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Edmilson Sanches: “PÁSCOA. Desta vez, o Cristo seremos nós”.

Edmilson Sanches é covvidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

05/04/2026 às 11h31 Atualizada em 05/04/2026 às 11h44
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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arte: mhl/Ginaift
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EDMILSON SANCHES
Cursos - Palestras - Consultoria
Administração (Pública e Empresarial) / Biografias 
Comunicação / Desenvolvimento / História / Literatura
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MINHA PAIXÃO

---- Como era a Semana Santa de sua infância?

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--- Desta vez, quem será levado à cruz... Desta vez, quem receberá a sentença, quem será açoitado, quem terá pés e pulsos varados por imensos cravos... Desta vez, quem morrerá à míngua de água e amor... Desta vez não será o Cristo... O Cristo seremos nós.

 

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Às 3 horas da tarde, Cristo dá seu último suspiro no Gólgota (ou Calvário, a colina fora de Jerusalém parecida com a forma de uma caveira -- daí seu nome aramaico “Gulgulta”, crânio).

 Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João registraram para a fé da História e para a história da Fé o lugar onde se ergueu em cruz o corpo ferido, debilitado, sanguinolento, lanhado a couro e ferro, pau e espinhos, além dos apupos da turba ignorante, que não sabia o que falava ou fazia.

Entre tantas “paixões de Cristo” que se inscreveram nas memórias de minha vida e na vida de minhas memórias, as da minha infância são as que se sublinham e resistem em minha mente pluridecenária -- o tempo e uma pouco convincente luta pela sobrevivência aos poucos vão destintando as cores outrora fortes de fé e fraternidade que cumpria ter ou obedecer e que marcavam cada período da chamada “Semana Santa” no interior onde eu morava e no interior que morava em mim.

 

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 Minha “Paixão” da infância se lembra de que, na Quarta-Feira Santa, Dona Carlinda Orlanda Sanches (saudades, mãe; permaneça aí com Deus!) já saía perguntando aos filhos e outros familiares quem iria “fazer jejum”, isto é, não tomaria café, nem teria almoço ou jantar na quinta ou sexta-feira -- só água e uma ou outra fruta e olhe lá... Seguindo o exemplo e força dos “mais velhos”, recordo-me de que jejuei diversas vezes.

 Quando alguns de nós silenciávamos ou demorávamos na resposta, minha mãe já sabia: preferíamos comida, e esta então era feita com antecedência, ainda na quarta-feira, de modo que, na quinta ou sexta, apenas teria de ser esquentada, por nós garotos, nos fogareiros a carvão feitos de barro e flandre das latas de querosene “Jacaré” (acumulava uma cinza daquelas, que cuidávamos de retirar).

 Ir à mesa para o almoço, só todo vestido -- e, antes, oração, contrição. Eram dias, aquelas quintas e sextas, em que não se pegava em dinheiro, não se faziam negócios, rádios só tocavam músicas sacras, corais, coros, instrumentais, histórias bíblicas.

 

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 Uma garantia naqueles dois dias, quinta e sexta-feira "da Paixão": menino sapeca não apanhava, não levava surra. 
 
Uma certeza, no sábado ou no domingo, após aqueles dias: taca! (É claro, se houvesse feito algum malfeito. Bem feito!)

Pois o “sábado de Aleluia” parecia se prestar a isso, tinha esse “clima”: garotos traquinas procuravam confusão, “tomavam satisfação”, “enticavam-se” mutuamente e até invadiam quintais para furtar ou auxiliar adultos a furtarem galinhas... e nós todos com a maior cara de santo aparecermos nas diversas malhações do Judas.

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 Era um tempo em que se respeitavam os mais velhos, em que menino tinha “criação” (uma saudável mistura de educação, bom comportamento, temor a Deus, respeito aos pais, dedicação aos estudos e disciplina em casa, ajudando nos afazeres e até na formação da renda do dia a dia). 

Os que se “comportavam” tinham um programa que se repetia anualmente: ir assistir o filme “Paixão de Cristo”... que também se repetia anualmente no Cine Rex ou no Cine São Luís, em Caxias. 

Assim, vestia-se a melhor roupa, aquela calça de tecido “bagaço de coco”, a camisa alinhadinha, os sapatos tinindo de graxa e brilho... (Consegui uma cópia daquele antigo filme “Paixão de Cristo”, da década de 1950 ou 1960, sem efeitos especiais -- exceto o de deixar sofrida a alma dos assistentes, que se indignavam com as cenas da escolha de Barrabás ao invés de Cristo, frente a Pilatos -- “Livra Barrabás!”; que pareciam sentir cada chibatada, cada empurrão, cada tropeço, cada queda, até o ferimento final pela lança de Longinus).

 

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 De dois mil anos para cá Cristo vem sendo morto e ressuscitado pelos que sucederam àqueles que, em seu tempo, foram os primeiros a saberem da remissão dos pecados, da possibilidade do Paraíso, da fruição da vida eterna. 

Ao cristicídio cotidiano Ele responde com amor. Com o pedido de perdão ao Pai, pedindo desculpas pelos que “sabem o que fazem”. Com o líquido final, sangue e água, que jorrou sobre os olhos do centurião que o ferira de morte e foi curado de grave doença ocular -- com o que Longinus, o soldado, alvo desse milagre “post-mortem”, abandona o exército romano, converte-se, vira monge, percorre terras em pregação cristã e, por isso, é preso, torturado, tem sua língua cortada e seus dentes arrancados, virando santo cultuado na Europa e América  --  é o São Longuinho dos três pulinhos da tradição cristã.
.
 Dois mil anos depois, ainda submetemos Cristo ao “espetáculo” de nossas paixões terrenas, onde interesses e desculpas amontoam-se para “justificarem” os erros e desacertos humanos.

 

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 Por antecipação deveríamos saber: anuncia-se uma segunda vinda de Cristo, mas não haverá uma segunda vida e morte d'Ele. 

 

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 Desta vez, quem irá para o patíbulo..., 

...quem será empurrado ao cadafalso..., 

...quem será arrastado à cruz..., 

...quem se secará ao sol clamando gotas de água e amor... 

 ...desta vez, quem receberá a sentença... 

 ...quem se submeterá à vergonha... 

 ...quem padecerá sob o açoite, o flagelo e a tortura... 

 ...quem será trespassado pelos cravos nos pulsos... 

 ...quem terá os imensos pregos cravados nos pés... 

 ...quem tentará inspirar, respirar e, pelo peso do corpo, não terá ar nos pulmões e se asfixiará...

 ...desta vez, quem receberá a espetada impiedosa da imensa lança que varará pele, romperá carne, afastará ossos, triturará órgãos e esburacará o peito...

 ...desta vez não será o Cristo...

 ...O Cristo seremos nós.

 

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Sobre o blog/coluna
Edmilson Sanches é um dos intelectuais brasileiros mais aplaudidos em diversas áreas da literatura contemporânea. É jornalista, consultor, palestrante, editor, bacharel em administração pública e licenciado em letras.
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