
*Mhario Lincoln, jornalista e poeta.
Neste 27.04.2026 – logo cedo fui informado sobre a data pelo confrade e amigo Antonio Guimarães de Oliveira (APB-MA) - data em que o poeta e filósofo Rogério Rocha faz aniversário. Mas, em todo esse tempo, com certeza os últimos 6 anos do aniversariante foram os mais produtivos enquanto poeta, enquanto filósofo. Dessa cabeça estruturada através de intensas leituras, interpretações, delírios [com certeza, não delirium tremens], tem pavimentado uma estrada rara nos tempos atuais, dentro da realística poesia maranhense, fato que o catapultou a ser admirado [já] por grandes críticos nacionais).
O fato é que com luta e sacrifício intelectual (sem preguiça mental) encontrou sua forma exata de fazer poesia. Todavia, não se deitou na fórmula, nem ratificou o molde – imensuravelmente. A cada módulo descritivo em sua lírica, ele renova o sumo, elastece o groove - sensação rítmica, o "balanço" ou "swing" de uma música que faz o ouvinte querer dançar; e, neste também lírico caso, querer ler até o fim. E mais: busca palavras exatas para encaixar em sua exímia maneira de controlar seus melindres existenciais.
Desta feita, lendo mais uma vez (e outra, mais outra e ainda outra), chego à conclusão mágica de que a minha base crítica aponta para uma conclusão comum, analisando outras coisas ao meu pequeno redor, dou-me de cara com uma poesia moderna em diferentes manifestações onde a lírica pode gritar, protestar, amar, ironizar, ferir, cantar ou subir ao palco ou picadeiro, diariamente em meios às vibrações vegetais e eletrônicas das redes sociais e adjacentes.
Mesmo com toda essa efusão criativa, há de se entender que só ganha força (mesmo) quando o impulso pessoal é trabalhado como linguagem. Isso é tão óbvio (e eu não estou “ensinando Missa para vigário”), que Baudelaire já insinuava isso, lá atrás, ao unir a modernidade urbana com o rigor formal de sua incontestável produção. Octavio Paz, por sua vez, examina o poema como experiência histórica e interior.
Assim, fica inevitável não chamar para a mesma mesa, por exemplo, T. S. Eliot que sempre defendeu tradição, mas com impessoalidade. E olha só que aula magnífica dá Alfredo Bosi (professor emérito da Universidade de São Paulo, crítico e historiador da literatura brasileira, membro da Academia Brasileira de Letras): ele nos ensinou a recusar três reduções do poema. Ou, exatamente, o tecnicismo vazio, o sectarismo político e a submissão ao mercado. Para Bosi, a poesia resiste quando preserva sua força ética e estética ao mesmo tempo.
Nesse ponto entram, com força, algumas mulheres brasileiras que romperam a mesmice. Hilda Hilst que levou a poesia e a prosa para um campo raro entre erotismo, divindade, insanidade, corpo e metafísica. E não há como aprender com ela que, segundos registro que eu pesquisei, lia de oito a doze horas por dia e trabalhava a escrita com disciplina quase operária. Isso prova que fazer poesia ou prosa (repito pela milionésima vez) não é apenas dom. Mas acrescido a uma vasta leitura. Só assim, o dom é moldado e vira ousadia. Sim, ousadia! Era o que ensinava o crítico literário e escritor brasileiro Rodrigo Gurgel: “só vira grande literatura quando nasce de leitura, método e risco verbal”.
Foi nessa tocada que cheguei a Ana Cristina Cesar, uma poeta de imenso valor que teve a ousadia de romper com a mesmice por outro caminho. Com sua doída poesia intimista que, aliás, difere de uma não é confissão lírica simples. Ana Cristina César sempre teve – para quem a leu pode até discordar, mas precisa lê-la antes para opinar, viu? Algo muito perto de poemas de corte, carta, diário, tradução, jogo de máscaras. Isso, segundo a crítica que li (e reli), a situa como poeta, ensaísta e tradutora destacada nos anos 1970; estudos críticos apontam nela uma poesia preocupada com linguagem, identidade, eu, outro, memória e sociedade. Lindo, não é?
Bom, um parêntese, caro amigo Rogério (a crônica hoje é sua) para elogiar Ana Suy. Estou lendo com afinco e muita emoção seu livro “Não pise em meu vazio”. Até o título é instigante, assim como “A Linguagem da Ausência.” Bom frisar que Suy não pertence ao mesmo cânone poético de Hilda Hilst ou de Ana Cristina Cesar, mas ocupa um território de fronteira entre psicanálise, crônica poética, amor, vazio, desejo e linguagem afetiva. Da mesma forma que Rogério Rocha navega com (uma força imensa de simplicidade) por sua métrica: "meu corpo é um fantasma do avesso".
Claro que devo falar ainda do Maranhão, onde a minha percepção precisa começar por Sousândrade, porque sua modernidade veio antes da consagração modernista. O Guesa abriu uma zona de invenção, deslocamento, crítica e cosmopolitismo que ainda surpreende leitores de poesia experimental. E aí, é inevitável não citar Nauro Machado que, a meu ver, ocupa posição singular. Por isso, seus poemas foram traduzidos em diversas línguas e integram os mais sérios dicionários literários.
Falo isso porque a leitura de Nauro – ao contrário - não precisa passar por filtro ideológico. O centro de sua poesia é mais existencial, ontológico e metafísico. Deus, morte, corpo, culpa, desespero, linguagem e destino aparecem como matéria de investigação do ser humano. Por isso, não foi à toa que recebeu elogios de Adonias Filho, Carlos Drummond de Andrade e Fábio Lucas.
Luís Augusto Cassas entra como outro caso de poesia maranhense fora da repetição. Sua obra não se reduz ao regional, embora conserve raízes. E essa poesia também é desprovida, na maioria, de - sine factione – mesmo que seja ora social, ora intimista, fazendo do lirismo uma necessidade vital. O crítico Luiz Horácio, no jornal Rascunho, identifica nele humor dramático, ironia, religiosidade, erudição e distância das imagens fáceis. Destarte, posso situar Cassas entre os nomes de maior densidade da poesia maranhense contemporânea, hoje, fielmente acrescida do poeta e filósofo Rogério Rocha.
A partir daí e pelas conversas que temos nas noites insones, posso ressaltar que Rogério chegou nesse patamar com muita leitura. É evidente algumas influências como a de Nietzsche, Heidegger, Hölderlin e Rilke. Nietzsche aparece no abismo, no absurdo e no martelo. Uma das influências que me veio aos olhos foi em “Pregoeiro do absurdo”, quando Rogério escreve: “poder falar do nada/ que habita isso tudo”. Esse “nada” não é vazio decorativo. Ele carrega a tensão moderna entre sentido e ausência de sentido. Também aparece em “Precipício”, com o risco de ser empurrado pelo “sono do universo”, e em “Afogado”, na luta contra “o destino em forma de mar”.
Em “Machado”, a aproximação é ainda mais direta, porque o verbo crítico é cortar, retirar excesso, deixar só o fundamento. Isso conversa com o Nietzsche que desmonta ídolos, valores gastos e certezas herdadas, além de sua escrita aforística e cortante. Já o poema mais heideggeriano, a meu ver, é “A música da frase”: “vem de antes do verso/ a semântica do ritmo”. Aqui há uma percepção rara. O poema sugere que a frase não nasce apenas da gramática, mas de uma zona anterior, onde ritmo, sentido e corpo verbal ainda estão se formando. Isso se aproxima de Heidegger quando ele pensa a linguagem não como simples instrumento, mas como lugar de revelação do ser.
A influência de Hölderlin é menos conceitual e mais atmosférica. Está em “Gênese da poesia”, quando a manhã, a luz e o olho inauguram o nascimento do poema: “O claro da manhã/ deita sobre mim;/ meu olho brilha.” (Meu Deus, isso é poema mesmo!). Há aí uma poesia de origem, claridade e fundação. Também surge em “Precipício”, com o verso: “acordo rio a correr reverso/ retornando ao meu início”
Esse rio que corre para trás, em direção à fonte, lembra a tradição dos hinos fluviais de Hölderlin, especialmente pela ideia de origem, retorno e travessia. Agora, Rilke: ele surge quando o mundo exterior vira experiência íntima. Em “Ilusão”, o poeta diz: “Sinto cheiro de terra molhada/ no espaço ao lado da casa/ fui enganado pelos sentidos/ só há chuva em meus ouvidos”. (Fecha os olhos e imagina essa construção? Torna-se ainda mais sensacional).
Sim, mais sensacional porque essa passagem assemelha-se a um toque rilkeano na forma como desloca a realidade para dentro da percepção. A chuva talvez não seja física. Mas memorialista, no corpo sensível. Em “O choro de Jonas”, a morte sobre a terra infértil também não é apenas cena. É luto, silêncio e entrelinha. Rilke trabalhou intensamente essa passagem entre morte, interioridade, solidão e transfiguração poética, sobretudo nas Elegias de Duíno.
É exatamente desta forma que vejo a ascensão meteórica (mas firme e concreta) de Rogério Rocha, no contexto da poesia atual, da maranhensidade categórica e justa. E um detalhe incrível: Rogério Rocha não ‘copia’ o que estudou. Ele parece absorvê-los como nervura interna. O resultado é uma poesia curta, depurada, filosófica, mas ainda imagética. Não é pensamento vestido de verso. É pensamento que tenta nascer como verso.
Se você chegou até aqui é porque está muito interessado no texto. Então, finalizo com as seguintes dicas, com base no que aprendi ao longo desse tempo, não só lendo Rogério Rocha, mas alguns dos mais destemidos e corajosos poetas, isto é, fazer poesia séria fora da mesmice. Rocha se enquadra, com força, em sete dos “Dez Mandamentos da Poesia Potencializadora”:
1. Não confundir dor com poema
A dor tem que passar por pensamento, imagem e tensão metafísica. A poesia nunca deve entregar a ferida crua, mas transformada em travessia verbal.
2. Ler antes de escrever
Este é um dos pontos mais fortes. Ler outros poetas que se habilitem em gerar ‘insights’ para a sua ideia. É preciso poetar (não só com dom), mas com repertório adquirido. A poesia também, de leitura acumulada, não apenas de impulso emocional.
3. Construir imagem, não explicação
No caso de Rogério, posso exemplificar, nesse caso específico, imagens como “raio”, “precipícios”, “sangue” e “cheiro inflamável do caminho” sustentam o pensamento sem convertê-lo em tese. A filosofia entra pela imagem, não pelo discurso escolar.
4. Dominar o som do verso
Pelos versos citados, há cadência e pulsação. “Somos sonho, somos signo, / somos tempo, somos símbolo” mostra uso de repetição, ritmo e paralelismo. O verso pensa, mas também respira.
7. Transformar o “eu” em experiência comum
O sujeito lírico não fica preso ao caso pessoal. Quando fala de estrada, queda, símbolo, tempo e incompletude, amplia a experiência individual para uma condição humana. Esse é um traço de poesia madura.
8. Trabalhar o poema como arquitetura
A passagem de Pedra dos Olhos para A linguagem da ausência, sugere construção de percurso. Não é apenas sucessão de livros. É adensamento, depuração e deslocamento interno da linguagem.
9. Dar cultura ao mote
Este talvez seja o enquadramento principal. Aqui, neste item, Rogério também respira: pega temas recorrentes da poesia, ausência, caminho, tempo, queda, símbolo, desconstrução, (esse poema que fala das desconstruções de mitos é fundamental) e os eleva por cultura filosófica e imaginação. O mote não fica pequeno porque recebe espessura intelectual.
10. Revisar como crítico, não como apaixonado
Aqui o enquadramento é possível, mas exige cautela. Pelo intervalo entre os livros e pela ideia de amadurecimento de mais de três décadas, há sinal de elaboração prolongada.
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Como se vê, nada de crítica aqui nesses Mandamentos, mas de ciclo, de ideias e de maturidade pessoal para aceitar as coisas que não podemos modificar. Ser poeta, assim, não é só rimar palavras, é ter a certeza de sair da paisagem aberta para entrar no núcleo mais silencioso da palavra.
Mhario Lincoln é editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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