), teve grande influência sobre a arte, a psicologia e a literatura, tendo marcado nomes como Freud, Wittgenstein e Nietzsche. Mas vale dizer - e isso é importante - que Nietzsche nunca foi o contraponto de Schopenhauer. Ele não nasce filosoficamente contra Schopenhauer. Ao contrário, em Leipzig, em 1865, ele descobriu a filosofia de Schopenhauer e foi isso que marcou sua formação intelectual. As próprias Considerações Extemporâneas, de Nietzsche, foram influenciadas por Schopenhauer e Wagner, em sua fase inicial.
E mesmo com o contraditório, surgido depois entre Nietzsche e Schopenhauer, essa ruptura é sem dúvida, uma 'obra-prima', pois qualifica o leitor a entender os dois lados do pensamento desses monstros do conhecimento humano. Schopenhauer vê a vontade como fonte de sofrimento, uma força cega que arrasta o homem de desejo em desejo. Nietzsche, mais tarde, reage a essa herança e transforma a vontade em potência, resistência, criação, superação. Assim, a noção nietzschiana de vontade e de potência se coloca diretamente contra a tentativa schopenhaueriana de fundamentar o pessimismo, a partir de uma vontade de vida condenada à frustração.
É exatamente essa discordância insana de pensamentos e teses que dá ao pensamento, algo raro e indissolúvel. Bonito de se ler e entender: para Schopenhauer, a dor pede recuo. Para Nietzsche, a dor pode pedir transfiguração. Um aconselha diminuir o império do desejo. O outro quer transformar sofrimento em força. Um olha para o mundo e diz que é preciso se proteger. O outro olha para o abismo e exige que o homem não se ajoelhe diante dele. Entre os dois, a existência humana aparece no seu conflito mais antigo: sobreviver ou afirmar, recolher-se ou criar, reduzir a ferida ou fazer dela matéria de grandeza.
Mas Schopenhauer continua atual porque o mundo contemporâneo parece ter multiplicado aquilo que ele temia. O ruído cresceu. A opinião alheia virou tribunal diário. A comparação deixou de ser episódio e virou ambiente. A tecnologia expandiu a distração, mas não resolveu a angústia. Nesse cenário, a metáfora das “gavetas” ganha força. Fechar uma gaveta para abrir outra é mais do que uma regra de concentração. É uma defesa contra a desordem mental. O homem que abre tudo ao mesmo tempo perde o domínio da própria casa interior.
Vale ver e entender que Schopenhauer é sombrio, mas não inútil. Sua sombra tem função. Ela obriga o leitor a perguntar quanto de sua vida está sendo entregue ao barulho, à vaidade, à comparação, à ansiedade e ao desejo. A solidão, nele, não é uma cadeira vazia no canto da casa. É uma fortaleza. E talvez seja justamente aí que sua filosofia, acusada tantas vezes de pessimismo, encontre sua utilidade mais humana porque antes de enfrentar o mundo, cada pessoa precisa aprender a não ser 'estrangeira' dentro de si mesma.
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