(*) EDMILSON SANCHES
Hoje, 1º de maio de 2026, o jornal "O Imparcial", de São Luís (MA), completa CEM ANOS. Uma edição de 40 páginas está circulando pelas bancas de jornais e revistas da capital maranhense e do interior, além de chegar às mãos de maranhenses pelo Brasil e o mundo e, também, aos gabinetes de autoridades políticas e gestores empresariais no País.
Convidado pessoalmente pelo diretor de Redação, Raimundo Borges, compareço nesta edição com o texto "Imparcial. Imortal". Está ali na página 23. Quem desejar ver a edição em arquivo PDF, visite "O Imparcial" no "site": https://oimparcial.com.br/. Meu texto vai reproduzido abaixo. Vida longa a "O Imparcial". Parabéns. (E. S.)
CEM - Os místicos e numerologistas encontram ou constroem simbolismos e significados para algarismos e números. O número 100 é bem positivo: abundância, alto potencial, independência, integridade... Também a exploração do novo, a ideia de liderança...
Para tudo isso transmitir, é necessário --- indispensável --- existir. Se mesmo antes da explosão das mídias digitais, dos aplicativos multiplataforma de mensagens instantâneas e chamadas de voz, a “coisa” já não estava fácil para os jornais impressos, imagine-se a sobrevivência na realidade “pós-moderna” de hoje.
Há 100 anos, exatamente desde 1º de maio de 1926, este “O Imparcial” existe. Há um século resiste. Resistiu a ameaças políticas... a crises econômicas... a concorrentes privilegiados... a planos governamentais malfadados... ao império da imagem, ao desprestígio da leitura... ao apelo visual, à preguiça mental... Talvez deva-se escrever “resistência” com “x”: “rexistência” --- pois a pré-condição para resistir é existir.
Este jornal é um resistente. Ao completar CEM ANOS, “O Imparcial” deixa de apenas registrar fatos. Ele passa a ser História.
Cem anos. Convenhamos: É muuuuita coisa. Como diz a Bíblia, Salmo número 100: “Celebrai com júbilo”.
COM – Estive no e COM “O Imparcial”. Fui diretor de sua sucursal em Imperatriz, Maranhão, década de 1980. Antes disso, fui seu colaborador, articulista. Revisitar suas edições de meio século atrás é uma mistura de lembranças e emoções... e coceira nas ventas, que ácaros e fungos, mofo e bolor cobram seu preço...
Sobre Imperatriz, destaco dois cadernos especiais que marcaram (e documentaram) aspectos da vida do município. Chamaram minha atenção e integraram minha coleção. Trata-se, um desses cadernos especiais, daquele que foi publicado em conjunto com o jornal de referência da Capital Federal, Brasília, o “Correio Braziliense”, do grupo (condomínio) dos Diários Associados, como “O Imparcial”. Esse caderno foi chamado de “O Maranhão de Corpo Inteiro”, de 35 páginas, publicado em 15 de março de 1987. Ali, a convite, compareci com artigo sobre a “Princesa do Tocantins” que ocupou duas das grandes páginas do jornal, formato “standard”, 35 cm X 56 cm. Meu texto era referência entre os 16 listados no Sumário ou Índice de Matérias.
Uma dúzia de anos depois, em 16 de julho de 1999, “O Imparcial” brindava com celulose, tinta e fatos os 147 anos da majestosa Imperatriz. Era um caderno de oito páginas, mais 12 páginas de outro caderno, exclusivo para a 31ª Exposição Agropecuária de Imperatriz, a tradicional EXPOIMP, que se realiza anualmente em julho, mesmo mês de aniversário da cidade. O município, que chegou a ter mais de 15 mil km2, ainda mantinha quase 6 mil km2 do seu antigo e grande território --- depois cederia para novos municípios mais de três quartos do total de sua área, hoje conservando-se com apenas 1.369 km2 (se o distrito de Lagoa Verde um dia não se tornar autônomo...).
Na direção da sucursal de “O Imparcial”, eu substituía o colega e amigo Sebastião Negreiros (1917-2003), nascido em Pau dos Ferros (RN) e decano do jornalismo imperatrizense à época. Ele se mudara para São Luís e eu fui procurado para teclar as letras e tocar o jornal. Éramos eu, o Tasso Assunção, repórter, a quem chamava meu secretário de Redação; a Thethê na coluna social; a Odete na área administrativa e comercial; e a Maria José no apoio ao escritório e à redação.
Um dos grandes momentos da equipe de “O Imparcial” de Imperatriz foi dar em primeira mão, na edição de 20 de abril de 1988, a notícia da condenação do pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa, o “Geraldão”, um dos responsáveis pela morte do padre Josimo Tavares Morais (1953-1986). Geraldo foi sentenciado a 18 anos e seis meses de prisão no julgamento que se encerrou praticamente à meia-noite do dia anterior, 19. Os colegas de “O Imparcial” em São Luís mantiveram a primeira e a oitava páginas abertas, esperando meu texto com a prolatação da sentença pelo juiz Raymundo Liciano Carvalho. Liciano, falecido em 23 de abril de 2018, era filho de Mirador (MA). Já tinha sido delegado de Polícia e advogado. Residia em Imperatriz desde março de 1984, dez anos de magistratura em 1986. Era fisicamente magro, pequeno, mas de olhar e posições firmes, como se via pessoalmente ou nas entrevistas à TV. Era conhecido meu, ele e o promotor Mílton dos Santos Mattos, ambos meus clientes no banco federal em que eu trabalhava.
No salão do Fórum da Justiça Estadual em Imperatriz podia-se jogar um carambolo para cima que ele não cairia no chão... Lotado o espaço. Jornalistas de todo o País e de diversas partes do mundo. BBC de Londres. Revista “Veja”. Nomes nacionalmente famosos do Direito estavam lá. Aquela terça-feira, 19 de abril, começara com chuva. Igreja, sindicatos e outras instituições e movimentos se manifestavam e se esbaldavam por toda a cidade e região. Afinal, guardavam na garganta um grito que começara a ser dado dois anos antes, em 10 de maio de 1986, dia do assassinato de Josimo em uma escada do edifício da Diocese de Imperatriz, onde fui o primeiro jornalista a chegar, logo que informado dos tiros contra o sacerdote.
A demorada espera da equipe ludovicense de “O Imparcial” foi compensada. Após aquela meia-noite, que migrara do dia 19 para o dia 20 de abril de 1988, um texto ocupando 5 cm X 6 cm na primeira página e a manchete principal na página 8 (policial), de 20 cm X 13 cm, com fotos do padre morto e do pistoleiro matador, asseguravam a “O Imparcial” o “furo” jornalístico já na edição da manhã de 20 de abril, poucas horas após a sentença do juiz Raymundo Liciano.
Entre as diversas notícias do cotidiano imperatrizense, um segundo momento de destaque foi a reportagem sobre o “leilão de virgens”, meninas menores de idade que eram persuadidas por promessas de mulheres e seduzidas por dinheiro de homens em leilões em casas exclusivas na periferia de Imperatriz, destino de “poderosos” da região. Algum tempo depois, em Fortaleza (CE), encontrei-me com o jornalista paulistano Gilberto Dimenstein (1956-2020), que lançava na capital alencarina seu livro “Meninas da Noite --- A Prostituição de Meninas-escravas no Brasil”, de 1992, no qual Imperatriz é um dos lugares da investigação do reconhecido escritor e homem de Imprensa, que integrou o Conselho de Redação do jornal “Folha de S. Paulo”. Na dedicatória em meu exemplar, como a lembrar minha anterioridade na apuração e cobertura de fatos como aqueles que ele registrou, Dimenstein escreveu: “Para Edmilson Sanches, testemunha ocular”.
Não importa quantos anos mais desejemos a “O Imparcial”: mais cem... mil... Não importa.
Ele é um jornal para sempre.
Imparcial.
Imortal.
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(*) EDMILSON SANCHES foi diretor da sucursal de Imperatriz (MA) na década de 1980.
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