Nota do Editor: A entrevista conduzida por Joizacawpy Costa (APB-MA), revela não apenas domínio técnico, mas uma sensibilidade rara para provocar reflexões profundas na interlocutora. Joiza formula perguntas que abrem espaço para que Socorro Guterres, (APB-RGN), com sua elegância intelectual, exponha a essência de sua trajetória literária e humana. Logo na primeira resposta, Socorro oferece uma síntese luminosa de seu projeto crítico ao afirmar que buscou “compartilhar o prazer literário, por meio de autores do meu apreço, dispondo-os em citações de sabor e saber”, trecho que traduz com precisão sua postura diante da literatura: rigor sem aridez, erudição com afeto, análise que nasce do encantamento. A entrevistadora, ao recuperar referências como de Roland Barthes e ao situar a obra da autora no campo da crítica literária, demonstra preparo e respeito, conduzindo a conversa com fluidez e profundidade.
Ao longo da entrevista, Joiza permite que Socorro revele nuances de sua formação, de suas escolhas estéticas e de sua vivência como escritora e acadêmica. A entrevistada responde com clareza e generosidade, destacando influências que vão de Camões a García Márquez, de Machado de Assis a Derrida, e reafirmando sua ligação com a literatura brasileira, especialmente com Guimarães Rosa, a quem dedicou anos de estudo.
A troca de experiências literárias entre ambas — duas representantes da Academia Poética Brasileira — evidencia maturidade intelectual e sintonia, resultando em um diálogo que honra a instituição que representam. A entrevista, em sua totalidade, é um encontro de vozes que celebram a literatura como prazer, pesquisa e compromisso. Leiam:
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JOIZACAWPY COSTA - Na avaliação que Mhario Lincoln fez do seu livro, ele disse: "Socorro Guterres, logo às primeiras páginas do seu livro, me traz algo que me lembrou Roland Barthes, em seu “O Prazer do Texto”. Tem fundamento?
SOCORRO GUTERRES - Sim, na introdução do meu livro explano que O Prazer do Texto, de Barthes, nos proporciona uma concepção de análise literária por meio de signos da literatura, sem contudo apoiar-se na história dos estilos. Nas análises que dispus em "Nos Domínios da Linguagem (Veredas)", pretendi apenas compartilhar o prazer literário, por meio de autores do meu apreço, dispondo-os em citações de sabor e saber.
2-JC - Você saiu do Maranhão cedo. Quais as perspectivas que lhe acompanharam nessa jornada, já que você era bem nova e saía de São Luís para acompanhar o marido militar?
SG- Saí muito jovem da minha querida São Luís. Podemos dizer que a paixão pelo meu marido me arrebatou para novas aventuras e conhecimentos no Rio de Janeiro, onde ingressei no Curso de Odontologia da Universidade Federal. Queria seguir a profissão do meu avô paterno, como uma espécie de tributo a esse personagem marcante em minha infância e que faleceu quando eu contava 9 anos.
3-JC - "Nos Domínios da Linguagem (Veredas)" representa uma síntese notável de propostas estéticas, ao mesmo tempo em que oferece uma contribuição única e original ao campo da crítica literária". Você pode explanar algumas?
SG - Nesse livro trago uma coletânea de alguns autores que me envolveram no prazer literário. Então, inicialmente estão as raízes da literatura portuguesa em nomes como Camões, Eça de Queiroz e José Saramago. Posteriormente, os fundamentos da literatura ocidental são pinçados, por exemplo, na comparação entre Sterne e Machado de Assis; na relação de Fausto com o Manifesto Comunista; na visão de Sodoma e Gomorra, em Proust, bem como no seu parentesco literário com Derrida. E ainda estendo-me à literatura latino-americana de Gabriel García Márquez.
4-JC - E a Literatura Brasileira?
SG - Sim. Também abraço a literatura brasileira, como exemplificam o brilho de "Sol a Sol", na abordagem de Macunaíma ou "Brasileiríssimo", no encantamento de Bandeira, e "Um Olhar", em Clarice Lispector, dentre tantos outros. Não poderia deixar de citar aqui a escolha - síntese, de Guimarães Rosa, em A Benfazeja - autor a quem dediquei anos de estudos no mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, após a conclusão do curso de Letras, já residindo nesse estado, por deslocamento do meu esposo, médico militar.
5-JC - Vc escreve crônicas. E sempre com caracteristas íntimas, quase uma catárse - algumas vezes. é esse seu estilo quando o assunto sai da área técnica (sua formação ) para a área literária? Quais vertentes você navega nessa seara literária.
SG - Meu orientador no Mestrado e Doutorado no prefácio de "Nos Dominíos(...)" diz que me mostro como uma discípula de Ítalo Calvino, o que muito me honra. Assim, minha vertente principal é o apreço ao leitor, levando a ele a literatura, com leveza, mas não negligenciando a profundidade das análises.
6-JC - Quais os seus próximos passos dentro do universo literário?
SG - Já tenho alguns projetos em finalização nas áreas da crônica, relato de viagens e poesias. E ainda a literatura infantil, com um poeminha ilustrado a pedido de minha neta mais nova, dedicado à pureza de todas as crianças.
7-JC - Quanto a seu ingresso na APB, como você nos descreve essa experiência?
SG - Agradeço muito ao presidente Mhario Lincoln, bem como aos demais membros da APB, pela escolha do meu nome para fazer parte desse notável grupo de escritores, artistas e poetas. A diplomação foi um momento único e inesquecível que me instigou a caminhar com mais ardor e firmeza na seara literária, num aprofundamento do prazer do texto.
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